Correio de Carajás

Vera adotou as netas para curar a perda da nora

Cecília e Clara, de dois e três anos de idade, perderam a mãe há dois anos e agora vivem sob o cuidado da avó, Vera Sousa

"A minha maior dificuldade é não ter a mãe delas por perto para cuidar como sonhava", lamenta Vera Sousa

Vera é uma avó que dedica a vida para cuidar de suas duas netas. Em meio à dor e à cicatriz do luto, ela encontra nas netas a força para continuar, na esperança de que a saudade seja amenizada com o amor compartilhado entre elas.

O ditado popular diz que avó é mãe duas vezes. Algumas avós abdicam de suas vidas e vão além de sua função, tornando-se verdadeiras mães. Mesmo não tendo gerado esses “filhos”, elas encontram fôlego e força para dar tudo de si e cuidar de quem não trouxeram ao mundo.

O retrato de dedicação transborda amor, jorrando como uma cachoeira que corre rio abaixo. De onde elas tiram tanta força? Talvez nem elas mesmas saibam dizer. É um amor em dobro, um apreço de mãe-avó.

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Em casos não tão raros, o amor de mãe nasce no carinho da avó, quando, por circunstâncias inesperadas da vida, elas abdicam de suas próprias vidas para criar um, dois ou quantos filhos vierem. No coração de uma mãe, sempre cabe mais um, o que significa não levar em conta o quão doloroso e cansativo seja exercer essa função.

UM NOVO RECOMEÇO

No Dia das Mães de 2024, o Correio de Carajás conta a história de Vera Sousa, que encontrou nas netas o combustível para viver em meio à dor da perda. O encontro com Vera é emocionante, relembrando os detalhes de uma despedida marcada pela saudade. A nora e mãe das duas netas de Vera faleceu há quase dois anos, depois de contrair uma bactéria ainda no puerpério da filha de apenas oito dias, Mirella morreu deixando as filhas aos cuidados da avó paterna.

Relembrar aquele fatídico dia ainda a deixa em pedaços. Com lágrimas nos olhos e voz embargada, Vera recorda o carinho que tinha pela nora, agradecendo pelo maior presente deixado por ela em vida. “A minha maior dor é não vê-la aqui para dar amor como mãe biológica, mas mesmo assim, faço tudo para que as meninas cresçam sentindo esse amor materno”, lamenta.

Em muitos casos, a avó assume integralmente o papel de mãe, estreitando as relações e não apenas zelando pela criança, mas entregando tudo de si em prol dos cuidados e crescimento do filho. Com toda dedicação, a exaustão chega ao final do dia. Neste momento, um objetivo maior fala mais alto: vencer a dor do luto.

 

A avó orgulhosa mostra sempre as fotos da filha que partiu para as netas, mas manter a memória viva

AVÓ: MÃE EM DOBRO

A piauiense é mãe de um casal e proprietária de um comércio. Apesar de não ter imaginado viver na situação atual, ela procura encontrar forças para persistir. Ao Correio de Carajás, compartilha que sua maior responsabilidade hoje é zelar pelas netas, algo que, segundo ela, é feito com muito amor: “Sou feliz e honrada por ter as meninas, porque elas são a alegria da minha casa. É muito gratificante”, diz Vera, com lágrimas nos olhos.

Na corrida do cotidiano, a mãe-avó conta com o auxílio da tia e do pai das meninas, que custeia os gastos das duas. Quem vê de fora até tenta imaginar os desafios que ela enfrenta todos os dias, mas quando questionada sobre esses obstáculos, uma surpresa: nenhuma dificuldade é maior do que conviver com o luto, a ausência dói muito mais do que o cansaço.

À FLOR DA PELE

Em dias como esse, os sentimentos se intensificam. A saudade de quem não pode abraçar, das gerações que não verão a mãe sorrir. “Esse dia para mim é bom e ruim, porque eu não tenho minha mãe aqui, e eu sinto por elas não terem a delas também”, suspira.

Apesar de não terem a real noção do que aconteceu com a mãe biológica, as meninas são educadas para entender que Mirella não pode estar presente fisicamente, mas que de alguma forma ela estará entre elas. Mostrar as fotos de Mirella e falar constantemente dela é uma maneira de manter a existência da genitora sempre viva.

Cecília e Clara enxergam na avó a figura materna, através das mãos que cuidam, protegem e afagam. E Vera sente o reconhecimento de mãe. “A mais nova me chama de mãe, enquanto a mais velha, em alguns momentos, me reconhece como avó”, se orgulha.

E assim, Vera tenta contemplar este dia, sabendo que é a base da vida dessas meninas. Pouco a pouco, procura esquecer a dor da saudade que nunca passa, mas que por vezes é amenizada ao entregar o amor que sente para as filhas. O mais puro amor de mãe.

(Milla Andrade)