Correio de Carajás

A sororidade feminina em “A Cor Púrpura”, de Alice Walker

“Olhe para você. Você é preta, é pobre, é feia. Você é mulher! Você num é nada.” Começo a coluna de hoje citando um trecho de um dos mais viscerais romances de temática feminina, escrito pela norte-americana Alice Walker e publicado em 1982, um clássico da literatura negra feminina. O livro foi tão impactante e bem aceito pelos leitores e crítica que venceu o maior prêmio da literatura americana: o Prêmio Pulitzer; e, em 1985, foi adaptado para o cinema, recebendo indicação em 11 categorias no Oscar.

“A Cor Púrpura”, cuja narrativa se ambienta no sul dos Estados Unidos entre 1900 e 1940, possui várias camadas: direitos femininos e empoderamento, tendo como principal temática a violência sexual, física e psicológica contra a mulher. Hoje, nos deteremos na empatia, na solidariedade e acolhimento entre mulheres presentes na obra, a chamada sororidade feminina; para tanto, trago três das personagens femininas: Celie, Nettie E Shug Avery.

Celie, a protagonista do romance, é uma mulher negra, pobre e semianalfabeta.  Na adolescência, foi violentada sexualmente pelo padrasto aos 14 anos. Como os abusos eram contínuos, da violência resultaram duas gravidezes e dois filhos do agressor. As crianças foram-lhe retiradas pelo próprio estuprador, sob o pretexto de que teriam nascido mortas. Celie é retirada da escola e dada em casamento, no lugar da irmã, a um homem mais velho, viúvo e com quatro filhos menores. Eis que o padrasto abusador apresenta Celie ao futuro marido: “Ela é feia. Mas num estranha o trabalho duro. E é limpa.”

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Mais que solidariedade feminina, Celie é sacrificada pela irmã, Nettie.  Por outro lado, é Nettie quem conforta a irmã em sua vida miserável por meio de leituras. A irmã mais nova presencia os abusos sofridos por Celie e como ela é destratada pelos enteados, encorajando-a se manter firme e a se impor: “Num  deixa eles dominarem você. Você tem de mostra para eles quem é que manda. Você tem de brigar. Você tem de brigar. Mas eu não sei como brigar. Tudo o que eu sei é continuar viva.” Nettie reconhece os sacrifícios feitos pela irmã para lhe proteger: “Meu Deus, como sinto sua falta! Eu penso naquela vez que você se entregou por mim. Eu amo você com todo o meu coração.” As irmãs estabeleceram uma irmandade com a finalidade proteção mútua.

Após o casamento, Celie torna-se a serviçal da casa, uma escrava do marido. Sobre ela recai a obrigação de cuidar dos filhos dele, todo o trabalho doméstico e, o pior: a violência psicológica e moral. A relação de senhor e serva é tão bem demarcada que Celie se refere ao marido como sinhô.  É nesse cenário que chega Shug Avery, a amante do marido. Ela é uma mulher muito bonita e de espírito livre; uma cantora de jazz independente que esbanja segurança. Albert a leva para ser cuidada por sua mulher, Celie.  “Num é toda mulher que deixa a puta do marido se curar na casa deles.”

É a partir do encontro dessas duas personagens que se inicia um relacionamento não apenas afetivo entre Celie e Shug Avery, mas, sobretudo, de irmandade. Até aquele momento, a protagonista se encontrava só, podendo falar apenas com Deus. Celie conversa com Deus por meio de cartas (o romance é epistolar). Enquanto Celie acolhe e cuida de Shug por estar fisicamente doente, esta começa a encorajá-la. Por meio do apoio moral e financeiro oferecido por Shug, Celie desenvolve seu talento como costureira e começa confeccionar calças femininas, o que é simbólico, considerando o contexto, conquistando assim, sua independência financeira: “Você tá ganhando a sua vida, Celie. Mulher, você tá indo em frente.”

É ao lado de Shug que Celie vence a barreira do medo e consegue encerrar o ciclo de violência a que estava submetida: “Eu sou pobre, eu sou preta, eu posso ser feia e num saber cozinhar. Mas eu tô aqui.” A fala denota coragem; aquela mulher, pela primeira vez, se levanta em face do seu opressor. É a virada da personagem — a transformação, o crescimento e a conquista da liberdade.

Como já mencionado, a irmandade feminina (sonoridade) é apenas uma das possíveis leituras deste sensível e profundo romance de absoluto protagonismo feminino, no qual se vê a conquista da liberdade, a superação do racismo e da violência de gênero. Neste mês dedicado a todas nós, mulheres, deixo como dica de leitura “A Cor Púrpura” (1982). Boa leitura, queridos leitores!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.