📅 Publicado em 27/04/2026 11h37✏️ Atualizado em 27/04/2026 11h40
A decisão de seguir a vida religiosa não nasce de um instante isolado. Ela é construída no silêncio das vivências, nos encontros que marcam e nas escolhas que transformam. Aos 35 anos, padre Érick João Rodrigues, responsável pela Paróquia Bom Pastor, na Folha 33, em Marabá, e reitor do seminário menor no município, carrega na própria história os sinais de um chamado que começou ainda na infância e, com o tempo, ganhou força e sentido.
Em entrevista ao Correio de Carajás, ele relembra que foi no serviço simples como coroinha que surgiram os primeiros indícios da vocação. Mas, foi após um encontro decisivo que a certeza floresceu no coração. “Eu entrei no seminário aos 17 anos, e o que de fato marcou para que eu pudesse sentir o chamado sacerdotal foi um padre. Ele era da Bélgica, e mesmo recém-chegado na paróquia, era muito humano, simples e preocupado com as pessoas”, diz o sacerdote.
A lembrança ainda o atravessa. O olhar atento e a forma de cuidar do outro despertaram, ainda na adolescência, um desejo profundo. “Eu pensei: ‘nossa, eu quero um dia poder ser igual a ele’”, relembra.
Leia mais:Natural de Belém, o religioso conta que o serviço à igreja sempre foi mais do que um dever: foi alegria. Ainda jovem, sentiu no coração o desejo de cuidar das coisas de Deus e encontrou nesse caminho um sentido para a própria vida.

CAMINHO DE ESCOLHAS
O sacerdote recorda que ingressar no seminário ainda jovem significou abrir mão de trajetórias comuns à maioria das pessoas da mesma idade. Vieram dúvidas, questionamentos, incertezas. Mas a vocação falou mais alto. “Tenho cinco anos de sacerdócio e os desafios eu posso dizer que são múltiplos. E entre os desafios, de fato, é a questão da própria juventude, porque é um embate”, explica.
Segundo ele, o olhar das pessoas muitas vezes carrega questionamentos. Alguns falam sobre os caminhos que ele poderia ter seguido, sobre universidades, conquistas profissionais. Outros mencionam a liberdade de casar e construir uma família. Ainda assim, nada disso o faz recuar. “O propósito é maior que todas as coisas que acontecem no caminho e, de certa forma, maior que a minha vocação. Quando for uma vocação, Deus vai te chamar”, conclui.
Jovem no sacerdócio, mas firme na fé, Erick Rodrigues acredita que Deus guia cada passo daqueles que são chamados, por meio de sinais que sustentam e fortalecem a caminhada.
Servir a Deus, para ele, é entrega. É deixar interesses pessoais, oferecer a juventude e permanecer disposto diante dos desafios. “Eu sou muito feliz por estar nessa vocação e, mais feliz ainda porque em meio a tantos desafios vejo o quanto o Espírito Santo age na minha vida”, completa.
Mais do que resistir às dificuldades, padre Erick aprendeu a crescer com elas. A motivação está na liberdade de permanecer. “O que me motiva realmente a continuar firme na vocação é exatamente a ideia que eu abracei pra minha vida, que é a de escolhas e o quanto que eu sou livre na minha vocação”, complementa.
Para ele, a liberdade não está em fazer tudo, mas em saber escolher. É encontrar equilíbrio, constância e sentido. “Isso eu sinto à luz da vida de oração, que é o que sustenta a minha vocação, essa escolha feliz e livre e não como uma coisa assim maçante, obrigatória ou que escravize”, pontua.
UMA ROTINA SUSTENTADA PELA FÉ
A vida sacerdotal, segundo ele, é feita de disciplina e constância. Cada dia carrega um propósito. Além de pároco, ele também é reitor do seminário propedêutico, etapa inicial dos jovens seminaristas, e animador vocacional em Marabá.
O dia começa cedo, às 6 horas, com oração e meditação da palavra. Em seguida, a rotina se desdobra entre estudos, celebrações e visitas. “Tem um projeto chamado Santa Dulce, em que os seminaristas distribuem alimentos para as pessoas em situação de rua. Esse trabalho é realizado às quartas, quintas e sextas”, diz.
À tarde, às 15 horas, todos rezam o Terço da Misericórdia. Às 18 horas, o padre e os seminaristas se reúnem novamente em oração antes da celebração da missa. “É uma rotina que seguimos todos os dias para manter a nossa vida de oração humana e espiritual em dia”, descreve.
Mesmo diante do cansaço, ele não hesita. “Vale muito a pena”, garante.
Querido entre os casais e pela juventude, ele vê nessa relação uma extensão da própria missão. Para ele, ser exemplo não é se distanciar, mas ser verdadeiro. “Todas as vezes que estou em contato com jovens, enxergo uma forma de motivá-los a seguir o caminho de Jesus. É ser muito honesto e autêntico e entender que os nossos limites e tudo aquilo que às vezes é impedimento para seguir Jesus é passageiro, é o Espírito Santo na verdade que vai motivando”, encerra.
O sacerdote é enfático em afirmar que a missão não o afasta de uma vida comum. Ele pratica atividade física, gosta de esportes, acompanha temas atuais e mantém o hábito da leitura. “Acredito que isso acaba atraindo a juventude pelo meu jeito de ser jovem também, gosto de temas atuais e de fazer vários tipos de leituras, e isso acaba, de certa forma, chamando muita atenção”, avalia.
Para ele, viver de forma ativa também comunica. Mostra que é possível atender ao chamado sem anular a própria essência. “É uma maneira de pensar: ‘dá para eu ser sacerdote, dá para eu ser freira, porque eu não preciso me anular para eu poder servir a Deus, eu vou ser de Deus da maneira como eu sou’”, relata.
AMAR COMO SENTIDO DA VIDA
Ao olhar para a própria trajetória, padre Érick encontra uma síntese simples e profunda para o papel que desempenha. “O significado de ser padre para mim se resume em amar e ser amado. Acredito que essa é a base e, quando você busca seguir isso como um sentido de vida, esse amor que encontramos, principalmente na pessoa de Jesus, todos os outros caminhos se abrem”, encerra.
Para ele, ser sacerdote ultrapassa uma função. É serviço, entrega e presença. É estender a mão, acolher, orientar e cuidar. É escolher, todos os dias, amar de forma livre, generosa e guiada pela fé.
Neste Dia do Sacerdote, a história de padre Érick se une à de tantos outros que permanecem firmes na missão. Homens, que em meio a tantos desafios e renúncias, seguem sendo presença viva na comunidade, levando fé e esperança ao povo.
Mais do que uma função, o sacerdócio é uma missão que transforma vidas, de quem se dedica e de quem encontra, no exemplo, um sentido para seguir. Como diz a canção de padre Antônio Maria: “sofre coração que chega o zóio mareja, é uma peleja de missão. Mas não há riqueza maior para uma comunidade, pois onde mora um padre, o povo vive mais feliz”.

