Correio de Carajás

Todo Carnaval tem seu fim desde que comece

Em tempos normais a Praça São Félix, na Marabá Pioneira, passaria os próximos dias lotada. Nesta sexta, estava vazia, silenciosa e cinza (Foto: Evangelista Rocha)
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

Quando Los Hermanos cravaram na Música Popular Brasileira e consequentemente na Quarta-Feira de Cinzas que Todo Carnaval Tem Seu Fim, talvez não imaginassem que um dia ele sequer teria início.

Provavelmente o Jorge Ben de 1964 (quando o músico ainda nem havia adotado o Jor) também não sonhava que os versos “rasguei a fantasia e chorei, chorei por não poder brincar, tristeza e dor no carnaval”, impressos na canção Carnaval Triste, seriam tão atuais.

O artista sabia menos ainda que o sentimento seria compartilhado por milhões de brasileiros quase 60 anos depois do lançamento da música e que o motivo seria uma pandemia que obrigaria o cancelamento da maior festa nacional.

Leia mais:

O novo coronavírus ama uma aglomeração, uma agarração, uma troca de fluídos. Silencioso, se esbalda em meio ao povo que se abraça e dança junto, inebriado pela música e pela bebida alcoólica que rega os quatro dias de festa. Foi o que ele fez em 2020.

Agora, em 2021, em meio à segunda onda de covid-19, vacinação ainda tímida e risco de esgotamento da capacidade de leitos de UTI, o jeito foi quebrar o coração do folião para preservar a saúde de toda a comunidade.

Nesta sexta-feira (12), quando em condições normais os brincantes já estariam tomando as ruas, bastava olhar para dois pontos de Marabá para sentir que algo está errado. Tanto a rodoviária da Folha 32, na Nova Marabá, quanto a Orla Sebastião Miranda, na Marabá Pioneira, estavam vazias e tristes.

O cinza do céu dava o tom de quase luto e a chuva até parecia um choro silencioso diante da ausência da marchinha, do axé, do samba e do funk que costumeiramente invadiriam as residências neste início de final de semana.

Nascida no Bairro Francisco Coelho, o Cabelo Seco, Ana Luiza Rocha da Silva, de 64 anos, nem consegue lembrar se algum dia deixou de pular carnaval. Há mais de 10 anos materializou a paixão criando o Bloco Copo Furado que, desde então, nunca deixou de ganhar as ruas em fevereiro.

“Todo ano, esse tempo todo, a gente já estaria ensaiando pra sair o bloco. Esse ano a gente fica muito triste por não sair”, lamenta, demonstrando, contudo, compreensão diante do momento e preocupação com o cenário.

“É o primeiro ano que ficaremos sem o Carnaval, mas por outro lado a gente fica até contente com o cancelamento porque se a gente não fizer essa aglomeração agora, no outro ano, se Deus quiser, estaremos pulando Carnaval todos juntos”, acredita.

Ana Luiza lamenta que o bloco fundado por ela não possa ir às ruas

De acordo com ela, muitas pessoas ainda não entenderam a gravidade da covid-19 e a importância de se manterem fora das ruas nestes próximos dias. “Parecem cegas sobre o quanto esse vírus é violento, levando tanta gente… mas se tudo der certo quem sabe a gente não faz uma folia com todos os blocos juntos em julho?”, questiona.

Cecília Almeida Frank, vice-presidente da Liga Carnavalesca de Marabá, compartilha do mesmo sentimento. “Com a chegada da vacina a gente tem planos de fazer o Carnaval fora de época, em julho, se tudo der certo e acabar essa doença. Com certeza não desistimos”, diz.

Segundo ela, atualmente, há 18 blocos registrados em Marabá. Os maiores são o Vai Quem Quer, que sai na segunda à tarde, e o Gaiola das Loucas, na terça-feira. De acordo com Cecília, a festa não tem mais o alcance que um dia teve. O município, afirma, “chegava a superar a capital (Belém)”. Ainda assim, trata-se de uma grande paixão para muita gente. “O Carnaval é uma festa popular, está no sangue das pessoas que gostam dele”.

Ela conta que a forma encontrada pelos foliões para matar um pouquinho dessa saudade já antecipada está sendo compartilhar fotos e vídeos da festa de 2020 no grupo da liga no WhatsApp. “Acho que a partir deste ano muita gente vai dar importância para o Carnaval. Espero que haja políticas públicas pra gente reviver o que já foi o Carnaval de Marabá”.

No WhatsApp são compartilhadas as lembranças de Carnavais passados

Por fim, sugere que os brincantes aproveitem esses dias para relembrar a festa, ainda que “guardados” em casa. “Mesmo sem a gente poder estar na avenida digo para quem gosta que brinque, ouça as marchinhas pra gente se sentir um pouco mais contente e satisfeita, pra fazer um esquenta para o coração”, finaliza.

Ponto facultativo cancelado e fiscalização de aglomerações

No que depender dos entes públicos, nada será facilitado para que o paraense tente viajar ou se aglomerar no Carnaval, mesmo com as festas oficiais canceladas.

A Secretaria de Estado de Planejamento e Administração (Seplad), por exemplo, publicou nota nesta sexta-feira (12) informando que nos dias 15 (segunda), 16 (terça) e 17 (quarta) o expediente será normal em órgãos e entidades da administração pública direta e indireta. A decisão foi publicada em portaria.

