Foto: Alexandra Duarte

Em nota enviada à Imprensa, o Sindicato dos Docentes da Universidade Federal do Sul e do Sudeste do Pará (SindUnifesspa) se solidariza com o professor Evandro Medeiros. Ele é alvo de uma ação criminal movida pelo Ministério Público, a partir de um processo impetrado pela Mineradora Vale, por conta de um protesto realizado nas margens da Estrada de Ferro Carajás, em Marabá, no dia 20 de novembro de 2015.

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O sindicato exige que a Vale respeite o direito democrático dos cidadãos de expressar suas opiniões e retire a queixa crime contra o professor Evandro Medeiros. “Conclamamos ainda o Ministério Público do Estado do Pará a retirar a denúncia oferecida em desfavor de nosso colega. Professores universitários não são criminosos, somos trabalhadores da educação! Evandro Medeiros não é criminoso, é um trabalhador da educação, cumprindo seu dever como educador crítico e comprometido socialmente!”, diz o documento.

No documento, o sindicato discorda do Ministério Público por entender que a denúncia contra Evandro é baseada em “acusações de materialidade absolutamente questionável”. Segundo o sindicato, além da pesquisa e do ensino, realizar atividades de extensão é uma das atribuições da universidade pública federal, motivo pelo qual a instituição não pode se furtar ao debate de temas sociais emergentes e, quando necessário, à tarefa de denunciar irregularidades que violem os direitos da população da sociedade em que a universidade está inserida.

Nesse contexto, o ato que resultou no processo contra Evandro foi um protesto em solidariedade às vítimas do desastre de Mariana (MG), que acarretou na devastação de toda a bacia hidrográfica do rio Doce à jusante da barragem de rejeitos que rompeu, operada pela mineradora Samarco, controlada pela Vale e pela BHP Billiton.

Na nota o sindicato afirma que Evandro não liderou o protesto, como acusou a Vale e como acusa agora o MP. “Entre os manifestantes, encontravam-se muitos de nós, docentes desta universidade. Não éramos liderados por Evandro Medeiros, estávamos numa ação coletiva, por compartilharmos das mesmas críticas ao modus operandi da mineradora”, diz trecho do documento.

Cabe ressaltar, segundo o sindicato, que durante a manifestação não houve interdição da linha férrea. Nenhum trem de carga ou passageiros interrompeu seu trajeto devido à manifestação. “A docência nos ensina, entre outras coisas, o cuidado. Assim como Evandro, jamais colocamos em risco a vida de quem quer que seja. Assim como Evandro, jamais expomos os estudantes a situações que ameacem sua integridade física. Quem faz isso com as pessoas é a mineradora Vale, como fica cada vez mais claro para todo o povo brasileiro”, critica o sindicato.

O coletivo de professores que compõem o sindicato observa que a Vale mantém muitas barragens de rejeitos na região, de modo que é preciso debater sobre os riscos envolvidos e chamar a atenção da sociedade através de todos os meios disponíveis, aí incluídos atos e manifestações públicas.

O documento faz questão de lembrar que, após o caso de Mariana, a Vale se envolveu em outro episódio que gerou, mais uma vez, centenas de mortes, agora em Brumadinho (MG). “E mais uma vez, o desastre que protagonizou foi antecedido e seguido por um estarrecedor menosprezo de executivos e investidores da empresa à vida humana e à integridade ambiental”.

E não é só isso. O sindicato lembra também que no último dia 6 de abril, os jornais voltaram a noticiar um acidente com derrubada da ponte do rio Moju por uma balsa, ligada à empresa Biopalma, subsidiária da Vale. “Sobejam indícios de ilegalidade na operação de transporte de carga”, denuncia o sindicato.

“Para nós, docentes e pesquisadores da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, a mineradora Vale é uma empresa criminosa. Como apontam recorrentemente pesquisas desenvolvidas por docentes e estudantes de programas de pós-graduação da UNIFESSPA e de outras instituições, as atividades da mineradora impactam de forma negativa, direta e indiretamente, a vida de pessoas em inúmeras comunidades ao longo do percurso da ferrovia em que o ato foi realizado e no entorno das áreas de mineração no estado do Pará”, diz outro trecho da nota oficial.

Diante disso, para o sindicato, quando a Vale processa criminalmente Evandro Medeiros, trata-se, antes de tudo, de uma iniciativa de criminalização das lutas sociais, uma tentativa de intimidação coletiva, tendo como alvo todos aqueles que se colocam críticos e mobilizados politicamente contra os crimes da mineradora.

Anda de acordo com o SindUnifesspa, em abril de 2016, o FIA CINEFRONT, festival de cinema da universidade, organizado por uma equipe que conta com Evandro entre seus integrantes, apresentou uma série de filmes que denunciam as práticas de opressão social da mineradora contra camponeses e garimpeiros, além da devastação ambiental na região. A sessão final do referido festival serviu também de espaço para que uma comitiva de representantes dos povos indígenas Gavião, da Terra Indígena Mãe Maria, denunciasse as arbitrariedades cometidas pela Vale contra eles.

Além disso, durante todo ano de 2015, juntamente com Alexandra Duarte, Evandro trabalhou na produção do documentário “Aquém Margens”, realizado no bairro Araguaia, local onde aconteceu a manifestação de novembro. O documentário expõe, de forma exemplar, e após exaustiva e criteriosa pesquisa, a realidade vivida por jovens pobres às margens da Estrada de Ferro Carajás.

“Desde suas ações críticas como docente à publicização de dados sobre a realidade regional através do cinema e da dedicação à organização de eventos culturais, Evandro Medeiros apenas reafirma aquilo que é sua responsabilidade como profissional da universidade. Porque é isso que nós docentes universitários fazemos: ensino, pesquisa e extensão!”, ratifica.

Por fim, o sindicato diz que seguirá apoiando Evandro, repudiando toda e qualquer forma de censura e criminalização da atividade docente. “Nós não somos criminosos! Evandro não é um criminoso! A Vale, sim! Portanto, é a mineradora que deve ser criteriosamente investigada e punida pelos inúmeros crimes e tragédias socioambientais, determinantes e decorrentes dos rompimentos das barragens que opera, cujas evidências saltam aos olhos de quem quer que tenha a triste oportunidade de visitar as áreas que serviram de palco para estas tragédias”, argumenta o sindicato em trecho da nota. (Chagas Filho)

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