Correio de Carajás

As nuances da vingança de Heathcliff em O Morro dos Ventos Uivantes

Mari Hipólito, mulher sorrindo com cabelo cacheado, segurando um livro, para a Coluna do Clube da Palavra.

“O Morro dos Ventos Uivantes” (1847), de Emily Brontë, a história de amor impossível entre Catherine e Heathcliff, carregada de violência, vingança, humilhação e degradação humana, conforme prometido e anunciado, está de volta a esta coluna. Desta vez, para abordar uma das camadas desta obra-prima da literatura mundial: a vingança planejada e executada por Heathcliff.

Diante da recente adaptação da obra de Emily Brontë para o cinema, nós, leitores e amantes dessa história, retornamos a ela com a paixão habitual, pois ela sempre tem algo a nos dizer. Trata-se de uma narrativa de múltiplas camadas que explora diversas temáticas, cujos personagens possuem profunda complexidade psicológica — destaco Catherine e Heathcliff. Porém, agora o foco é em Heathcliff, o protagonista que é descrito como diabólico, “que se compraz em desgraçar e arruinar aqueles que odeia, se lhe derem a menor oportunidade”.

Heathcliff é um personagem de grande densidade psicológica. Ao contrário do que se vê no cinema, ele tem um temperamento feroz e selvagem: “Ele é um diamante bruto. É um homem feroz e implacável.”  O personagem inicia como menino de rua, adotado pelo Sr. Earnshaw, favorito de seu guardião, mas humilhado pelo irmão adotivo, Hindley. Depois, torna-se um homem rico e vingativo após ser rejeitado por Cathy.

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Residem em Heathcliff a paixão obsessiva por Cathy e a sede de vingança contra Hindley Earnshaw e Edgar Linton, homem escolhido por Catherine como marido. São esses dois sentimentos que moverão o homem de temperamento feroz até a conquista de seus cruéis objetivos. A vingança, como devolução da humilhação e rejeição, é anunciada por Heathcliff diante daquela que fora objeto de sua obsessão: Quero que fique ciente de que sei que me tratou de modo intolerável. É uma tola se acha que não percebo, e uma idiota, se acha que vou sofrer sem me vingar.”

Heathcliff, foi tratado como empregado por Hindley Earnshaw e considerado indigno de frequentar a sala de Wuthering Heights, tornou-se dono da propriedade. A aquisição do imóvel integra sua vingança e, para atingir esse objetivo, ele promove a degradação física e moral de Hindley Earnshaw por meio de jogos e álcool.

Insatisfeito, após a morte de Hindley, passa a executar sua vingança contra Hareton Earnshaw, o único filho daquele: “(…) é apenas o começo do que irá sofrer. E nunca vai conseguir emergir de seu pântano de rudeza e ignorância. Mantenho-o com pulso mais firme do que o canalha do seu pai manteve a mim.” A vingança implacável ganha novos contornos contra Hareton Earnshaw, que é moldado como um homem rude, incapaz de se comunicar. É animalizado pelo vingativo, tornando-se grotesco. O personagem retribui com crueldade a humilhação que recebeu.

Para vingar-se daquele que se tornou o marido de Cathy, Heathcliff casa-se, com Isabella Linton, irmã de Edgar Linton, o verdadeiro alvo de sua vingança. O sofrimento que o homem impõe à ingênua moça é tão intenso que ela o descreve assim: “(…) lhe asseguro que um tigre ou uma serpente venenosa não haveriam de despertar em mim um pavor igual ao que ele desperta.” A jovem, após sofrer as crueldades do marido, afirma que ele é um demônio mentiroso; um monstro, não um ser humano, cujo único prazer seria morrer ou vê-lo morto. Essa é a intensidade do ódio de uma das vítimas de Heathcliff.

O ódio e a fúria de Heathcliff manifestam-se com absoluta intensidade após a morte de Cathy. O personagem não tem limites para sua torpe vingança, usando como instrumento seu próprio filho, o jovem Linton. Para conseguir a posse das propriedades das famílias Earnshaw e Linton, o vingativo manipula o destino dos filhos de Cathy e Hindley. Com isso, ficam sem bens, sem família e em completo isolamento social e geográfico.

Finalizo ressaltando que a vingança tornou a narrativa sombria e fez com a obra não fosse bem aceita pela sociedade do século XIX, pois destoou da produção literária da época, visto que aquela trazia modelos comportamentais. Emily Brontë, por meio dos sentimentos de amor e ódio, obsessão, medo, rancor, pautou de modo profundo a degradação física e moral do ser humano.

Caro leitor, se você foi ao cinema assistir à adaptação deste clássico, sua experiência de leitura não será prejudicada. LeiaO Morro dos Ventos Uivantes”, pois o livro é incontestavelmente superior. Até a próxima, querido leitor!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.