Correio de Carajás

Ísis Drumond transforma sua experiência em livro e estreia na 28ª Bienal em São Paulo

"Eu sou uma tagarela nata". A descrição é feita por Ísis Drumond, mineira de nascimento e paraense por identificação. Além de escritora, é jornalista e integra o time da TV Correio Parauapebas, lança seu livro "Casa de Oratória" na 28ª Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, no domingo (6)

Ísis Drumond: “Minha meta é fazer com que as palavras voltem a ter alma” / Fotos: Divulgação
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 02/09/2026 10h45

O lançamento apresenta a Metodologia de Identificação Disruptiva (MID), criada pela autora para romper com o ensino mecânico da oratória. A proposta é devolver alma às palavras e fazer da comunicação um exercício de “habitar a própria voz”. Para isso, o sistema parte das experiências de cada pessoa e busca transformar essa história em uma forma autêntica e estratégica de se comunicar.

A insatisfação com treinamentos padronizados levou Ísis Drumond a criar o método. Ela adaptou a lógica da tríade da comunicação empresarial, formada pelas áreas interna, institucional e mercadológica, para o desenvolvimento pessoal. A abordagem também usa elementos sensoriais para trabalhar a expressão corporal e vocal. A marcação musical do brega paraense, por exemplo, é usada para ensinar ritmo e entonação.

Com uma trajetória dedicada a contar histórias reais e mediar a informação pública, Ísis une voz, corpo e emoção para discutir a comunicação em uma era onde a comunicação rápida é ditada pelas redes sociais e pela inteligência artificial.

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Na entrevista ao Correio de Carajás, a jornalista explica a metodologia, fala sobre a cobrança profissional sobre as mulheres e mostra como cada pessoa pode reconhecer sua própria potência ao se comunicar.

Ísis usa a marcação do brega paraense como ferramenta para explorar a comunicação e convida o público a experimentar

Correio de Carajás – O que levou você a transformar sua experiência com comunicação e oratória em um livro e qual foi o incômodo inicial que deu o pontapé nessa ideia?

Ísis Drumond – Eu trabalho com oratória há mais de 10 anos e sempre me incomodei muito com a oratória puramente ferramental. Sabe aquela coisa do Karatê Kid? Tira o casaco, bota o casaco.

Acho que é possível aprender uma boa oratória, uma comunicação assertiva a partir das ferramentas, que são imprescindíveis, mas, quando você aplica sem entender a essência individual de cada pessoa, fica um processo muito mecânico.

E, no longo prazo, isso não se firma porque, como eu sempre digo, comunicar com assertividade e autenticidade dá muito mais trabalho do que comunicar de qualquer jeito. Temos a impressão de que fazer a mensagem chegar do outro lado já é suficiente. Mas como essa mensagem chegou? De que maneira ela foi percebida?

Quando eu trabalhava com comunicação estratégica dentro de uma universidade, focada em comunicação empresarial, me deparei com o estudo de branding, de gestão de marca e com a comunicação institucional.

Estudando essa metodologia, a gente chega à tríade da comunicação empresarial: interna, institucional e mercadológica. Fiquei pensando: por que raios a gente aplica isso tão bem para as empresas e não faz isso na vida pessoal?

 

Correio de Carajás – E como essa virada de chave na forma de ver a comunicação deu origem ao “Método MID” (Metodologia de Identificação Disruptiva) e acabou virando um livro?

Ísis Drumond – Essa metodologia nasceu para beber na fonte dessa tríade da comunicação, aplicando-a à nossa vida pessoal e, consequentemente, profissional, a partir das experiências individuais. Fiz vários testes, apliquei gratuitamente a metodologia com umas 40 ou 50 pessoas para entender se realmente funciona.

Estruturei num processo, uma espécie de linha do tempo, em que a comunicação interna contempla tudo o que a pessoa é e todas as experiências que viveu, boas e ruins. A institucional seria o recorte, a peneira feita dentro desse contexto para escolher as coisas que constroem a autenticidade dessa persona, desse perfil comportamental que vou expressar dali em diante. Por último, a mercadológica, que é o rótulo, a embalagem bonita que vou oferecer para o mundo.

