Após 49 anos da morte de Macabéa, a protagonista de “A Hora da Estrela” (1977), finalmente receberá um tributo que é uma verdadeira reparação à sua indigência social: ela ganhou o direito de gritar! Aquela de quem Rodrigo S. M., o narrador do romance, já havia dito que, por pertencer a uma raça anã e teimosa, um dia reivindicaria o seu direito ao grito.
E onde e quando será o grito da “nordestina amarelada”? Daquela que se autodefinia como “Sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-Cola”. O brado será expressado numa ópera. Sim, Macabéa vai virar ópera! E já temos lugar e data marcados para a estrela de Macabéa brilhar de verdade: Miller Theatre da Universidade de Columbia, em Nova York, no dia 29 de outubro de 2026. A compositora da ópera é Suzanne Farrin, que se inspirou na simplicidade da vida da personagem.
Se o título do romance parece uma profecia quanto ao destino da personagem, agora podemos confirmá-la: a hora da estrela de Macabéa foi o momento em que foi atropelada por um Mercedes-Benz amarelo, reluzente e estrangeiro. E ali, deitada no chão como “um cavalo morto”, teve enfim sua estrela brilhando. O destino preparou sua morte na sarjeta de um beco escuro. E, ironicamente, a protagonista que, quando viva, era muda e invisível, tem sua hora justamente no momento da morte.
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A personagem de Clarice é tão maravilhosamente bem construída que, para os milhares de leitores que a conhecem, ela é viva. Nós a sentimos. Tomamos parte em suas angústias e sofrimentos. Nos indignamos com as humilhações que lhe são impostas pelo namorado, Olímpico de Jesus, e pela colega de trabalho, Glória.
Macabéa é, segundo o narrador, o “cabelo na sopa”. Seu único luxo: “tomar um gole de café frio antes de dormir”; “sua voz era crua e tão desafinada como ela mesma era.” Macabéa não tinha força de raça, era “subproduto”. A personagem vive uma limitação interior por não conseguir expressar, verbalizar os seus sentimentos, suas angústias. A nordestina não percebe que sofre, pois lhe falta consciência de si: “Quando acordava não sabia quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-Cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser”.
O leitor que conheceu Macabéa se encontrou com a empatia e a compaixão durante a leitura, pois a nossa heroína não teve uma vida gloriosa. Ela viveu à margem. Essa mulher é capaz de despertar no leitor uma preocupação genuína com o futuro daquela indigente social. Mais que isso, desperta o desejo de salvar, de cuidar, de amar e de proteger aquela jovem sofrida, pois, como disse Clarice: “Ela não tinha anjo da guarda. Mas se arranjava como podia”. Macabéa estava sozinha no Rio de Janeiro, morando em uma pensão para moças solteiras, em um subemprego, sem família, sem amigos sinceros, sem rede de apoio.
Nossa heroína vagava pelas ruas do Rio de Janeiro sem proteção, sem consciência de si, sem autoestima. “Sequer esperança aquela pobre moça tinha; Macabéa nunca tinha tido coragem de ter esperança”. Macabéa não se preocupava com o próprio futuro: ter futuro era luxo. Eis a razão pela qual a alma do leitor é invadida pela vontade, pela necessidade de salvar a nordestina. É quase impossível conhecer a trajetória desta alagoana e não sentir vontade de salvá-la, de resgatá-la daquele estado de invisibilidade. A capacidade comunicativa de Macabéa era extremamente limitada, o que favorecia e reforçava sua invisibilidade social.
Finalizo com mais uma boa notícia: a ÓPERA MACABÉA fará sua estreia em Nova York, mas lá será apenas uma prévia – a exibição completa acontecerá aqui no Brasil, em 2027. Já tínhamos a nordestina no cinema, com a adaptação fidedigna do romance para o audiovisual, lançada em 1985. Agora, seu grito chega ao cenário musical. O romance A HORA DA ESTRELA é uma ótima opção para quem deseja conhecer a escrita de uma das maiores escritoras brasileiras. É a porta de entrada perfeita para a obra de Clarice Lispector. Até a próxima semana, queridos leitores!
* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
