Correio de Carajás

Inspirada em Conceição Evaristo, estudante da Unifesspa promove oficina de poesia para mulheres

Mayza: "A ‘escrevivência’ é algo que marca muito sobre mim. Eu gosto bastante de escutar histórias da minha avó”/ Fotos: Evangelista Rocha
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 11/05/2026 16h51

A literatura como ferramenta de escuta e acolhimento para mulheres de Marabá é a proposta de Mayza Cardoso Coelho, 20 anos, da estudante de Letras Português da na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). Nos dias 12, 13 e 14 de maio, ela conduz o projeto ‘Vozes que Escrevivem: Oficina de Escrita Poética com Mulheres de Marabá Inspirada em Conceição Evaristo’. As atividades do encontro serão realizadas na Unidade I da Unifesspa, Folha 31.

O evento gratuito, exclusivo para mulheres, é pensado para a comunidade acadêmica e externa. Ele ocorre das 18h às 19h45 e busca transformar vivências e lembranças pessoais em arte. Para as mulheres da região que desejam transformar suas histórias em poesia, as inscrições continuam abertas pelo Instagram @vozesquescrevivem. O acesso ao formulário está disponível no link da biografia da página.

Viabilizada pelo Edital 05/2025 de experimentação artístico-cultural do Programa Institucional de Bolsas de Extensão (PIBEX) da Unifesspa, a iniciativa conta com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Estudantis e da Pró-Reitoria Intercultural. Para concretizar a ideia, Mayza teve o suporte de uma prima que já possui experiência na organização de ações culturais voltadas à comunidade.

Leia mais:

A oficina de produção textual idealizada pela estudante passa longe das regras gramaticais rígidas e prioriza a expressão livre e sensível de quem participa: “É um curso, são oficinas de escrita poética, onde essas mulheres que se inscreveram vão ter a oportunidade de criar os seus próprios poemas a partir da sua imaginação”, explica.

Cada dia de encontro propõe uma forma diferente de olhar para a própria história. Em 12 de maio, as participantes conhecerão a obra de Conceição Evaristo a partir de um conto centrado na personagem Maria, o que servirá de fio condutor para a criação do primeiro poema autoral. No dia 13, o foco será a poesia visual, unindo palavra e imagem por meio de recortes e colagens. Já no dia 14, as mulheres irão construir um ‘videopoema’ coletivo, utilizando recursos acessíveis de som e imagem.

O encerramento será celebrado no dia 13 de junho com um sarau poético. Nesse momento de partilha, os textos produzidos ao longo da oficina serão apresentados e reunidos em uma antologia digital para o acervo da universidade. O material publicado funcionará como um registro permanente da voz, da resistência e da identidade dessas mulheres.

Mayza: “Acredito que as mulheres que conhecerem essa autora vão se identificar sobre os traumas, as memórias e o significado de ‘escrevivência’”

ESCRIVIVÊNCIA

A grande inspiração de Mayza para acolher essas narrativas é Conceição Evaristo. Nascida em Belo Horizonte no ano de 1946 e de origem humilde, a escritora trabalhou como babá e empregada doméstica antes de se consagrar como mestre e doutora em Literatura. Eleita a Personalidade Literária do Ano pelo Prêmio Jabuti em 2019, ela é um dos maiores expoentes da literatura afro-brasileira e a criadora do conceito de ‘escrevivência’. O termo define a escrita de mulheres negras que mistura vivências pessoais e coletivas para denunciar o racismo e a discriminação de gênero, dando visibilidade e voz aos corpos marginalizados e à dor social.

Obras fundamentais da autora, como o romance Ponciá Vicêncio (2003), os livros Poemas da Recordação e Outros Movimentos, Canção para Ninar Menino Grande e o livro de contos Olhos d’Água (2014) deram a base do projeto. Foi exatamente o último título que mais tocou a estudante marabaense durante o seu processo de formação literária, que começou a se aprofundar na universidade.

“Quando eu li pela primeira vez, eu chorei bastante. Fiquei pensando como que existe uma escrita desse jeito, que pode fazer você chorar quando você lê”, relembra Mayza. Enquanto universitária, a estudante deseja seguir trabalhando com literatura negra e espera que o público sinta o mesmo abraço nas palavras de Evaristo.

“Acredito que as mulheres que conhecerem essa autora vão se identificar sobre os traumas, sobre as memórias, sobre o significado de ‘escrevivência’”.

Moradora da Folha 28, a organizadora encontra a força do seu projeto dentro de casa, na figura da avó, com quem divide a rotina. Analfabeta, a matriarca carrega na memória uma trajetória de resistência que ensinou à neta o valor inestimável da tradição oral.

“A ‘escrevivência’ é algo que marca muito sobre mim. Eu gosto bastante de escutar histórias da minha avó. Se ela pudesse transcrever tudo aquilo que ela fala, seria algo muito bom, sobre tudo o que ela passou na vida dela”, compartilha Mayza. Para ela, a oralidade e a escrita caminham lado a lado, sem hierarquias de importância.

Esse olhar atento para a literatura começou cedo, ainda no ensino fundamental. A responsável por despertar essa proximidade foi uma professora que lia para a turma o livro ‘As Memórias de Eugênia’: “Ela sempre lia um trecho desse livro como se fosse um capítulo de novela, para a gente ficar querendo saber o que ia acontecer”, conta.

Por meio da oficina, a estudante busca consolidar a literatura não apenas como uma experiência de escuta, mas como um espaço possível para que outras mulheres também encontrem caminhos para registrar e validar suas próprias histórias.