Faço isso tanto nos cursos quanto nas mentorias, mas percebi que ainda existia um bloqueio: não consigo estar em todos os lugares nem acessar todas as pessoas. Então decidi transformar em um livro, porque, assim, de forma autodidata, as pessoas conseguiriam aplicar a metodologia mesmo sem ter acesso à minha mentoria.

 

Correio de Carajás – Por que você escolheu o título “Casa de oratória”?

Ísis Drumond – O nome “Metodologia de Identificação Disruptiva”, MID, faz um trocadilho com “Metodologia Ísis Drumond”, para fixar mais fácil na cabeça das pessoas. Mas é um nome técnico demais.

Toda a metodologia é sensorial, baseada nos nossos sentidos. Falo muito de olfato, de paladar, de como a música nos auxilia na construção da entonação correta. E a minha meta é fazer com que as palavras voltem a ter alma. Esse, inclusive, é o slogan: “Onde a palavra volta a ter alma”.

E onde é que tem mais alma na nossa vida? No nosso lar. Pensando em algo que fosse fácil de traduzir para as pessoas, veio o “Casa de Oratória”.

 

Correio de Carajás – O que significa, na prática, “habitar a própria voz”?

Ísis Drumond – É resgatar tudo aquilo que está dentro e colocar para fora com estratégia. Então, por exemplo, uma pessoa que tem um perfil comportamental mais expansivo, intensa e profunda, eu não posso chegar para ela falando: “Olha, em determinados ambientes, você simplesmente tem que se calar, falar baixo, num tom linear, porque senão você será mal interpretada”.

De fato, existe um retrabalho para quem expressa uma comunicação muito efusiva diante de um público mais reservado. Eu não posso fazer dessa pessoa alguém que ela não é. Tenho que ajudá-la a expressar o que tem dentro dela de forma estratégica.

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Correio de Carajás – A MID é uma metodologia própria sua. O que diferencia a de outros métodos de oratória?

Ísis Drumond – Principalmente o fato de não ser uma metodologia exclusivamente ferramental.

Eu trago conceitos de fonoaudiologia, exercícios para aquecer e suavizar a voz, para que a pessoa consiga construir um discurso que se conecte com o público, seja ouvinte ou leitor, sempre a partir de um olhar individualizado.

Então, apesar de ser uma metodologia proposta no livro para que a pessoa aplique sozinha, ela não é feita como linha de produção. Deve ser aplicada considerando a singularidade de cada pessoa. Acho que essa é a principal diferença: o olhar para o ser humano, para o indivíduo como potência para comunicar ao mundo com essa autenticidade.

 

Correio de Carajás – A dificuldade de falar em público ainda é um problema para muitas pessoas. Por que isso acontece?

Ísis Drumond – Este é o problema da humanidade. Existem pesquisas científicas que apontam que as pessoas têm mais medo de falar em público do que de morrer. Porque a morte é uma certeza, já o falar em público é uma exposição difícil de ser medida, mesmo com o preparo prévio.

Você pode ler um discurso, se preparar para dar uma aula, mas, na hora, vem aquele famoso “deu branco”. Isso acontece porque as pessoas querem pertencer a um grupo. A partir do momento que você se desnuda, se expõe para falar sobre alguma coisa, encara o olhar de julgamento, e ele virá mesmo que a pessoa não esteja te julgando negativamente. O olhar focado pode ser confundido com “hum, não tô gostando”. E o nosso cérebro nos sabota o tempo todo.

Quando a gente diz “falar em público”, normalmente as pessoas associam com grandes plateias, mas pode ser apresentar um relatório para o seu gestor. Você tá falando para apenas uma pessoa, mas está exposto. E o nervosismo acontece porque nós queremos pertencer, não queremos ser julgados e não queremos falhar, principalmente naquilo que dominamos.

Existe um conceito da neurociência que eu trabalho muito no livro: todo sentimento negativo gera em si uma intenção positiva. A ansiedade não é vontade de demonstrar ansiedade, é a vontade de fazer dar certo. Mesmo com todas as técnicas, o que a pessoa faz é ressignificar o sentimento.