Já a Prefeitura de Marabá fez questão de também divulgar nota pública confirmando que não haverá ponto facultativo na segunda e na terça, apenas a folga do próprio dia 16 de fevereiro, dia oficial do Carnaval.

Os bancos não abrirão as portas em Marabá nos dias 15 e 16 de fevereiro, segunda e terça, retomando o atendimento nas agências apenas na quarta-feira, dia 17, ainda assim apenas das 12 às 15 horas.

Em Marabá, na segunda-feira, dia 15, é comemorado o Dia do Comerciário e, em decorrência da data, existe um acordo de fechamento dos três dias, o que os empresários da cidade tinham a esperança de rever após a eleição do Sindecomar, realizada na quinta (11).

Acontece que a chapa vencedora não foi empossada e a junta governativa alegou que não tem poder para tal negociação. A entidade está sob intervenção judicial.  Desta forma, o comércio permanecerá os três dias fechado.

Ao Correio de Carajás o delegado Vinícius Cardoso das Neves, diretor da 21ª Seccional Urbana de Polícia Civil, garantiu que aglomerações com mais de 10 pessoas serão desmobilizadas e que pessoas que incentivem eventos desta natureza serão responsabilizadas de acordo com o Artigo 268 do Código Penal.

A legislação prevê pena de detenção de até um ano e multa para quem infringir determinação do poder público destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa. “As forças policiais vão estar nas ruas fiscalizando”, avisou.

Segundo ele, o prazo do decreto que restringe o funcionamento de bares e similares vence nesta sexta (12) e ainda não há informações sobre uma possível prorrogação. Contudo, o decreto proibindo a aglomeração segue em vigência. Em relação aos blocos, inclusive, ele informa que nenhum recebeu alvará para funcionar neste Carnaval.

O Ministério Público do Estado do Pará advertiu, por meio de Recomendação, que Marabá, Bom Jesus do Tocantins e Nova Ipixuna tomem medidas para conter o avanço do novo coronavírus durante o período de Carnaval, impedindo a realização de festas públicas e eventos com aglomeração de pessoas.

Confira as dicas do Correio de Carajás para curtir o Carnaval sem aglomeração:

Metade da redação do Correio de Carajás ama o Carnaval. Metade não se importa com a festa, mas não dispensa um feriado caso seja possível folgar. Entre os que estão tristes pela farra desperdiçada e os indiferentes, todos têm sugestões de como aproveitar os próximos dias longe da avenida.

Na casa do designer Dihon Albert, por exemplo, o verbo de ordem será dormir e a folga será aproveitada para o descanso. Maria Carolina, responsável pela organização do site, pretende sentar na frente da TV e esquecer da vida maratonando séries. O revisor Lucas, que também é universitário, já decidiu colocar o conteúdo em dia.

O estagiário Henrique Garcia e o diretor de redação Patrick Roberto compartilham da mesma ideia: fugir para um local bucólico para curtir a paz do silêncio. Chagas Filho, gastando cultura, indica o livro Metamorfose, de Franz Kafka. Ele está na página 27 e não consegue largar o novo vício.

Defensora da máxima “mente sã em corpo são”, Ana Mangas lembra que o tempo livre pode ser empregado na prática de esportes, inclusive em um dos mais prazerosos: namorar. Ulisses Pompeu, nosso multiatleta, aproveita o embalo da colega e sugere até a modalidade: pedalada. “A cidade vai estar deserta e em uma hora de pedal eu gasto 600 calorias”.

Essa que vos fala aconselha o leitor a testar aquelas receitas que sempre o interessam na internet. Afinal, a gente afoga mágoa em comfort food e esse Carnaval desperdiçado vai sangrar por longos meses. (Luciana Marschall)

Comentários

Mais

Conta de luz continuará em agosto com taxa extra mais elevada, informa Aneel

Conta de luz continuará em agosto com taxa extra mais elevada, informa Aneel

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informou nesta sexta-feira (30) que a conta de luz continuará em agosto com…
Inteligência artificial pode desafogar sistema de saúde na pandemia

Inteligência artificial pode desafogar sistema de saúde na pandemia

Estudo feito em parceria por pesquisadores da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Fundação Getulio Vargas…
Autorização de viagem para menores de 16 anos poderá ser feita online

Autorização de viagem para menores de 16 anos poderá ser feita online

A partir de segunda-feira (2), os pais poderão emitir pela internet uma autorização para que seus filhos menores de 16…
Marabá: Venezuelanos são tirados da rua e já têm casa

Marabá: Venezuelanos são tirados da rua e já têm casa

A nova leva de venezuelanos que chegou nas últimas semanas a Marabá chamou atenção e teve grande visibilidade pela quantidade…
Passageira se recusa a usar máscara e é retirada de voo por policiais federais

Passageira se recusa a usar máscara e é retirada de voo por policiais federais

Uma passageira se recusou a usar máscara de proteção à Covid-19 e provocou atraso de uma aeronave, que saiu de…
Paciente é internado em Belém com suspeita de variante delta

Paciente é internado em Belém com suspeita de variante delta

Duas pessoas com Covid-19, que chegaram dos Estados Unidos a Belém, realizaram exames para identificar se houve a possível contaminação…