Correio de Carajás

Sorvete de macaúba ou uma viagem à China

Algumas avós, tenho saudades de não tê-las. Ou não ter tido a chance de ser neto. Sei que aos olhos de quem está fora, toda contação é recheada de fantasiações. Mas precisamos do fantástico, as histórias normais são chatas. E normal, vidinha que vai sem graça e amanhecida feito pão adormecido, carece de um bom pedaço de bolo de Alice.

Imaginou ter uma avó que se vestia de vestido de planetas para ser mais vistosa que a quenga! E ir resgatar o velho assanhado que se botava fora de casa? E chegar ao portão da puta, bater palmas e não dar um pio? Seu homem saía feito um cachorro desconfiado, entrava na Rural cheia de netos e filhos e íamos passar um dia viajando até dar o enfado e voltar.

Daqui até a Itupiranga. Daqui até São Domingos das Latas. Daqui até os precipícios de Jacundá. Daqui até Araguaína. Sonhava com o dia, e vovó havia jurado de dedos em cruz, sair daqui até chegar às muralhas da China. Passaríamos antes por Juazeiro de Padre Cícero. Dependia de vovô…

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E na viagem, ela perguntava tranquilamente se haviam sido boas as férias ao lado da rapariga nova. Ouvia da boca dele que “mais ou menos”. Dizia que sentia saudades do viço da esposa, amava-a, mas carecia dos fogos de moça. Coisa que ela não enxergava mais nele. Um senhorzinho agora fuenca, amável naquela altura para fazer companhia.

Há um tempo na vida que vale mais (do que fornicar) não carpir a solidão. Repetia sem afobações de voz. Envelhecer ao lado do bem querer e saber que ele está por ali, dormindo em frente ao televisor. Ainda apaixonado. Mesmo que fale pouco, que não desarrume muito a casa ou não reclame da comida servida.

Se bem, meu avô não tinha do que reclamar das habilidades das mãos de vovó. Quando envelheceu o corpo mudou-se do quarto pra cozinha. O que não apetecia mais fazer na cama, e não era coisa de falsos pudores da Inquisição, remoçou no fogão e congelador.

Só ela fazia sorvete de macaúba. Não vi nunca em livro de receitas ou em restaurante de rico, as bruxarias que vovó oferecia. Macaúba, aquela frutinha que nasce no alto de uma palmeira cheia de espinho no tronco. Come-se dela, roendo, quando fica madura e despenca do cacho.

Macaúba era uma fruta desejada por vovó, mamãe, minha esposa Ana Raquel e até Brenda, a minha caçula, aprendeu a roer a bicha.

Casca dura rachada na pancada, depois, vovó raspava a carne amarela até o coquinho. Enchia uma bacia pequena e, com leite desmamado, batia no liquidificador. Botava umas coisas que guardava nos bolsos do avental e gelava. Era um indizível! Gosto, ao mesmo tempo, de torta de maçã, picolé de bagaço de castanha-do-pará, fubá, torradas quentes na Itacolomy, creme de leite, chiclete, abacaxi com hortelã, caramelo, café da tarde, peru assado e bolo de chocolate…

Quando era tempo de murici comprava no litro e bacia. O vendedor vinha bater na casa dela, lá perto da Delegacia e do Cemitério. Quantos litros, patroa? Bote o tanto que não se estrague e dê vencimento. E aí, com as mãos lavadas e aliança no dedo, apertava os caroços amarelos. Até sair a semente dura e ficar o sumo e casca. Um cheiro de até hoje, um gozo. Creme gelado de murici.

Vovô se enchia de dureza e ia às quengas. Levando ainda, cumbucas, de baba de anjo feito com a lama do coco verde. Licor de coco babão e jenipapo. Bolo de coco com pedaços manjericão, bolo de rapadura, tapioca com hortelã, suco de tangerina com tamarindo e melancia…

Não fomos até as muralhas da China, não deu tempo. Vovó morreu e vovô ficou com medo de não ter quem fosse buscá-lo na casa da rapariga nova.

* O autor é jornalista há 26 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

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