Vi com meus próprios olhos. Assim mesmo, com direito a esse pleonasmo provocativo e intencional. E o que vi foram estudantes de uma escola pública em Marabá usando camisetas com frases que incitam a desvalorização e a violência contra mulheres dentro da corrente denominada de Red Pill.
“Treinando caso ela diga não”. “Caso ela diga não…”, entre outras frases que, sozinhas, já causam desconforto, mas que, estampadas no peito de adolescentes, ganham um peso ainda mais inquietante. Não eram adultos embrutecidos pela vida, nem figuras isoladas à margem da sociedade. Eram meninos, muitos ainda no ensino médio, rindo, posando, repetindo como piada algo que, no fundo, revela uma distorção perigosa de valores.
Uma trend de péssimo gosto que viralizou no TikTok e em outras redes sociais, especialmente na semana do Dia Internacional da Mulher de 2026. Justamente quando escolas, professores e instituições reforçavam discursos de respeito, equidade e combate à violência, surgia, quase como um ruído dissonante, esse movimento juvenil que transforma desrespeito em estética e agressividade em ironia.
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Encerro março, o mês da mulher, com essa reflexão que me engasgou durante dias. Porque não foi um episódio isolado. Foi um sinal. Um sintoma. Algo que diz mais sobre o tempo que estamos vivendo do que gostaríamos de admitir.
O chamado movimento “Red Pill” no Brasil é uma vertente de comunidades online que dizem “abrir os olhos” dos homens para como funcionariam as relações sociais e afetivas. O nome vem do filme The Matrix, onde tomar a pílula vermelha significa enxergar a realidade sem ilusões. No discurso desses grupos, trata-se de um despertar. Na prática, muitas vezes, vira distorção.
Entre vídeos curtos, frases de efeito e influenciadores que falam diretamente ao público jovem, a ideia vai se infiltrando. Começa como meme, vira piada interna, depois linguagem comum. Quando se percebe, já está estampada em camisetas, repetida em rodas de conversa, naturalizada como se fosse apenas “brincadeira”.
Mas não é só brincadeira. Nunca foi.
Quando um adolescente veste no peito a frase “treinando caso ela diga não”, o que está sendo treinado, afinal? A insistência? A recusa em aceitar limites? A banalização do consentimento? Há ali uma linha tênue — e perigosa — entre humor e violência simbólica. E essa linha está sendo cruzada com uma facilidade assustadora.
Os defensores dessa corrente falam em “despertar masculino”, em não ser explorado emocionalmente, em buscar independência. Mas, no meio disso, cresce um discurso que generaliza mulheres, reduz relações a disputas de poder e transforma empatia em fraqueza. Para um adulto, isso já é preocupante. Para adolescentes em formação, é ainda mais grave.
Porque estamos falando de jovens que ainda estão aprendendo o que é respeito, afeto, convivência. Que estão formando caráter, visão de mundo, noção de limites. E, nesse processo, passam a consumir conteúdos que reforçam a ideia de que o outro, no caso a mulher, é um adversário a ser vencido, não uma pessoa a ser respeitada.
Em Marabá, como em tantas outras cidades, escolas têm sido espaços de debate, de construção de consciência, de promoção de igualdade. Professores se desdobram para discutir violência de gênero, campanhas são realizadas, projetos são desenvolvidos. E, ainda assim, do lado de for, ou muitas vezes dentro da própria sala, a internet fala mais alto.
Talvez o mais preocupante não seja a camiseta em si, mas o riso que a acompanha. O deboche. A sensação de que aquilo não tem consequência. De que é só mais uma trend que vai passar.
Mas algumas coisas não passam sem deixar marcas.
Se hoje é uma frase estampada no peito, amanhã pode ser uma atitude repetida na vida real. E é exatamente nesse intervalo, entre o que parece inofensivo e o que se torna concreto, que a sociedade precisa agir. Com diálogo, com presença, com educação – e, sobretudo, com atenção.
Porque o que vi, com meus próprios olhos, não foi apenas uma moda. Foi um alerta.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

