Minha história com a educação começou de uma forma que eu nunca imaginei. Trabalhei durante dez anos como técnica de enfermagem e, posteriormente, fui trabalhar em uma siderúrgica, onde havia um programa de Educação de Jovens e Adultos realizado em parceria com a prefeitura. Alguns idosos que estudavam ali procuravam minha sala para pedir ajuda com as atividades.
Aquela cena me chamou a atenção, e foi a partir de um convite de uma colega que decidi fazer vestibular para Pedagogia, inicialmente com o objetivo de conquistar um diploma de nível superior. Eu ainda não sabia que aquela escolha mudaria minha vida.
Durante a graduação, nos estágios, passei por diferentes etapas de ensino. Foi na Educação Infantil, porém, que me encontrei. Descobri a magia de trabalhar com crianças de quatro e cinco anos, seres que expressam seus sentimentos com espontaneidade e nos ensinam diariamente. Com elas, aprendo que educar não é apenas ensinar letras e números, mas também acolher, escutar, orientar e contribuir para a formação humana.
Leia mais:Acompanhar o desenvolvimento de cada criança é uma das maiores alegrias da minha profissão. No início, realizamos um diagnóstico para compreender suas habilidades e necessidades. A cada bimestre, percebemos avanços que, embora pareçam pequenos aos olhos dos adultos, representam grandes conquistas para elas.
Ver uma criança superar uma dificuldade, descobrir algo novo e sentir orgulho do que conseguiu fazer é perceber a educação acontecendo de verdade. Também me emociona observar como o conhecimento ultrapassa os muros da escola.
Quando trabalhamos temas como consciência negra, respeito e violência contra a mulher, as crianças levam essas aprendizagens para casa e compartilham com suas famílias. Nos projetos escolares, seus olhos brilham quando os familiares visitam a escola e reconhecem suas produções. E, quando encontro antigos alunos que hoje estão no Ensino Fundamental e eles correm para me abraçar e chamar de “Tia Kátia”, tenho a sensação de que deixei uma semente plantada. É a confirmação de que a Educação Infantil é a base e precisa ser forte e sólida.
Minha caminhada também me faz olhar para a educação com sensibilidade. Precisei trabalhar muito para criar meus filhos e nem sempre pude estar tão próxima quanto gostaria. Hoje, procuro oferecer às crianças o carinho, a atenção e o cuidado que fazem diferença em suas vidas, percebendo quando precisam ser ouvidas e acolhidas.
Ser professora também me permite aprender sobre mim mesma e ressignificar experiências. Entretanto, ensinar hoje é enfrentar desafios. A desvalorização profissional, a necessidade de melhores salários e condições dignas de trabalho e a ausência de algumas famílias na vida escolar nos preocupam. A escola não pode caminhar sozinha: família e educadores precisam estar juntos, pois educar é uma responsabilidade compartilhada.
Em um mundo tão desafiador, precisamos proteger a infância e oferecer às crianças oportunidades para crescer com respeito, conhecimento e esperança. Venho de uma realidade simples, cresci na roça e na periferia e tive uma infância difícil. Por isso, acredito profundamente no poder transformador da educação. Para mim, a maior rebeldia de quem nasce em condições desfavoráveis é estudar, ampliar seus horizontes e descobrir que pode construir outras possibilidades para a própria vida.
Continuo professora porque acredito que a educação transforma pessoas, ambientes e a sociedade. Acredito que cada criança carrega um potencial que precisa ser reconhecido e cultivado. Talvez eu não veja todos os frutos das sementes que planto, mas sei que cada aprendizagem, cada gesto de carinho e cada oportunidade oferecida podem mudar uma história. É essa convicção que me faz continuar: a certeza de que educar é acreditar no ser humano e trabalhar, todos os dias, por um mundo melhor.
* Kátia Sirene Feitoza de Souza é professora da educação infantil no NEI São Félix, da rede municipal de educação de Marabá
