Correio de Carajás

Sobre DIU. Sobre amor. Sobre cunhada e sogra.

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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A vida itinerante de Cris dependeu – sempre e sempre – dos destinos do trabalho do pai, servidor público federal que peregrinou por diversas cidades do Pará antes de chegar a Marabá. Em todas elas, Cris estudou, se divertiu muito, fez amigos e, principalmente, amou. E como amou.

Em Belém, Gabriel; em Altamira, Jonas; Em Santarém, José Augusto, Túlio e Ricardo. Este último, a primeira grande paixão de Cris. Era um negro com quem a branquela fez amor pela primeira vez e sentiu, desde então, que estava predestinada a se apaixonar e a se entregar completamente em cada nova cidade.

Mas foi em Paragominas que ela se encantou e casou-se com o incrível Claudionor. O relacionamento era tão doce e marcante com toda a família, que quando o pai dela foi transferido para Marabá, há oito anos, Claudionor veio atrás, enrabichado.

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Mas por motivos que a razão não explica, aos poucos a relação foi se desgastando e chegou mesmo ao ponto de ser considerada tóxica para ela. Independente financeiramente, sem filhos, Cris resolveu colocar ponto final aos abusos, ao sofrimento, ao casamento. E saiu dele puxando a cachorrinha.

Não era por capricho, mas preferiu não voltar à casa dos pais, que mesmo assim a apoiaram no período da crise. Foi morar sozinha em um desses apês espalhados pela cidade. Deu entrada no banco e começou a pagar prestação à Caixa.

A partir dali, Cris passou a concentrar-se no trabalho e não queria saber de nova paixão tão cedo. Queria uma nova cidade para ir, mas o pai não foi mais transferido.

E o destino não demorou a rasgar – pela undécima vez – o coração daquela menina de sorriso conquistador e gargalhadas nada furtivas.

Foi assim, entre brincadeiras, lanches, caronas, corridas e mensagens no Telegram, que os dois ficaram “migs”, viraram confidentes e, um ano depois, foram à cama pela primeira vez. E que vez! Fizeram de um tudo.

Carlos Alberto, o mais novo senhor do coração de Cris, era casado, tinha dois filhos, mas morava na casa da mãe, porque aguardava o divórcio. Era dentista, praticava esportes de aventura e cultivava uma barba longa. Estava tão enamorado de Cris, que tudo nela contradizia o rumor de que não encontraria alguém por quem se apaixonaria de novo.

Depois de conquistar Carlos, era a vez de Cris aproximar-se da família dele. No início, foi um almoço formal de domingo, quando conheceu pai, mãe, irmão e irmã. Os filhos ainda moravam com a ex.

Mas logo ela passou a visitar a casa espaçosa dos Miranda na mesma frequência que ele dormia em seu apê de 55 metros quadrados. Cris esvaziou uma gaveta de seu maleiro para dar lugar às cuecas de Carlos Alberto, que só aumentavam. Depois, as calcinhas dela também tiveram lugar no quarto que ele mantinha na casa dos pais.

Logo ela, que sempre evitou engravidar, passou a pensar nessa possibilidade. Mas só depois que o divórcio dele saísse.

Filho, para ela, estava fora de co-gi-ta-ção. Para assegurar que não haveria a famosa gravidez por acaso, avaliava um plano contraceptivo eficaz. E numa noite em que maratonava série com Carlos e família, a sogra impressionou a todos quando disse, sorrindo e com leveza, que pagaria um DIU para a futura nora. A cunhada, médica ginecologista, comprometeu-se a colocar o dispositivo intrauterino sem nenhum custo. E tudo isso aconteceu na mesma semana.

Pronto, a família garantia que, nos próximos anos, não teria um novo herdeiro entre os Miranda. Foi conveniente para os dois lados. Mas, inesperadamente, quando essa crônica estava sendo escrita, na semana seguinte, a sogra fundiu o cabeção de todo mundo e avisou que o bendito DIU tinha de sair. Ela queria um neto (em caráter de urgência) e que o filho Carlinhos tratasse de resolver o assunto.

Cris, que sempre foi leitora de Gabriel García Márquez, carrega consigo uma frase oportuna para os anos seguintes: “O problema de um relacionamento longo é que se acaba todas as noites depois de fazer amor, e é preciso voltar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do café”.

 

* O autor é jornalista há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

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