Correio de Carajás

O que é limerência e por que ela pode ser confundida com amor?

Especialistas explicam como a idealização, a obsessão e a incerteza emocional transformam paixões intensas em um fenômeno psicológico cada vez mais discutido

Balão vermelho em forma de coração com tesoura cortando a linha, sobre fundo rosa.
O que é limerência e por que ela pode ser confundida com amor? — Foto: Getty Images
✏️ Atualizado em 11/05/2026 17h12

Conhecer alguém novo pode ser empolgante. Às vezes, até demais. Em pouco tempo, você se pega imaginando futuros possíveis, projetando compatibilidades e fantasiando uma relação que ainda nem começou. Bastam um ou dois encontros para que o coração acelere e a mente avance várias casas, como se aquele sentimento já fosse amor. Essa intensidade inicial, tão sedutora quanto vertiginosa, costuma ser associada a uma ideia romântica de paixão arrebatadora. Mas, na maioria dos casos, o que está em jogo não é exatamente amor, e sim um fenômeno conhecido como “limerência“.

Esse termo foi cunhado em 1970 pela psicóloga americana Dorothy Tennov, a partir de seus estudos sobre o que ela chamou de “amor romântico obsessivo“. Ao investigar relatos de pessoas intensamente apaixonadas, Dorothy identificou um padrão marcado por pensamentos intrusivos, idealização do outro e uma necessidade quase urgente de reciprocidade. Mais do que uma simples paixão, a limerência descreve um estado psicológico específico, em que o desejo é alimentado tanto pela fantasia quanto pela incerteza.

“Não é apenas ter um crush”, explica a psicoterapeuta Hasti Afkhami. “É uma experiência que envolve corpo e mente por completo, com expectativas, medos e fantasias palpáveis. Uma espécie de desejo bioquímico, cheio de altos e baixos.” Em outras palavras, não é tanto sobre a pessoa em si, mas sobre a ideia que você constrói dela.

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No turbilhão da atração inicial, a limerência pode facilmente se confundir com o que tantas comédias românticas vendem como “amor à primeira vista”. A diferença, segundo especialistas, está no tempo e na reciprocidade: enquanto o amor se constrói no encontro real com o outro, a limerência nasce da projeção — e se alimenta justamente daquilo que ainda é incerto.

Quando a fantasia ocupa o lugar do real

 

É por isso que, nesse estado, a outra pessoa costuma ser colocada rapidamente em um pedestal. Com poucas informações concretas, a imaginação preenche os espaços em branco: você supõe intenções, atribui profundidade emocional e cria uma versão idealizada que pouco tem a ver com a realidade. “Basicamente, você está idealizando essa pessoa e a enxergando como perfeita”, diz Afkhami.

Além disso, pequenos gestos também passam a ter um peso desproporcional. Uma mensagem a mais pode parecer prova de conexão; um plano simples pode ser interpretado como sinal de algo maior. Ao mesmo tempo em que atitudes inconsistentes são relativizadas. O vínculo, nesse caso, se estabelece com quem você acredita que o outro seja e não com quem ele realmente é.

Outro elemento central da limerência é a incerteza. “Feedback inconsistente, por exemplo, tende a intensificar esse fenômeno”, afirma a terapeuta Silva Depanian. Não saber exatamente onde você está, se o interesse é correspondido ou como as coisas vão evoluir funciona quase como combustível. Paradoxalmente, quando há reciprocidade, o interesse pode diminuir. Diferente de um vínculo saudável, que cresce a partir de consistência e troca, aqui o que seduz é justamente a instabilidade.

Em muitos casos, essa intensidade também encontra terreno fértil em momentos de vazio ou falta de direção. “Quando você se sente entediado com a própria vida, geralmente por uma percepção de falta de propósito ou direção, há poucas coisas capturando sua atenção“, explica Afkhami. “Isso facilita que a limerência, um vínculo avassalador, tome conta.” De repente, alguém que você mal conhece passa a ocupar um espaço desproporcional — não necessariamente por quem é, mas pelo que representa: novidade, excitação, distração.

O efeito colateral da intensidade

 

Essa dinâmica costuma se refletir diretamente no humor. Em um envolvimento mais equilibrado, o outro pode influenciar seu estado emocional, mas não o controlar. Já na limerência, até pequenas interações, ou a ausência delas, ganham peso extremo. “Esses momentos se tornam decisivos”, explica Depanian. Uma mensagem de “bom dia”, por mais simples que seja, pode transformar completamente o dia; por outro lado, uma resposta atrasada ou um plano remarcado pode desencadear ansiedade, frustração e até pânico.

Com o tempo, esse padrão tende a invadir outras áreas da vida. Os pensamentos se tornam recorrentes, quase intrusivos, dificultando a concentração e afetando a rotina. Compromissos são reorganizados em função de encontros incertos, horas são gastas analisando mensagens ou tentando interpretar sinais ambíguos. “Mesmo quando você está trabalhando, socializando ou tentando relaxar, sua mente volta para essa pessoa às custas do seu próprio bem-estar”, diz Depanian.

Como sair do ciclo?

 

Reconhecer esse tipo de apego nem sempre é suficiente para dissolvê-lo. “A limerência não tem um botão de desligar, mas pode ser amenizada com esforço intencional ao longo do tempo“, afirma a terapeuta. “Uma das coisas mais simples é reduzir os estímulos.” Ou seja, resistir à vontade de checar redes sociais, reler conversas ou analisar cada interação.

Ser mais objetivo em relação ao comportamento do outro também ajuda. A ideia de um relacionamento pode ser sedutora, mas é importante observar se há consistência nas atitudes e interesse real em construir algo. Separar fantasia de realidade pode ser desconfortável, sobretudo para quem tende a romantizar os encontros. Mas é justamente esse exercício que evita frustrações maiores — e abre espaço para um vínculo que exista, de fato, fora da imaginação.

(Fonte: G1/Jenna Ryu)