Uma barraca inundada marca o local em que a Praia do Macaco deveria estar cheia de turistas aos finais de semana (Foto: Josseli Carvalho)
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As praias de água doce são uma das grandes paixões do paraense que vive no sudeste do estado durante todo mês de julho. Em Itupiranga, entretanto, pelo segundo ano consecutivo, a alegria do verão amazônico deu lugar à tristeza e à preocupação dos moradores e, principalmente, das classes que lucram com o período, como comércio, barraqueiros e barqueiros, por exemplo.

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A Praia do Macaco, principal destino turístico e de lazer localizado a cerca de 500 metros da orla do município, não tem aparecido ao longo do mês de férias devido ao alto nível do Rio Tocantins, assim como outros balneários próximos do centro. O banco de areia mais próximo que emergiu, a Praia do Tiradentes, fica a 30 minutos de embarcação.

Foto de 2017 mostra a organização da Praia do Macaco, um dos principais balneários da região (Foto: Ulisses Pompeu)

O volume do rio nesta região é controlado pela barragem da Hidrelétrica de Tucuruí, gerida pela Eletronorte. Há 11 dias, o Portal Correio de Carajás encaminhou e-mail para a assessoria de comunicação do órgão apresentando várias questões, como, por exemplo, quais os motivos para o rio não ter baixado como costumeiramente. Até esta segunda-feira (29), não obteve resposta.

Na última semana tentou contato por telefone, mas sem sucesso nos números disponibilizados na página do órgão na internet. Por fim, tentou o canal oficial da Eletronorte no Facebook, enviando mensagem privada, da mesma forma não respondida.

Procurado pelo Portal Correio de Carajás, Vander de Jesus Barbosa Duarte, secretário de Cultura de Itupiranga, explicou que em contato com a Eletronorte, questionando sobre o grande volume de água para a época, a administração municipal tem obtido como resposta que se deve ao fato de que a usina estaria fornecendo energia para um local onde uma barragem não está funcionando.

“Estão abastecendo esse local e precisa de energia para lá em agosto e setembro. Precisam de uma quantidade de água para fornecer energia para lá na época de seca do rio, que aqui vai ficar mais seco, por isso não podem liberar o mês de julho. Foi o que nos disseram”, declarou.

Vander: “A gente perde muito dinheiro, o turista não vem, não fica”

A reclamação da população é endossada pelo secretário, afirmando que o município perde grande quantidade de dinheiro com essa situação. “A gente perde muito dinheiro, o turista não vem, não fica. A metade da comunidade, umas 8 mil, 10 mil pessoas, não vai à praia. Não estamos conseguindo atrair esse público porque elas reclamam de distância, valor de passagem, de preços praticados lá (Praia do Tiradentes).

A distância também foi um empecilho para que a Prefeitura Municipal montasse palco e estrutura para grandes shows no balneário, tendo que fazê-los na orla da cidade. “A Associação de Barraqueiros levou apenas seis barracas para a Praia do Tiradentes, mas queríamos levar alguma coisa lá também. É tradição de muitos anos, fazermos shows na praia”, diz, informando que uma estrutura pequena, com gerador, foi montada para apresentações menores.

“Montamos estrutura mínima por lá, mas legal, levamos cantores regionais, para que tenha programação melhorada, mas as grandes bandas do estado ficam na Orla, à noitinha, após a praia, porque é uma estrutura grande para montar naquela distância”, lamentou.

Vander de Jesus esclarece que os royalties provenientes da instalação da hidrelétrica são uma entrada minúscula em Itupiranga se comparado com outros municípios atingidos, o que não compensa a falta do ponto turístico. “São cento e poucos mil ao mês. Precisavam valorizar mais, já que somos afetados desta forma. Ano passado já fomos surpreendidos por essa água alta no período que é de baixa”, critica.

DESÂNIMO E PREJUÍZO

A situação tem desanimado o comércio do município. Rabeteiro desde 2004, João da Silva e Silva diz que os profissionais – são aproximadamente 60 na cidade – costumavam lucrar entre R$ 8 mil e R$ 10 mil neste mês. “Hoje ficamos sem condições, acabou tudo. Sem veraneio perde a cidade toda porque depende também um pouco disso. É uma cidade fraca e o veraneio ajuda muito a gente”, afirma.

João: “Se acabar a praia, acaba com a gente aqui”

Ele diz que ninguém tem intenção de “proibir o governo de fazer as coisas dele”, mas a comunidade também quer saber como irá se beneficiar. “Vão arcar com essa despesa? Com esse prejuízo? Se acabar a praia acaba com a gente aqui”, alerta.

Jorge da Silva, comerciante, concorda que o movimento na cidade está muito menor nos dois últimos anos. “Antes era adequado para a cidade, mas agora temos perdido muito porque as pessoas de fora vinham curtir o veraneio na nossa cidade. Perdemos visitantes, turistas e a capacidade de vender. E isso já dura dois anos”, conta Jorge.

De acordo com ele, é comum os comerciantes se prepararem para a época, aumentando estoque para atender à demanda esperada, por exemplo. Neste ano, mais uma vez as mercadorias ficarão entulhadas. “Gostaríamos que voltasse ao que era antes. Surgiu apenas a Praia do Tiradentes, que fica muito longe, o que torna mais cara a passagem e diminui o fluxo de pessoas”.

O lavrador José Wilson da Conceição Chagas possui uma embarcação e sempre aproveitou essa época para fazer uma renda extra, mas não tem mais a chance. “O que nos falam é que a Eletronorte lá embaixo não tá abrindo as comportas em junho para termos praia, apenas em agosto, aí a gente só tem a praia lá em cima e sem suporte nenhum”, reclama.

José: “Aí a gente só tem a praia lá em cima e sem suporte nenhum”

Waldesson Rocha dos Santos, presidente da Associação dos Barraqueiros, representa outra classe bastante afetada e pede que alguma medida alternativa seja tomada para retomar o turismo do município. “Nesses dois anos foi só prejuízo porque a gente passa o ano todo se programando, compra mesa, ajeita barraca, e no mês de julho cadê a praia? Não ter praia por causa da barragem é o que nos dá prejuízo”, afirma.

Waidesson: “Não ter praia por causa da barragem é o que nos dá prejuízo”

Ele e os colegas solicitaram ao poder público que repense uma forma de solucionar a questão, seja montando uma praia artificial ou pagando um auxílio aos profissionais, por exemplo. “Em dois meses de praia a gente lucra de R$ 15 mil a R$ 20 mil. É o que nos sustenta, então pedimos ao menos um auxílio. A praia que surgiu está a uns 30 minutos de barco, não dá a frequência da do Macaco, a mais procurada!”.

Para o autônomo Wellington Alves, morador de Itupiranga, a Eletronorte deveria ao menos informar à cidade o que ocorre de fato e até com antecedência. “Queremos que eles expliquem melhor a situação porque o prefeito diz que a Eletronorte informou estarem retendo a água porque pode haver blackout em alguns estados. Me intriga que em agosto dão vazão à água e aparecem as praias até dezembro, mas julho que é a época de praia não tem. Quer dizer que estes estados ficam sem energia nesse tempo? Tá mal explicada essa situação deles”, comenta.

O Portal Correio de Carajás bem que tentou ajudar a elucidar, mas assim como a população de Itupiranga, também ficou sem explicações. (Luciana Marschall – com informações de Josseli Carvalho)

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