📅 Publicado em 17/04/2026 11h27✏️ Atualizado em 17/04/2026 11h35
Trabalhadores rurais, movimentos sociais e autoridades participam nesta sexta-feira (17), na Curva do S, em Eldorado do Carajás, de um ato em memória dos 30 anos do massacre que deixou 21 mortos e dezenas de feridos em 1996. A programação reúne celebrações religiosas, manifestações culturais e um ato político que também cobra responsabilização pelos crimes e avanços na reforma agrária.
A mobilização marca o Dia Internacional da Luta Camponesa, celebrada neste dia 17, e integra a Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária Popular. Desde o início da semana, cerca de 3 mil trabalhadores participam de uma caminhada até o local, com a presença de famílias de assentamentos de Parauapebas, Curionópolis e Canaã dos Carajás.
Segundo Ayala Ferreira, da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o ato tem como eixo principal a denúncia da ausência de políticas públicas voltadas às vítimas do massacre.
Leia mais:“O ato hoje é fundamentalmente para demarcar esse elemento da denúncia da omissão do Estado brasileiro com os sobreviventes de Eldorado do Carajás. Vocês vão encontrar pessoas mutiladas que hoje não têm nem assistência médica, mesmo com condenação que obriga o Estado a garantir esse atendimento”, afirma.
Ela também destacou a falta de atualização de pensões e indenizações às vítimas. Segundo Ayala, há uma denúncia sobre o contexto de impunidade que impera no caso, com a não responsabilização de quem mandou e de quem executou o episódio extremo de violência.
Nesse contexto, a programação inclui celebrações conduzidas por representantes de igrejas católicas e evangélicas, além de apresentações culturais e uma encenação feita por grupos de teatro e pela juventude do movimento, que reconstitui o que ocorreu em 17 de abril de 1996.
“A ideia é relembrar para que nunca mais se repita. É manter vivo na memória o que foi aquele dia e afirmar que massacres nunca mais”, diz Ayala.

O ato também reúne entidades de direitos humanos, parlamentares e representantes do governo federal, incluindo a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiavelli. Após as atividades culturais, está prevista uma reunião com autoridades para discutir pautas ligadas à questão agrária.
REFORMA AGRÁRIA É JUSTIÇA
Para os organizadores, o momento também reafirma a defesa da reforma agrária como resposta aos conflitos no campo. “A melhor justiça em torno de Eldorado do Carajás é termos uma política de reforma agrária no Brasil”, diz Ayala com veemência.
Entre os participantes do ato está Maria Zelzuita Araújo, uma das sobreviventes do massacre. Ela afirma que falar sobre a data ainda é doloroso.
“Poder relembrar os 30 anos da tragédia é um momento de muita tristeza e de ódio no coração. Eles queriam viver, queriam um lugar para morar e criar seus filhos, mas tiveram a vida tirada”, lamenta.
Ao recordar o dia do massacre, ela relata o cenário de violência vivido pelos trabalhadores. “A gente estava no meio do fogo cruzado, com muita gente correndo, gritando. Tinha criança subindo em árvore para se proteger e a polícia atirando”.

Maria também critica a falta de assistência aos feridos e afirma que muitos dos que ficaram mutilados seguem sem atendimento adequado, o que tem levado à morte de sobreviventes por ausência de acompanhamento e condições de saúde.
Expressando sua dor, ela relembra a morte de jovens durante a ação. Ela conta que um rapaz de 17 anos foi arrancado de dentro de casa, sendo puxado pelos cabelos e torturado: “Mandaram gritar palavras do movimento. Quanto mais ele gritava, mais apanhava”.
Apesar das lembranças, Maria afirma que a mobilização permanece ativa e que, ao longo dos anos, o movimento se fortaleceu e segue na luta pela terra diante da permanência de famílias sem moradia.

PROGRAMAÇÃO
A jornada deste ano também inclui o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra Oziel Alves, que reúne cerca de 500 jovens em atividades formativas e ações simbólicas, como a reconstrução do monumento em memória das vítimas.
As atividades na Curva do S seguem ao longo do dia, sem horário definido para encerramento. Para os participantes, o local permanece como símbolo da luta pela terra e da memória dos trabalhadores mortos no episódio.