O receio, o medo, é o seu cérebro falando: “Se prepare, porque existe um risco e você tem que trilhar um caminho para projetar o melhor resultado”.

 

Correio de Carajás – Como a relação entre voz, corpo e emoção interfere na forma como uma pessoa é percebida?

Ísis Drumond – Não existe comunicação a partir de um único ponto. Comunicar-se é um ato de se expor por inteiro.

Muitas vezes eu exponho primeiro o meu não verbal, a forma como eu chego, a postura, talvez até o sentimento que consigo fazer reverberar a partir da forma como conduzo um cumprimento, para só depois falar da mensagem em si. O que eu falo é muito importante, mas como eu falo e de que forma expresso o meu corpo conta muito mais.

A grande questão é que existe a nossa identidade e a nossa imagem. A identidade é aquilo que somos, a imagem é aquilo que o outro percebe do que somos. Quando esses dois caminhos estão desconectados, é como se fôssemos algo que não conseguíssemos mostrar. Aquela ideia de “parece que eu tô falando grego, fulano não me entende”. Normalmente a gente culpa o outro, mas a culpa é nossa por não construirmos uma mensagem preparada para aquela pessoa, para aquele público.

 

Correio de Carajás – Vivemos em uma época de excesso de informação e exposição nas redes sociais. Isso mudou a maneira como as pessoas se comunicam?

Ísis Drumond – Pode ser que sim, mas não necessariamente é uma obrigação. Voltando ao conceito de comunicação autêntica, se eu entendo que preciso construir essa persona, esse ser comunicacional, de forma muito conectada com o que eu já sou, na prática não tem que existir uma grande mudança. Me expor na rede social não significa mostrar uma pessoa diferente daquela que vive dentro de casa. A Ísis comunicadora na rede social precisa ser muito parecida com a Ísis que apresenta o jornal e com a Ísis que está dentro de casa com a família e com os amigos. Claro, com pequenos ajustes.

A forma como a gente coloca as palavras, o tipo de vocabulário, porque cada ambiente exige uma adaptação. O que acontece, ao meu ver, nesse contexto de excesso de informações, ainda mais em era de IA, é que a gente tem muito mais dificuldade para filtrar aquilo que é real e aquilo que é montado, porque não tenho mais a certeza de que o que as pessoas falam é legítimo.

 

Correio de Carajás – Como jornalista, o que a experiência de trabalhar com comunicação trouxe para a construção do livro?

Ísis Drumond – Uma coisa não existiria sem a outra. Eu só trabalho com oratória porque eu construí um caminho dentro da comunicação, a partir do jornalismo. Eu já era uma leitora ávida, sempre fui amante da literatura, sempre gostei muito de escrever desde pequena.

Acho que vem um pouco de família. Tenho a honra de ser realmente parente de Carlos Drummond de Andrade. E isso sempre conduziu muito a forma como eu enxergo a minha potência de escrita. Essa autoestima foi trabalhada desde muito cedo. Não foi algo que eu depois de adulta, passei a tentar entender “pode ser que eu escreva bem”.

Eu sempre gostei muito, sempre me preparei para isso e tinha consciência de que conseguiria escrever para que as pessoas entendessem de fato aquilo que falo. Só que tem um ponto. Eu sempre gostei de escrever poesia, textos um pouco mais complexos, mais rebuscados. E, quando trago para a oratória, não posso fazer da mesma maneira, porque vou afastar o público.

 

Correio de Carajás – Você tem uma trajetória muito ligada ao Pará e à valorização da identidade paraense. De que forma essa identidade aparece no seu trabalho atual?

Ísis Drumond – Em tudo. Desde a forma como eu me apresento na orelha do livro, na minha bio, quando fala que eu sou mineira de nascimento, mas paraense de alma e coração, que vim para a terra do açaí com peixe e me descobri essa amante do carimbó. Desde a forma de apresentar até a inserção de elementos da cultura paraense na própria metodologia.

