Conheci seu José Mendes, ou simplesmente Zé Mendes, quando eu tinha 12 anos. Ele desfilava pelas ruas da Nova Marabá em uma bicicleta Monark Barra Circular toda enfeitada, um espetáculo ambulante que chamava a atenção de quem passava. Nós, os moleques, não perdoávamos. Batizamos aquela magrela de “Cabaré Ambulante”, apelido que corria de boca em boca entre a molecada, numa mistura de malícia infantil, curiosidade e a certeza de que aquele homem não era igual aos outros. Hoje, quando revisito a cena na memória, percebo que a nossa brincadeira escondia uma espécie de homenagem involuntária. Zé Mendes tinha o dom de não passar despercebido.
Trabalhava na Secretaria de Obras da Prefeitura de Marabá, carregava uma ruma de filhos e dividia a vida com a esposa numa casa na Folha 16. Era um servidor público de longa caminhada, homem de muitos ofícios, desses que aprenderam a se virar antes mesmo de entender direito o tamanho das dificuldades do mundo.
Mas havia nele uma particularidade que não cabia no contracheque nem nos registros funcionais: Zé Mendes era poeta popular. Tinha a palavra como companheira, a memória como arquivo e a cidade como assunto permanente.
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Nascido em 15 de fevereiro de 1940, na beira do Lago do Carrapato, a sete quilômetros de Marabá, José Pereira Mendes veio ao mundo numa região em que a vida exigia braços fortes e coragem para enfrentar o desconhecido.
Seu pai, Felício Paixão, chegara à cidade em 1910, atraído pelo movimento da borracha, e depois se dedicara à roça e à castanha. A mãe foi embora quando Zé ainda era pequeno. Aos 15 anos, perdeu também o pai e ficou sozinho, sem a proteção que toda criança deveria ter, obrigado a descobrir por conta própria como continuar vivendo.
A infância, para ele, não foi propriamente uma infância. Enquanto outros meninos brincavam, Zé trabalhava, carregava água, fazia serviços domésticos e procurava um lugar onde pudesse dormir e comer. A escola demorou a aparecer. O pouco que sabia de letras aprendera em casa, com o pai, que lhe ensinara o ABC e contava histórias sobre a fundação de Marabá. Talvez tenha sido ali, entre as palavras ensinadas e as narrativas ouvidas, que começou a nascer o contador de histórias que ele se tornaria.
Aos 15 anos, entrou na Prefeitura como gari. Depois trabalhou em embarcações, viajou pelos rios, aprendeu ofícios que lhe permitiram sobreviver. Chegou a estudar no Mobral e, em determinadas ocasiões, virou professor para ajudar colegas com dificuldades de aprendizagem.
Aos 24 anos, já dava aulas particulares aos sobrinhos. Era uma trajetória curiosa: o menino que quase não tivera acesso à escola acabava ensinando os outros, movido por uma vontade de aprender que não se deixava vencer pelas circunstâncias.
Zé Mendes também foi fotógrafo e torneiro. Gostava de lembrar que as peças de ferro na entrada do antigo Cine Marrocos haviam sido feitas por suas mãos, quando trabalhava na oficina de mestre Teobaldo. Quase ninguém que passava por ali imaginava que aqueles ferros guardavam a assinatura invisível de um homem que ajudou a construir, com o próprio trabalho, pequenos pedaços da cidade. Foram décadas de serviço público, boa parte delas na Secretaria de Obras, onde passou por funções como fiscalização e almoxarifado.
Mas o trabalho não lhe tomou a poesia. Ao contrário, parecia alimentar sua maneira de olhar o mundo. Zé escrevia cordéis, guardava histórias, recuperava personagens e costumes de uma Marabá que já não existe do mesmo jeito.
Lembrava das festas de boi-bumbá, dos caretas, dos carnavais de rua, dos bailes com sanfona, clarinete e saxofone, das noites em que a energia era desligada às dez horas e a cidade mergulhava numa escuridão cortada apenas pelas conversas e pelos causos. Lembrava também das dificuldades, dos enterros em redes quando faltava dinheiro para um caixão e das relações de vizinhança em que quase todo mundo conhecia quase todo mundo.
A bicicleta enfeitada que cruzava a Nova Marabá na minha infância talvez fosse uma extensão desse espírito. Havia nela qualquer coisa de irreverência, de liberdade e de vontade de colorir uma existência que nem sempre fora generosa. Nós, meninos, enxergávamos o personagem engraçado, o “Cabaré Ambulante”. Não sabíamos quase nada das perdas que ele carregava, dos anos de trabalho, das aulas que aprendera a dar, dos filhos que criara ou das histórias que guardava. Para nós, era apenas Zé Mendes, o homem da bicicleta diferente.
A vida, felizmente, nos dá tempo para rever certas cenas e compreender melhor seus personagens. Hoje, penso que aquele homem que despertava risadas entre os moleques era também um guardião da memória marabaense. Um sujeito que aprendeu a ler tarde, mas nunca deixou de ler o mundo; que enfrentou a solidão cedo, mas construiu uma família numerosa; que trabalhou duro para sobreviver e ainda encontrou espaço para escrever versos e preservar lembranças.
Zé Mendes tinha orgulho de ser marabaense. Dizia que seu lugar era ali, entre os amigos, os parentes e os caminhos que conhecia desde menino. Definia-se como um “marabaense pobre e um paraense rico”. Talvez não exista maneira mais bonita de resumir uma vida. Rico de lembranças, de histórias, de experiências e de uma ligação com a terra que nenhum endereço novo seria capaz de apagar.
E eu, que aos 12 anos ri daquela bicicleta enfeitada sem compreender inteiramente o homem que a conduzia, guardo agora outra imagem. Vejo Zé Mendes pedalando pelas ruas da Nova Marabá, espalhando cores e curiosidade, enquanto a cidade crescia ao redor dele. O apelido ficou na memória, mas ganhou outro significado. Por trás do “Cabaré Ambulante” havia um poeta popular, um trabalhador e um homem que, à sua maneira, ajudou a contar a história de Marabá.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
