Correio de Carajás

Três vicissitudes para entender Ademir Braz

Ninguém veio para ser eterno, mas algumas pessoas poderiam ficar por mais tempo na vida. Pelo menos enquanto ainda tivessem disposição para brigar por uma cidade mais coletiva e um espaço público pleno.

Falo de personagens do naipe de Ademir Braz. Pena que tenha partido, aos 74 anos, com a cabeça ainda num frenesi por uma história melhor para quem nasceu por aqui e na vastidão dessa floresta que está virando um campo de batalha pelo minério que nos resta.

Muito já escrevi sobre ele. E no futuro, quando ainda houver reminiscências, continuarei teclando sobre Pagão. Foi meu professor: me ensinou a dosar o jornalismo com a literatura, a sempre duvidar da notícia oficial, de brindar o leitor com histórias jocosas, às vezes dolorosas, às vezes ternas.

Leia mais:

Ele era a cara de uma Marabá que me deixo tomar o corpo, que não passo sem seus agrados, que preciso retornar quando quero ir embora para cuidar da vida em outros braços.

Foi um dos poucos jornalistas-poetas e generoso na partilha sem frescuras e hermetismo. Intelectual, não fazia questão de ser sofisticado. Era simples no palavreado, no vestuário, e melhor ainda em uma prosa na mesa de um barzinho. “Vamos tomar uma, mano velho?”. Essa frase ele certamente já disse a centenas de amigos e colegas.

Quando Ademir morreu, no mês passado, escrevi várias reportagens publicadas aqui no CORREIO sobre seu legado. Não quis torná-lo um homem perfeito, porque nem ele ou nenhum dos leitores que está lendo esse texto pode receber essa adjetivação.

Mas no espaço da crônica Ouriço Cheio, no dia seguinte ao seu enterro, eu deixei parte da página em branco em homenagem a ele. No lugar do texto coloquei apenas uma frase: “A palavra está de luto. Em homenagem a Ademir Braz”.

Pagão era um homem de três vicissitudes diferentes em sua vida, que se alternavam. Eu poderia tentar produzir uma dissertação de mestrado para abordar a transgressão literária em Ademir Braz. Seus quatro livros de poesia e um de crônica são a comprovação de que ele fugia do que a literatura de seu tempo produzia.

Eram textos sensíveis, vanguardistas e polêmicos ao mesmo tempo. Na estrutura textual, se permitia uma grande variação de estilos, recursos linguísticos e literários, enredos, temas abordados, entre outros aspectos.

A única que tive o privilégio de beber foi de sua transgressão jornalística. Quando entrei no jornal, em 1996, ele estava por lá, fazendo reportagens especiais e debochando com a regra áurea do lead (primeiro parágrafo da notícia). Responder às perguntas o quê, quem, quando, onde, por que e quando, como mandavam (e ainda recomendam) os manuais do jornalismo. Ele iniciava a notícia a la Garcia Márquez, de forma forte e arrebatadora.

A leitura de seus textos gerava sensações e afetos. Foi um deles que me incentivou, um dia no início dos anos 2000, a escrever crônica também.

Mas há também um aspecto da vida de Ademir que precisa ser citado, que era a transgressão familiar. Pagão vivia em um mundo só dele, que em várias ocasiões relegava os demais membros da família, fossem os irmãos, mulheres que amou ou até mesmo os filhos. Lembro que mesmo nos anos mais brilhantes de sua carreira, nunca teve um carro, nunca o desejou. Andava de táxi e até mesmo os filhos iam e voltavam para a escola a bordo de um. Viveu seus últimos anos sozinho, trancado em casa, por livre escolha.

Das últimas conversas que troquei com Ademir pelo zap, perguntei como estava indo a luta do rochedo contra a bebida, a solidão. E me respondeu, penúltimo, que “andei mal. Feito passarinho baleado com baladeira malvada. Mas debaixo da cumbuca, voltei ao normal”.

Torci por seu triunfo e, egoísta, desejei que não falecesse antes de lançarmos um documentário inédito que tive o privilégio de conduzir a entrevista a pedido da Fundação Casa da Cultura de Marabá.

Fui visitá-lo no Cipiar dias antes de sua travessia, me bateu um vazio. Parecido quando sinto falta de uma floresta cuidada na cidade, de uma castanheira que está sumindo na madrugada.

 

 

* O autor é jornalista há 26 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

Comentários