A alimentação das crianças é um tema que preocupa muitas famílias. Em diferentes fases do desenvolvimento, é comum que os pequenos apresentem resistência a certos alimentos, recusem refeições ou demonstrem preferências muito específicas. Mas até onde isso é apenas parte do crescimento, e quando pode indicar um problema mais sério?
Eliane Oliveira, Relações Públicas e mãe de Bianca, 11 anos, compartilha os desafios enfrentados com a seletividade alimentar da filha, que começou aos 3 anos com uma dieta extremamente restrita, limitada a poucos alimentos específicos. “Ela só aceitava comer pão com margarina, mingau de farinha láctea e iogurte de morango, e sempre de marcas específicas. Quando tentávamos oferecer algo diferente, ela chegava a vomitar”, relata Eliane.
A mãe explica que a rejeição da filha está muito ligada ao olfato, visão e textura dos alimentos, que precisam estar separados no prato e serem consumidos em uma ordem específica. A preocupação com a nutrição levou a família a buscar acompanhamento profissional e, por fim, tudo se esclareceu com um diagnóstico: Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Leia mais:O impacto emocional da descoberta foi intenso, com sentimento de culpa no início, mas Eliane destaca a importância do acolhimento e da compreensão do processo: “Hoje consigo olhar com mais acolhimento para essa trajetória e entender que fiz o melhor que podia com as informações que tinha naquele momento.”
O olhar da pediatra
A pediatra Izabella Sad Barra, professora da Afya Redenção, explica que é fundamental diferenciar a seletividade alimentar da birra. “A birra está mais ligada ao comportamento e ao momento. A criança até come, mas tenta negociar, varia conforme o ambiente e melhora com limites. Já a seletividade é persistente e pode estar relacionada a características do alimento, como textura, cor ou cheiro”, afirma.
Segundo a especialista, a seletividade alimentar é mais comum entre 1 e 5 anos, com pico aos 2–3 anos, fase em que a criança busca autonomia e começa a formar suas preferências. “O papel dos pais é não reforçar a recusa, mas também não transformar a refeição em uma batalha”, orienta.
Izabella também sugere estratégias práticas para os pais: manter uma rotina estruturada de horários, oferecer sem pressionar, repetir o mesmo alimento diversas vezes para reduzir resistência e dar o exemplo ao consumir os mesmos alimentos. “Crianças aprendem pelo exemplo. Se os pais comem os mesmos alimentos, a aceitação aumenta”, reforça.
Ela alerta ainda para os sinais que indicam necessidade de acompanhamento profissional: “Quando a dieta é muito restrita, há estresse intenso nas refeições, impacto no crescimento ou suspeita de outros transtornos associados, é hora de buscar ajuda”, como foi o caso de Eliane e a filha.
O olhar da nutróloga
A nutróloga Bruna D’Ávila, professora da Pós-graduação de Nutrologia da Afya, complementa que a seletividade alimentar é relativamente comum entre os dois e seis anos de idade, mas deve ser observada com atenção. “O que precisamos avaliar é se essa seletividade traz consequências nutricionais, como baixa estatura, déficit de desenvolvimento ou prejuízo cognitivo. Nesses casos, a intervenção deve ser rápida e firme.”
Ela também ressalta que recompensas ou pressões excessivas não são recomendadas: “Não é saudável dizer ‘coma e eu lhe dou um bombom’. O ideal é tornar o momento leve, incluir a criança na cozinha e observar o que ela gosta ou não gosta, sem transformar a refeição em conflito.”
Além disso, Bruna destaca que o acompanhamento deve considerar o impacto social da seletividade. “Quando a criança deixa de participar de momentos coletivos, como festas ou refeições em família, por não conseguir lidar com os alimentos oferecidos, isso pode comprometer sua interação social e gerar isolamento. Por isso, o olhar clínico precisa ir além da nutrição e considerar o desenvolvimento global da criança.”
Caminhos possíveis
O suporte multiprofissional, o envolvimento da família e da escola foram fundamentais para garantir o desenvolvimento e o bem-estar de Bianca. Para outras mães, Eliane aconselha: “O amor sempre vai guiar as nossas decisões. Buscar ajuda profissional é essencial, e cada família vai encontrar seu próprio equilíbrio, respeitando o processo com acolhimento e paciência.”

