📅 Publicado em 09/08/2026 08h30✏️ Atualizado em 07/08/2026 17h56
São 15h30. O sol do verão marabaense “estrala” do lado de fora. Mas, em uma residência na Marabá Pioneira, o cheiro de massa fermentando toma conta da casa inteira. Lá dentro, Aroldo da Silva Portilho, o Muchacho, comanda sua cozinha como se estivesse regendo uma orquestra. Ele prepara seus famosos – e deliciosos – salgados.

Houve uma época em que a venda do alimento sustentou a permanência do filho na faculdade de Medicina na Bolívia. Hoje, o trabalho mantém acesa a alma do homem que se recusa a descansar.
Imerso na correria de preparar as pizzas, enroladinhos e gostosões, Muchacho é imparável. Conversa enquanto recheia a massa; dá explicações entre as fornadas; atende à ligação dos clientes enquanto organiza as caixas de isopor.
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Então Marpel Jone da Cunha Portilho, de 36 anos, chega em casa. Logo ele pergunta pelas luvas e pela touca, a intenção é ajudar o pai no preparo dos salgados. O ciclo da família está completo.
“Tenho muito orgulho do meu pai”
“Eu fiz um pacto com Deus, do dízimo, e acontecia um milagre que a gente não entendia. Pagava aluguel, água, luz e a faculdade. Não atrasava”. É com esse testemunho que Muchacho explica que, apesar das dificuldades, as despesas da casa e do filho sempre foram pagas. Mas essa é só uma parte da história.

O ano era 2004, a família desembarcou em Marabá para que Telma Santos Silva da Cunha, esposa de Muchacho, assumisse o cargo de técnica em enfermagem após passar em um concurso da prefeitura. Enquanto ela desempenhava suas funções nos corredores da casa de saúde, ele desbravava diversas profissões.
“Tentei trabalhar de uma coisa e de outra. Fiz curso de elétrica e de hidráulica. Comecei a trabalhar, mas não tinha conhecimento (quem lhe indicasse) e aí o negócio apertou e eu tive que ir para o mundo dos salgados”.

Apesar da disposição para cozinhar, Muchacho não conhecia as receitas. Foi a esposa quem aprendeu a técnica com uma colega e repassou para o marido. Ele começou e nunca mais parou. Logo batizou o negócio como ‘Muchacho Lanches’, pois a alcunha já era famosa entre os conhecidos.
“Eu ia no mercado e quando passava, falava: muchas gracias, muchacho. E aí começaram a me chamar assim”.
“Quis ser médico para atender as pessoas com humanidade e amor”
O desejo de Marpel nasceu de um joelho ralado. Aos 12 anos, ainda morando em Tucuruí, o menino caiu de bicicleta. Ao chegar ao hospital, a dor logo se transformou em encantamento. Ser tratado com paciência e empatia por um médico todo vestido de branco plantou a semente. Ali, ainda garoto, ele quis se tornar um profissional que atendesse os pacientes com humanidade e amor.
Anos depois, o jovem descobriu que o sonho do curso de Medicina estava do outro lado da fronteira. Apesar do esforço para passar em uma universidade federal brasileira, Marpel percebeu que, devido à grande concorrência, a aprovação demoraria um certo tempo.
Ainda que a mãe tivesse conseguido um emprego com salário melhor e o pai se esforçasse no trabalho autônomo, o valor alto da mensalidade em uma faculdade particular também estava fora da sua realidade. Ir para o exterior foi a solução.
“Minha mãe disse que ia fazer plantões para me ajudar e que meu pai ia vender salgado na rua para que eu pudesse me sustentar. Eles falaram que iam me apoiar e que iriam fazer de tudo para que desse certo”, conta Marpel.
E foi assim que, durante sete anos, Telma não viu a cor do próprio salário. Todo o dinheiro que recebia dos plantões como técnica de enfermagem ia direto para sustentar o filho na Bolívia. Enquanto isso, no Brasil, o carrinho de lanches de Muchacho segurou sozinho o aluguel, a água, a luz e a comida na mesa.

A primeira parada do jovem estudante foi na Argentina, mas uma crise no país tornou o câmbio desfavorável para brasileiros, então ele resolveu seguir para a Bolívia. Anos depois, ao passo que a economia boliviana melhorava, o poder econômico de Marpel por lá diminuía.
Já casado com Tamires Gomes Vilarins Portilho, naquela época também estudante de Medicina, o filho de Muchacho seguiu o exemplo do pai e começou a produzir salgados, churros, doces e até vatapá para complementar a renda.
“A gente trabalhava, meus pais ajudavam, os pais dela também ajudavam e a gente juntou toda essa força aí, esse time para se mobilizar e tentar avançar no estudo e não desistir”.
“Eu não imaginava que com ajuda dos meus lanches meu filho ia se formar em Medicina”
Acordar de madrugada se tornou um hábito para Muchacho; trabalhar de manhã e à tarde virou rotina. Equilibrar o orçamento da casa para formar o filho – e posteriormente a esposa – era o objetivo.

“É uma satisfação muito grande que a gente tem, mesmo tendo sido muito difícil. Ele se esforçou muito para conseguir chegar onde tá hoje. É muito prazeroso para quem é pai, porque tem muitos filhos que não valorizam. Graças a Deus ele e a esposa se esforçaram muito para conseguir se formar”.
De volta ao Brasil, Marpel e Tamires tinham mais uma pedra no caminho: a prova “Revalida”. O exame nacional é obrigatório para médicos que se formaram no exterior e querem exercer a profissão no Brasil.
Sem vaidade e precisando se manter até a aprovação, o médico passou o primeiro ano de retorno vendendo espetinho na frente de casa. Tamires concluiu o processo primeiro, o de Marpel veio depois.
Hoje, o menino que sonhava em acolher as pessoas tornou-se um especialista em Saúde da Família e Marpel vive diariamente o propósito que o levou à Medicina.
“Sou eu o médico que vai te atender hoje, o filho do Muchacho”
Por amor e gratidão, agora com a vida estabilizada e um futuro promissor pela frente, Marpel proporcionou ao pai e à mãe os confortos que antes não eram possíveis.
Ajudou na burocracia da casa própria de Muchacho e deu ao pai um carro de presente. Também faz questão de mimá-lo do jeitinho que ele mais gosta: com muito açaí e peixe frito.
A chegada da pequena Ana Luísa Vilarins Portilho completa o livro de histórias da família.

“Valeu a pena. Todo o esforço, todo o sacrifício de acordar de madrugada para fazer o lanche, conseguir formar ele e vê-lo chegar onde chegou. Graças a Deus ele tá me ajudando até hoje, isso para mim é uma satisfação muito grande”, conclui Muchacho com o sorriso tímido de um pai orgulhoso.