Tem um ponto específico que eu falo sobre a música. Como é que os ritmos musicais podem nos auxilia a dar ritmo à nossa narrativa. E aí eu mostro como que a marcação do nosso brega pode ser uma potência para essa construção e para esse entendimento, e faço esse convite para que as pessoas experimentem.

E como eu sei que é uma obra que não vai ser acessada única e exclusivamente por paraenses, acho que também foi uma boa oportunidade de apresentar, ainda que de forma pontual, um pouco do nosso Pará para esse público diverso.

 

Correio de Carajás – O que você espera que o leitor consiga mudar na própria comunicação depois de ler “Casa de oratória”?

Ísis Drumond – Eu não acho que a palavra seja mudar. Eu acho que a palavra é enxergar, é perceber, sentir tudo aquilo que tem dentro e colocar para fora com estratégia.

Ao invés de repelir um trejeito, uma particularidade, um perfil comportamental, eu posso trabalhar para que seja estratégico a ponto de me trazer um rótulo de autenticidade. Esse é o meu principal objetivo.

E de forma mais poética, que é algo que eu sempre trago, é fazer com que você descubra quem é você na fila do pão. Não de uma forma prepotente, mas entendendo que se poder ser quem quiser dentro dessa fila e, ao mesmo tempo, plantar uma sementinha do bem no coração de cada um para que o indivíduo regue diariamente e consiga ver florescer e colher esses frutos, porque não sou eu que vou gerar a transformação.

Ali eu só tô mediando uma informação que vai facilitar esse processo.

 

Correio de Carajás – Qual é a essência da Ísis Drummond e como foi o início dessa trajetória?

Ísis Drumond – Ísis Drumond é uma tagarela nata, alguém que nasceu com uma vontade quase incontrolável de estar o tempo todo conectada com pessoas.

Nem sempre fiz isso de forma programada, às vezes era só com base na intuição, mas nunca gostei de estar sozinha. Não por não gostar da minha companhia, mas porque me sinto completa quando estou perto de outras pessoas.

Sou muito ansiosa, diagnosticada somente depois dos 30 e poucos anos, mas a ansiedade fez parte da minha essência desde sempre. Tenho pais extraordinários na forma como conduziram a construção da minha autoestima, além da minha irmã, sete anos mais velha, que seguiu pelo mesmo caminho.

 

Correio de Carajás – Nessa construção, de que maneira a cobrança por ser mulher impactou a sua busca por qualificação?

Ísis Drumond – Ser mulher é um desafio, porque a gente tem sempre que provar o nosso talento, a nossa competência 37 vezes, e eu tentei fazer isso desde sempre.

Fiz isso com os estudos, então nunca parei de estudar, fui emendando uma coisa na outra, terminei a faculdade, fui para uma pós-graduação em comunicação estratégica, emendei com mestrado em sociologia política, e na sequência fui desenvolvendo outros, outros cursos e tentei construir uma trajetória na comunicação muito plural.

 

Correio de Carajás – E hoje, dividindo essa trajetória entre a comunicação corporativa e o jornalismo de imprensa, qual é o seu objetivo central?

Ísis Drumond – Eu amo jornalismo tradicional, a imprensa, que é o que a gente faz hoje, mas amo a comunicação corporativa. Gosto de trabalhar dentro das empresas porque amo resolver problemas.

Uma das minhas metas é fazer com que as pessoas entendam que o problema não é um problema, na verdade, o problema é a solução. Se não existissem problemas, não existiriam cargos a serem desenvolvidos dentro das empresas. E, muitas vezes, é dentro delas que a gente tem acesso a problemas mais grandiosos.

Na comunicação do jornalismo tradicional, meu objetivo é contar histórias da forma mais humana possível. Quando são pautas que me atravessam, como a própria identidade paraense, essa defesa da identidade nortista, a violência contra a mulher ou pautas de interesse público, faço isso com a certeza de que existe um propósito: mostrar às pessoas a gravidade de determinadas questões, sempre com verdade e com base na contação de histórias.

Eu só tô ali como mediadora, não como protagonista dessa informação. Acho que é isso.

O lançamento acontece no domingo (6), no estande da editora Kotter durante a 28ª Bienal do Livro em São Paulo