Em homenagem ao Dia das Crianças, que será celebrado no próximo dia 12 de outubro, esta coluna apresenta a obra “Meu Pé de Laranja Lima” (1968), de José Mauro de Vasconcelos. O livro é um clássico da literatura infantojuvenil brasileira. O comovente enredo autobiográfico de José Mauro de Vasconcelos já inspirou novelas, ganhou adaptações para o cinema; já foi publicado em 23 países e traduzido em 15 idiomas, além de ter marcado muitas gerações de leitores.
O livro é protagonizado e narrado por Zezé, um carismático e muito esperto garotinho de 5 anos. A obra é ambientada na periferia da cidade do Rio de Janeiro da década de 20. De tão sagaz, a família diz que Zezé “tem o diabo no corpo”; ele era “doido por história”, e dizia sempre que quanto mais difícil era a história, mais ele gostava.
Uma das camadas e possibilidades de abordagem da obra é a violência contra crianças, tendo em vista que Zezé, apesar da tenra idade, acaba sofrendo castigos físicos e repreensões da família por suas travessuras: “Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pelo.” As várias surras recebidas pelo protagonista comovem e indignam o leitor de qualquer idade.
Leia mais:— Quem é, Zezé?
— Nada, Godóia… por que ninguém gosta de mim?
— Você é muito arteiro.
— Hoje já levei três surras, Godóia.
— E não mereceu?
— Não é isso. É que ninguém gosta de mim; aproveitam para me bater por qualquer coisa.
(…)
— Eu acho que é melhor amanhã eu ser atropelado na Rio-São Paulo e ficar todo esmagadinho.
— Não diga bobagens, Zezé. Eu gosto muito de você.
— Não gosta não. Se gostasse não ia deixar eu apanhar mais uma surra hoje.
Zezé faz de um pé de laranja lima, a menor árvore do quintal da casa onde mora, seu amigo fiel e confidente. O protagonista nomeia a árvore de Minguinho e, por ser uma criança imaginativa, os dois passam a conversar; é para o pé de laranja lima que Zezé conta quando apanha, quando está triste, quando sente fome, seus sonhos e até os presentes que deseja ganhar. O menino, apesar de ter uma família numerosa, formada pelos pais e cinco irmãos — Jandira, Glória, Totoca, Lalá e Luís —, se sente sozinho, e é ao lado de seu amigo que Zezé se sente compreendido e confortado.
— Mas que lindo pezinho de laranja lima! Veja que não tem nenhum espinho. Ele tem tanta personalidade que a gente de longe sabe que é laranja lima. Se eu fosse do seu tamanho, não queria outra coisa.
— Mas eu queria um pé de árvore grandão.
— Pense bem, Zezé. Ele é novinho ainda. Vai ficar um baita pé de laranja. Assim ele vai crescer com você. Vocês dois vão se entender como se fossem dois irmãos. Você viu o galho? É verdade que é o único que tem, mas parece até um cavalinho feito pra você montar.
Além de Minguinho, Zezé tem outro amigo: o português Manuel Valares, que ele chama carinhosamente de Portuga. É uma amizade impensável entre um homem adulto e um menino de cinco anos. O afeto entre os dois é recíproco e intenso; eles parecem avô e neto. O Portuga acaba sendo uma referência de carinho paterno e a fonte de afeto, o que não existia na casa do pequeno protagonista.
A obra escolhida em alusão à Semana da Criança é um clássico da literatura brasileira, cuja leitura é fluida, acessível e comovente. A história nos transporta para a infância e nos permite observar, com sensibilidade, a trajetória de um garoto que convive com a pobreza, a falta de afeto e a violência física e psicológica sofridas por ele, superando as adversidades com a imaginação.
O romance deixa o leitor adulto mergulhado na nostalgia. É uma narrativa centrada no diálogo, o que contribui para a fluidez da leitura. Um texto sensível; quem o leu jamais esquecerá o protagonista Zezé e suas travessuras. Por isso, deixo como sugestão de leitura: “Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcelos. Boa leitura e até a próxima, queridos leitores!
* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
