Correio de Carajás

Foi preciso perder meu pai pra achar minhas palavras

Por: Ulisses Pompeu
✏️ Atualizado em 09/08/2026 10h38

Mesmo sem saber, a primeira crônica que escrevi nasceu depois da morte de meu pai, Francisco Pompeu, em fevereiro de 1993.

Naquele tempo, eu não sabia que aquilo era uma crônica. Achava que havia escrito uma notícia em forma de homenagem. Hoje, mais de três décadas depois, olhando para aquelas linhas com os olhos de quem passou a vida entre palavras, reconheço ali uma crônica póstuma. Ou uma elegia, como preferem chamar os literatos.

Eu ainda não trabalhava em jornal. Na verdade, nem sonhava que um dia viveria de escrever notícias.

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Peguei aquele texto, escrito à mão, e pedi a um amigo, Manoel Freitas, que perguntasse ao dono do jornal, Mascarenhas Carvalho, quanto custaria publicá-lo no impresso. Custou meio salário-mínimo. Não hesitei em pagar.

Eu precisava que aquelas palavras encontrassem outras pessoas.

Até hoje me lembro do título: “Descansa o Príncipe do Itacaiunas”.

Naquele texto, eu tentava contar quem havia sido meu pai a partir do lugar onde ele parecia mais inteiro: dentro de uma embarcação, conduzindo-se pelas águas do Itacaiunas com a intimidade de quem conhecia cada curva, cada pedra, cada perigo.

Descrevia a maestria com que o velho Chico Pompeu singrava o rio, enfrentando corredeiras e cachoeiras, passando pela temida “Deus-me-livre”, pela “Cachoeira Grande” e por tantas outras, até alcançar seu destino. Às vezes, no interior do Tapirapé. Outras, numa colocação conhecida como “Costa”.

Era assim que eu sabia contar meu pai.

Pelo rio.

Pelas viagens.

Pelas histórias.

Hoje, quando releio aquele texto de mais de 30 anos atrás, sinto um pouco de vergonha de algumas palavras. Faltava acentuação aqui, sobrava entusiasmo ali. Havia a inexperiência de um rapaz que ainda não dominava a escrita, mas já carregava dentro de si uma necessidade quase física de registrar o que sentia.

Talvez seja isso que mais me comova.

Aquele jovem não sabia escrever direito, mas já sabia que algumas histórias não podiam morrer junto com seus personagens.

Três anos depois, em 1996, eu estaria sentado numa redação, no CORREIO DO TOCANTINS, escrevendo notícias para ganhar dinheiro. E, desde então, lá se foram 33 anos de jornalismo, com praticamente o mesmo entusiasmo daquele começo.

A crônica, porém, demorou um pouco mais para aparecer.

Veio no meio dessa caminhada, quando comecei a tentar imitar, ainda que modestamente, Ademir Braz. Ele nos brindava semanalmente com histórias marabaenses, ora carregadas de humor, ora atravessadas pela dor, mas quase sempre capazes de transformar uma pequena cena da cidade em alguma coisa maior.

Foi com ele que comecei a entender que uma cidade também pode ser contada pelas suas miudezas.

Uma conversa.

Um personagem.

Uma lembrança.

Uma esquina.

Um silêncio.

Uma saudade.

E talvez tenha sido aí que meu jornalismo começou a mudar.

Depois de tantos anos escrevendo crônicas, percebo que elas funcionaram como um laboratório permanente de linguagem e de observação humana. A crônica ensinou o jornalista a olhar um pouco além do fato. A perceber o que existe por trás da notícia: um gesto, um silêncio, uma contradição, uma memória, uma pequena cena.

A informação continua sendo informação. Mas, quando encontra o humano, ela ganha outra dimensão.

E pensar que tudo começou com a morte de meu pai.

É curioso como algumas ausências continuam trabalhando dentro da gente.

Meu pai morreu, mas não deixou de viajar comigo.

Ainda o encontro nas águas do Itacaiunas, nas lembranças de Serra Pelada, nas viagens a Belém, nas histórias que ouvi quando menino. Aqueles caminhos percorridos ao lado do velho Chico Pompeu ajudaram a forjar meu caráter, minha paixão por esta terra e, talvez sem que ele jamais pudesse imaginar, minha necessidade de contar a história dela.

Vieram os livros. Vieram as pesquisas. Vieram personagens, documentos, fotografias, memórias. Vieram páginas e mais páginas sobre Marabá.

E, no fundo de muitas delas, havia um homem que me ensinou a olhar.

Raramente uso o nome de meu pai em uma crônica. Talvez porque não seja necessário.

Há pais que continuam presentes mesmo quando seus nomes não aparecem.

Estão na maneira como a gente atravessa uma dificuldade. No respeito pelas pessoas. Na coragem de enfrentar um caminho desconhecido. Na relação com a terra. Na paixão por um rio. Na vontade de contar uma história.

Meu pai está um pouco em tudo isso.

Esta semana, Theíza, minha colega de trabalho, pediu que cada jornalista lhe entregasse uma fotografia com o pai para um vídeo em homenagem ao Dia dos Pais.

Eu não tinha uma.

Ela sugeriu que eu recorresse à inteligência artificial para criar uma imagem.

Fiz.

E o resultado me surpreendeu.

Gostei tanto que preferi não mostrar a ninguém da família antes da divulgação. Talvez porque, por alguns instantes, aquela imagem me devolvesse uma coisa que a vida não consegue devolver: a possibilidade de estar novamente ao lado dele.

Uma fotografia que nunca existiu.

Mas uma memória que sempre existiu.

Neste Dia dos Pais, eu penso no menino que fui, no pai que perdi e no homem que me tornei. Penso também nos meus filhos, Breno e Brenda, e nas minhas netas, Maria e Mirela.

O tempo passou.

A mala ficou maior.

Vieram responsabilidades, alegrias, perdas, livros, jornais, crônicas e histórias. E percebo que, de alguma maneira, continuo carregando aquele rapaz que, em fevereiro de 1993, sentou-se diante de uma folha de papel e tentou escrever sobre o pai.

Talvez aquela tenha sido minha primeira crônica.

Por isso, esta coluna é dedicada a ele.

E, também, a todos os filhos que perderam seus pais, mas continuam encontrando-os nas pequenas coisas: numa fotografia, numa viagem, numa palavra, num cheiro, numa história contada muitas vezes.

Porque há pessoas que morrem.

E há pais que apenas deixam de viajar ao nosso lado.

O resto da viagem, a gente continua fazendo com eles dentro da memória.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras. Hoje, em especial, em memória de seu pai, Chico Pompeu