A Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) realiza nos dias 21 e 22 de maio o ‘1º Encontro de Extensão na Pós-Graduação’ (I ENEX-PG), com o tema ‘Práxis extensionista na Amazônia Oriental’. O evento busca debater e reconfigurar o papel da ciência na região, colocando pesquisadores e movimentos sociais lado a lado para propor soluções a problemas urgentes, como a crise climática, o racismo e as desigualdades geradas por grandes projetos econômicos.
A iniciativa faz parte de um programa nacional financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e reúne sete programas de pós-graduação da universidade. As inscrições podem ser realizadas pelo link: https://www.even3.com.br/e/i-enex-pg-715122.
Segundo Hiran Possas, professor da Faculdade de Educação do Campo e coordenador do projeto, a proposta inverte a lógica tradicional da academia.
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“Não podemos pensar a extensão apenas da universidade atendendo os territórios, mas como esses territórios podem transformar a universidade. A instituição pode mudar com a participação efetiva dessas pessoas aqui dentro”, afirma o professor.

A programação do primeiro dia conta com mesas sobre participação social na universidade e oficinas de leitura. Já o dia 22 foca no balanço das atividades dos programas envolvidos e dedica o período da tarde a uma mesa sobre representações da diversidade, englobando povos indígenas, população negra, pessoas com deficiência e a comunidade LGBT.
Hiran destaca que a presença desses grupos exige adaptações estruturais e burocráticas da instituição.
“Provavelmente, o público indígena deve solicitar mudanças nas resoluções, porque tem a questão do luto, que é diferente do luto ocidental. Há também a necessidade de termos um restaurante universitário que funcione nos três turnos justamente por causa desse perfil de estudantes”, exemplifica o coordenador.
Para os alunos envolvidos na organização, o encontro reflete as tensões reais vivenciadas pelas comunidades frente à exploração regional. Airely Neves Pereira, pesquisadora das relações entre desenvolvimento e racismo e ativista de movimentos sociais, ressalta que o modelo econômico imposto ao sudeste do Pará gera impactos diretos nas populações vulneráveis.
“Esses projetos chegam no nosso território de forma invasiva muitas vezes, sem o diálogo com a comunidade. Os nossos rios são contaminados, as florestas são derrubadas. Quem são as pessoas que morrem no meio desse processo? São os indígenas, são os negros que são explorados depois no trabalho precário”, questiona a pesquisadora.

Diante desse cenário, os participantes defendem que a universidade atue na linha de frente com propostas práticas. Uma das alternativas em pauta é a agroecologia, área de estudo de Hailan Solidade, integrante de movimentos sociais do campo e membro da comissão organizadora do seminário.
A complexidade das dinâmicas populacionais também exige a inserção da área da saúde nas discussões. João Paulo Luz da Silva, estudante de biomedicina da Universidade do Estado do Pará (Uepa) e membro da comissão científica, reforça essa necessidade.

“O projeto fala bastante sobre a interdisciplinaridade, então a gente não pode deixar de incluir a saúde. Às vezes as pessoas não entendem onde cursos da área da saúde entram, mas para estudar as dinâmicas dos povos é muito importante sempre trazer esse tópico”, pontua João Paulo.
O ciclo atual do projeto de extensão encerra em outubro deste ano. A organização defende a renovação da iniciativa pelo governo federal, argumentando que a aproximação com a sociedade deve ser uma política permanente.
“Se a universidade não se abre para a diversidade, que conhecimento que a gente vai estar produzindo? É um conhecimento excludente. Eu defendo aqui a continuidade e o fortalecimento desse projeto para que a Unifesspa se constitua cada vez mais a fim de incluir essa diversidade”, conclui Airely.

