Correio de Carajás

Sem terra chegam a 70 dias acampados na sede do Incra

Para os sem terra, negociação representa um passo importante, mas insuficiente diante da dimensão da demanda por terra

Após 70 dias de mobilização na sede regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra SR-27), em Marabá, no sudeste do Pará, famílias acampadas e assentadas de diversos movimentos sociais do campo e da cidade receberam representantes do Governo Federal para negociar a pauta da Reforma Agrária Popular. A mobilização teve início em abril deste ano e denuncia o descumprimento de acordos firmados pelo Governo Federal e pela mineradora Vale com as famílias que aguardam acesso à terra e a políticas públicas.

O Pará figura entre os estados com maior concentração fundiária do país. Conforme dados do INCRA, 29.033 famílias estão acampadas no estado (Repórter Brasil – 2026), aguardando soluções previstas na Constituição Federal de 1988. Nesta sexta-feira (19), quando a mobilização completou 70 dias, representantes do Governo Federal participaram de uma Plenária Popular para discutir o andamento das pautas relacionadas à Reforma Agrária Popular.

O Governo Federal enviou representantes de ministérios e autarquias para dialogar com as trabalhadoras e trabalhadores mobilizados e apresentar encaminhamentos às reivindicações da classe trabalhadora. Entre as autoridades presentes esteve a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Fernanda Machiaveli, que reafirmou o compromisso do governo com a retomada e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à reforma agrária e ao desenvolvimento rural: “Sabemos que temos milhares de famílias para assentar, e o Governo Lula está comprometido em avançar no assentamento das famílias acampadas”, afirmou a ministra.

Leia mais:

A comitiva também contou com a presença do presidente nacional do Incra, César Aldrighi, que destacou a disposição do órgão em ampliar o diálogo com trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade para construir soluções às demandas apresentadas pelos movimentos sociais.

Também integraram a comitiva de negociação o superintendente da SR-27 Marabá-PA, Andreyk Maia Sobrinho; o Superintendente da SR-01, Raimundo Moraes; representantes da Ouvidoria Agrária e Obtenção de Terras, Secretaria da Presidência da República; a mestra em Agroecologia e dirigente nacional do MST, Ceres Hadich; o dirigente nacional do MST, Damasceno; e José Batista Afonso, da Comissão Pastoral da Terra.

A dirigente nacional do MST, Viviane Brígida, que também integra a coordenação do Acampamento de Mobilização Camponesa e Popular no Incra de Marabá, destacou que as famílias permanecem mobilizadas em defesa da pauta da Reforma Agrária. “As famílias continuam organizadas e prontas para intensificar as mobilizações para que todo o país compreenda a dimensão da necessidade existente no campo. Não podemos, enquanto nação, abandonar aqueles que produzem os alimentos que sustentam a população. O agronegócio produz commodities; nós produzimos alimentos saudáveis para as famílias brasileiras”, declarou.

Ficou definido em reunião o acompanhamento de processos prioritários de criação e regularização de assentamentos

Avanços nas negociações

Segundo a Direção da Mobilização, embora muitos desafios permaneçam, os movimentos consideram que houve avanços importantes nas discussões e nos compromissos assumidos. O principal compromisso foi a criação de assentamentos para famílias que aguardam acesso à terra. No entanto, a execução dessas medidas ainda depende de ações concretas do governo. Os movimentos mobilizados denunciam que os principais obstáculos são a concentração de terras, os conflitos fundiários e a falta de políticas públicas, enfrentando com organização, mobilização social, diálogo e busca por apoio dos órgãos públicos. Pontuam que, caso as pautas não sejam atendidas, os movimentos poderão realizar novas mobilizações junto aos órgãos públicos, pois o atendimento das reivindicações apresentadas e o fortalecimento da união entre os quatro movimentos sociais são necessários para retirar muitas famílias da situação de vulnerabilidade.

Durante as negociações, os principais pontos de divergência estiveram relacionados à velocidade dos processos de reforma agrária, à destinação de áreas para assentamento das famílias acampadas, à regularização fundiária, à liberação de créditos, à infraestrutura dos assentamentos e aos prazos para atendimento das reivindicações apresentadas pelos movimentos sociais.

Entre os compromissos formalizados estão o acompanhamento de processos prioritários de criação e regularização de assentamentos, a análise de demandas fundiárias apresentadas, a realização de reuniões de monitoramento e a construção de agendas específicas para tratar das reivindicações das famílias acampadas e assentadas. No entanto, grande parte das demandas ainda depende da execução administrativa, da disponibilidade orçamentária e do cumprimento dos prazos assumidos pelos órgãos responsáveis.

O conjunto dos movimentos mobilizados avalia que a atuação do Incra na região sudeste do Pará precisa avançar com maior agilidade e efetividade para responder aos desafios históricos da reforma agrária.

Para os movimentos, a negociação representa um passo importante, mas insuficiente diante da dimensão da demanda por terra no país. A avaliação é de que somente a execução concreta dos compromissos assumidos poderá responder às necessidades das milhares de famílias que seguem acampadas à espera do acesso à terra e de condições dignas para produzir e viver no campo. (Divulgação governo federal)