Correio de Carajás

Os livros não matam a fome, não suprimem a miséria

Mari Hipólito, mulher sorrindo com cabelo cacheado, segurando um livro, para a Coluna do Clube da Palavra.
✏️ Atualizado em 28/04/2026 08h36

“Os livros não matam a fome, não suprimem a miséria, não acabam com as desigualdades e com as injustiças do mundo, mas consolam as almas, e fazem-nas sonhar” (Olavo Bilac).  Abro a coluna de hoje em homenagem ao LIVRO citando o poeta Olavo Bilac. O tema desta coluna foi celebrado no último dia 23 de abril, oportunidade em que se comemorou o Dia Mundial do Livro. A data foi criada em 1995, pela Unesco, como forma de homenagear livros e autores de todo o mundo, incentivando, assim, o acesso ao livro e à leitura.

Olavo Bilac, escritor brasileiro, é autor de um dos meus poemas preferidos – Via Láctea. O poeta do parnasianismo emprestou seu nome para a primeira escola em que estudei:  Escola Municipal Olavo Bilac. Um livro, como bem sugere o poeta, não muda de forma direta e imediata a realidade de alguém; ele sozinho não altera de forma rápida a situação socioeconômica de uma pessoa. Mas além de consolo, sonhos, entretenimento, os livros e a leitura podem contribuir para a mudança social de uma família, de uma comunidade, de um país, do mundo.

Um livro foi o objeto do ardente e resiliente desejo da menina – sem nome – protagonista do conto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector. Foi um livro que fez com que aquela menina desejasse ser filha de dono de livraria.  Ela era, diuturnamente, guiada pela esperança de ter o livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. E quando o teve: “…recebi o livro na mão… Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito”.

Leia mais:

A garotinha do conto experimentava a felicidade pela leitura, pela posse do livro desejado: “Às vezes sentava-me da rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante”, a pequena leitora estabeleceu um relacionamento com o livro e fez dele seu maior objeto de desejo e de prazer.

Para reforçar a importância do livro, trago a obra Na Voz Dela (1949), romance de Alba de Céspedes, escritora ítalo-cubana, uma das vozes mais potentes da literatura italiana do século XX.  Alba escreveu parte de suas obras durante o período da Segunda Guerra Mundial; ela e manteve na resistência contra os horrores da guerra por meio da escrita; suas obras são essencialmente femininas, nas quais há protagonismo feminino e temáticas que nos são caras, como maternidade, busca por liberdade, autoestima, conflito geracional, trabalho, casamento.

No referido romance, tem-se uma matriarca e uma jovem adolescente chamada Alessandra. A avó da adolescente, diante da precoce morte da mãe da neta, toma para a si a responsabilidade de orientar e aconselhar a jovem: Você passa seu tempo lendo: e faz mal. Os livros nos enfraquecem, fazem sofrer, escravizam. Não devemos sofrer, devemos eliminar o sofrimento de nossa vida, se quisermos ser fortes. A avó da personagem alerta sobre o livro como algo perigoso porque a faz pensar, questionar seu destino e o papel social que lhe é reservado. O livro poderia fazer Alessandra sentir e sofrer, ou seja, a tornaria uma mulher fraca. É uma tentativa de desencorajar a busca por autonomia intelectual.

No trecho: “Você não deve ler livros. Deixe-os para os homens. Eu também lia antes de casar. Tocava harmônio.  O harmônio faz mal, é como ler livros. Você não precisa ler livros: será patroa”. Aqui o livro é símbolo do conhecimento, algo que deve ser reservado aos homens.  À mulher caberia a realização pelo casamento (patroa). No início do século XX, o casamento seria a principal, talvez a única, possibilidade de ascensão social e econômica que teria uma mulher. Portanto, por que uma jovem de 17 anos deveria ler?

Encerro dizendo, queridos leitores, que um livro é mais que um conjunto de folhas impressa reunidas e encadernadas, é um canal, um meio, é mais que a porta de entrada para histórias e personagens, é conhecimento, é desenvolvimento subjetivo e intelectual, é afeto, é companhia, é memória. E para concluir essa breve homenagem, deixo o convite para leitura de Na Voz Dela, de Alba de Céspedes, uma trágica e comovente história de amor ambientada na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, a obra que encorajou Elena Ferrante. Até a próxima, queridos e queridas leitoras!

 

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.