Quem nasceu em Marabá até a década de 90 aprendia cedo que rio não é paisagem, é parente. É quase gente da família, desses que não moram na mesma casa, mas vivem se metendo na vida da gente. O Itacaiunas, por exemplo, nunca precisou bater à porta para entrar nas lembranças de ninguém. Sempre esteve ali, correndo pelo fundo da memória sabendo o caminho sem precisar perguntar.
Quando eu era menino, o Itacaiunas parecia maior do que o mundo. Não porque fosse mais largo, mas porque cabia tudo dentro dele. Cabia a tarde inteira, cabiam as lavadeiras, cabia a pressa dos adultos, cabia a liberdade dos meninos, cabia o medo que a mãe tinha da correnteza do Pirucaba e a coragem besta que a gente tinha de desobedecer.
O Itacaiunas era uma espécie de relógio líquido de Marabá. Havia hora de lavar roupa, hora de jogar tarrafa, hora de sair de canoa, hora de voltar antes que escurecesse, porque rio à noite também mudava de temperamento e ficava com um silêncio de bicho grande dormindo – a velha Boiúna.
Leia mais:Eu me lembro do barranco ainda meio selvagem, das beiradas onde o mato conversava com a água, dos pássaros que riscavam a manhã como se estivessem assinando o céu, do barulho curto do remo de Seu Michel Athie, da conversa comprida dos pescadores. Havia uma liturgia miúda nas margens do Itacaiunas. O homem que chegava de chapéu gasto, a mulher que batia roupa na tábua com força de quem também espanava tristeza, os meninos que pulam no rio para pegar castanha que pulava do barco, o cachorro que latia para a água como se desconfiasse daquele espelho em movimento.
O rio tinha seus humores, mas tinha também suas delicadezas. Em certos fins de tarde, quando o sol resolvia dourar o mundo por alguns minutos, parecia que o Itacaiunas carregava escamas de luz em vez de correnteza. Nesses instantes, até o mais apressado dos marabaenses diminuía o passo. O rio obrigava a cidade a respirar mais devagar.
Depois, como sempre acontece com as coisas que julgamos eternas, começaram a fazer com o Itacaiunas o que o tempo sozinho jamais faria. Vieram o descuido, a margem ferida, o azougue, o lixo boiando sem vergonha, a água recebendo o que a cidade não quis guardar para si. O progresso, essa palavra tão bonita nos discursos e tão cruel nas beiras, foi chegando com suas promessas e deixando seus restos. O rio, que antes dava peixe, banho, caminho e assunto, passou a receber sacola plástica, entulho, esgoto e a indiferença moderna de quem já não vê a natureza como destino, mas como fundo de fotografia.
Talvez a pior poluição não seja a que escurece a água. Talvez seja a que escurece o olhar. Quando uma cidade deixa de se espantar com a agonia do seu rio, alguma coisa grave apodreceu dentro dela também. Porque rio maltratado não é apenas problema ambiental. É fracasso de memória. É sinal de que uma geração começou a romper o fio que a ligava às outras.
Ainda assim, o Itacaiunas resiste com uma dignidade que só os velhos sábios e os rios possuem. Continua passando por Marabá como quem insiste em acreditar nos homens, embora os homens façam tão pouco por merecer. Nas manhãs mais claras, ele ainda inventa brilhos. Em certos trechos, ainda recolhe o canto dos pássaros. Em alguns silêncios, ainda devolve à cidade a lembrança do que ela foi.
Às vezes penso que Marabá se parece com esses filhos distraídos que só percebem a grandeza do pai quando o veem adoecer. O Itacaiunas nunca pediu monumento, placa, discurso de aniversário. Sempre se contentou com respeito. Queria apenas continuar sendo rio. Mas até isso lhe temos negado aos poucos, como se a água pudesse suportar para sempre o peso da nossa pressa, da nossa ganância e do nosso esquecimento.
E, no entanto, basta alguém parar alguns minutos numa de suas margens, no fim de uma tarde comum, para entender que ele ainda está ali, inteiro em sua vocação de ensinar. Ensina que a cidade não começa no asfalto. Ensina que o futuro também corre para trás, alimentado pelo que fomos. Ensina que não existe Marabá sem o rumor das águas, sem essa veia barrenta e viva cortando a carne da terra.
O Itacaiunas não é apenas um rio de Marabá. É uma maneira de Marabá lembrar quem é. Se um dia ele morrer de vez, não será só a água que terá acabado. Será uma parte da alma da cidade que deixará de correr.
E alma parada, todo marabaense sabe, já não é vida.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

