Correio de Carajás

Réquiem atrasado para meu amigo Tiago Koch

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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“Vida que segue! É muito chata a frase, não me consolem com ela. Tal qual “vai dar certo” em meio a uma pandemia tratada por “gripizinha” e já se vão quase 500 mil enterros e cremações”

Ele não precisou ser babão para aglutinar o cargo de líder do governo no Poder Legislativo. Não necessitou, em nenhum momento, erguer o tom de voz para contrapor um colega que criticasse a gestão municipal, fosse qual fosse o tema.

Tiago Koch cumpria a sua função primária de legislar, defender a comunidade, mas também agia com maestria na defesa do governo. Era elegante nas palavras, resolvia os problemas quase sempre nos bastidores para dar resposta aos colegas.

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Quem mais perdeu, com sua partida, foi a família, claro. Mas a comunidade rural da Vila União e a própria Câmara Municipal ficaram órfãs de um digno representante popular. A covid-19 é traiçoeira. Nefasta.

Esta homenagem ao homem e cidadão Tiago está atrasada. Ele partiu no dia 2 deste mês. Nunca a morte foi tão cansativa. Isso porque morrer, nos dois últimos anos, deixou de ser um evento normal de parte da existência. Ainda é, mas virou uma tragédia demorada. Por que logo ele, tão novo, sem comorbidade?

E posso estar escrevendo de um lugar confortável. De uma família que, hoje, não está nas zonas onde o Estado é menos e não viu os filhos pretos serem mortos pela polícia nem em guerrilhas da miséria.

O caso aqui é a morte covidária, celerada com todos. Que tira a vida de políticos enterrados em cemitério chique, mas também de um Zé Ninguém como meu vizinho Charles Silva, enterrado em um cemitério popular na Invasão do Aeroporto. Sim, ela impacta mais cruel em que tem quase nada na vida segundo a meritocracia babaca.

Mas a cipoada na alma, na tal de saudade (sem poesia) ou no insalubre fundo de cacimba para onde se cai, geme em qualquer um que tenha nervos. Pelo menos em mim. A saída repentina de Tiago Koch ainda é uma queixa.

Antes, é fato, os quase 300 homicídios por ano em Marabá já choviam no molhado. Quem se importava, mesmo, com os assassinatos nos “sombrios” da Cidade?

Morrer uma trinca de “novinhos”, com tiros na cabeça na guerra do tráfico na cidade? E daí? A ladainha “toda vida importa”, usada para seres vivos vulneráveis e marcados pelo tiro certeiro, nem deveria existir.

Sobre a morte como extremo simbólico da vida, no bairro onde fui criança era de vez em quando um sepultamento. Demoravam muitos dias para se amanhecer com a notícia de alguém falecido.

E era um susto porque a falecida (que tinha nome e convivência) não estaria mais ali no outro dia. Fazia falta do bom dia ao boa noite.

Foi assim com o Leôncio, rapaz magro que um dia se afoitou na Praia do Tucunaré e ficou no último mergulho. E com dona Maria, falecida com uma barriga d’água. Passei dias pensando na vida deles.

Não se morria toda hora naquele mundinho e havia despedida. Tia Xandu, na verdade minha meia avó paterna, morreu de velhice aos 92. Ganhou um velório na sala de visita, um cortejo a pé até o Cemitério São Miguel e discursos na beira do túmulo.

Do Tiago não nos despedimos, não vi seu corpo, não tiveram abraços entre os amigos. O que se vê nesses velórios são despedidas melancólicas do que os de antigamente.

É muito chato ter saudade de quem se quer bem e saber que não haverá mais convívio. Nem que levasse um mês, um ano sem vê-la, mas você sabia que poderia bater à porta e ela receberia com o mesmo prazer de sempre…

Vida que segue! É muito chata a frase, não me consolem com ela. Tal qual “vai dar certo” em meio a uma pandemia tratada por “gripizinha” e já se vão quase 500 mil enterros e cremações.

* O autor é jornalista há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

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