Há nomes que a gente lê no jornal e esquece. Outros ficam.
Isabelle ficou.
Layane ficou.
Leia mais:Talvez porque, por trás dos nomes, existam duas histórias interrompidas. Duas mulheres que tinham manhãs pela frente, planos que ainda não tinham sido contados, mensagens que ainda seriam enviadas, abraços que ainda seriam dados. Duas vidas que, como tantas outras, não deveriam ter virado notícia de polícia.
Isabelle tinha 22 anos. Estudava Direito. Sonhava ser advogada. No dia em que morreu, havia mandado uma mensagem para a mãe: “Mãe, eu te amo”. Pouco depois, o silêncio. O caso ainda está sendo investigado pela Polícia Civil do Ceará, e as circunstâncias da morte permanecem sob apuração.
Layane tinha 37.
Na manhã da última segunda-feira, estava diante de uma oficina na Folha 21, em Nova Marabá, esperando o conserto da motocicleta. Um homem se aproximou e atirou. Ela morreu ali mesmo. A Polícia Civil informou que o ex-companheiro foi preso e autuado em flagrante por feminicídio. A investigação continua.
Duas mulheres.
Duas cidades.
Duas histórias diferentes.
E uma pergunta que não quer calar:
até quando uma mulher precisará ter medo de dizer não?
Porque, antes do tiro, da agressão, da ameaça ou da morte, muitas vezes existe uma coisa aparentemente menor. Uma ordem.
“Você não vai.”
“Você não pode.”
“Eu não quero que você saia.”
“Não fale com ele.”
“Me dê sua senha.”
“Mostre seu celular.”
“Você não vai terminar comigo.”
É aí que mora um dos perigos que precisamos aprender a reconhecer.
Homem nenhum é dono de mulher nenhuma.
Namorado não é dono.
Marido não é dono.
Ex-companheiro não é dono.
Quem ama não vigia cada passo. Não controla roupa. Não escolhe amizade. Não exige senha. Não determina com quem a mulher pode conversar. Não transforma ciúme em prova de amor. Não aceita o fim de um relacionamento como uma afronta pessoal.
Amor não combina com posse.
E talvez precisemos ensinar isso aos meninos antes que eles se tornem homens.
Precisamos ensinar que uma mulher pode ir embora.
Pode dizer não.
Pode mudar de ideia.
Pode escolher outro caminho.
Pode terminar.
Pode não responder.
Pode não querer.
Pode simplesmente não querer.
E isso não diminui homem algum.
Diminui, isso sim, a ideia de que masculinidade é mandar, controlar, intimidar ou impor.
Mas há outra conversa, igualmente necessária, que precisa ser feita com as mulheres.
Denunciem.
Não esperem a ameaça virar agressão.
Não esperem a agressão virar rotina.
Não esperem o medo ficar tão grande que pareça impossível sair.
Se alguma coisa dentro de uma relação começa a dizer que aquilo não está certo, procurem ajuda. Falem com a mãe. Com o pai. Com uma amiga. Com um irmão. Com alguém de confiança. Procurem a rede de proteção. Procurem a polícia. Procurem ajuda profissional.
Não é exagero pedir ajuda.
Exagero é acreditar que uma ameaça é apenas uma ameaça.
Exagero é chamar controle de cuidado.
Exagero é achar bonito alguém dizer: “Eu faço isso porque te amo”.
Amor não precisa de cárcere.
Amor não precisa de medo.
Amor não precisa de vigilância.
Amor não precisa de dono.
Talvez Isabelle ainda esteja dizendo “mãe, eu te amo” na memória de uma mulher que, agora, luta por respostas.
Talvez Layane ainda esteja esperando que alguém conserte alguma coisa, como naquela manhã diante da oficina, sem imaginar que o problema não estava na motocicleta.
Estava no mundo.
Um mundo que ainda precisa aprender uma lição muito simples:
mulher não é propriedade.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de honrar mulheres que partiram cedo demais: fazer com que seus nomes não sejam apenas lembrados pela maneira como morreram, mas pela transformação que suas histórias podem provocar nos vivos.
Que Isabelle seja lembrada pelos sonhos.
Que Layane seja lembrada pela vida.
E que nós, homens, aprendamos a reconhecer a diferença entre amar uma mulher e querer possui-la.
Porque amar é também saber ouvir quando ela diz “não”.
É saber respeitar quando ela diz “chega”.
É saber abrir a porta quando ela decide ir embora.
E, principalmente, é entender que nenhuma mulher precisa morrer para provar que tinha o direito de ser livre.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
