Correio de Carajás

Quarentena aniquila 10,6 mil empregos em Marabá e Parauapebas

Aline montou o próprio salão depois de ser demitida e já atende clientes | Fotos: Evangelista Rocha, Ronaldo Modesto e Arquivo Pessoal
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O quadro epidemiológico da covid-19 em Marabá e Parauapebas revela 23.983 vítimas no total. O cenário fica ainda mais implacável, porém, quando aliado às estatísticas da pandemia do desemprego. Na quarentena estabelecida com o propósito de conter a disseminação do novo coronavírus, 10.601 contratos de trabalho foram encerrados nos municípios entre março e junho. Outros 9.662 foram suspensos de modo temporário. Os dados foram coletados junto ao Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) nesta quinta-feira (30).

A cabeleireira Aline Conceição Santos, de 32 anos, é uma das afetadas pela crise. Ela trabalhava em um restaurante de Marabá como garçonete e foi demitida em março, assim que um decreto editado pelo governo do estado ordenou o fechamento de estabelecimentos do setor. Com a perda de público e receita, a opção do empregador foi desligar os funcionários. “E eu fui uma das escolhidas, infelizmente”, lamenta.

Mas Aline não se curvou. Ela relata dias difíceis no começo. A necessidade de garantir o alimento para as filhas Vitória e Maria Clara era urgente. Ansiedade à flor da pele, perda de peso e prostração foram os primeiros sintomas de um mal que tem se mostrado mais letal que o vírus: o desemprego. “Não foi fácil. Não foi opção. Eu levantei, sacodi a poeira e dei a volta por cima”, declara, citando o coro da canção de Noite Ilustrada.

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De fato, a cabeleireira ressurgiu das cinzas após ter a vida laboral trucidada pela pandemia. Aline, então recém-concluinte de um curso na área da beleza, começou a montar, com a ajuda dos pais, o próprio salão em casa. É na Rua Porto da Balsa, situada no Bairro Amapá, Núcleo Cidade Nova, que a confiante mulher recebe clientes. “Meu serviço é de excelência”, penhora ela.

A excelência de que Aline tanto fala é confirmada pelas clientes. Quando o veículo de comunicação esteve no empreendimento, ela atendia a jovem Luciana, que por sua vez mostra confiar no trabalho da cabeleireira. “Eu tenho certeza de que o resultado da selagem será incrível”, declara.

Também conhecido como blindagem capilar, a selagem é um tipo de tratamento à base de queratina que tem como função fechar as cutículas do fio. “Ela [a selagem] serve para quando elas [as cutículas] são danificadas por processos químicos. A selagem faz com que a saúde dos cabelos seja recuperada, com disciplina, hidratação, resistência e brilho”, explica Aline.

O espaço ainda não era batizado até a gravação da reportagem. Sem pretensão, o nosso repórter sugeriu o nome “Aline Hair”, que afinal pegou. “Esse será o nome do salão. O Aline Hair está de portas abertas para receber a todas. Venha realçar a sua beleza aqui”, convida. O salão, aliás, até página no Facebook ganhou.

Na imagem, o antes e o depois dos cabelos de uma cliente do batizado “Aline Hair”

Em Parauapebas, Raimundo da Silva Oliveira, de 41 anos, viveu história não muito diferente. Até o início da pandemia era contratado como ajudante de obras, mas com a crise foi desligado da empresa e teve de achar outra maneira para sustentar a companheira e os três filhos. O caminho encontrado, no forte calor do verão amazônico, foi a venda de sorvetes.

O trabalhador confessa não estar sendo fácil sustentar a família, já que a venda do produto não está dando o retorno esperado. O fio de esperança ao qual se agarra é a incerta volta às aulas, acreditando que o aumento do movimento nas ruas e portas das escolas possa alavancar o consumo, uma vez que o público infantojuvenil é o que mais compra. 

O agora sorveteiro relembra que a empresa na qual trabalhava optou por reduzir o quadro de funcionários por conta da pandemia. Diante da demissão, não desistiu de tentar recolocação no mercado formal. “Estou correndo atrás. Hoje mesmo já distribuí currículos, pois as empresas voltaram a contratar”, destaca.  

Raimundo comprou uma máquina que serve apenas dois sabores de sorvete. Para incrementar o produto, alterna as opções oferecidas diariamente, comercializando a casquinha ao valor médio de R$ 2 e permanecendo sempre em frente à agência do Banco do Brasil, no Bairro Cidade Nova, local de bastante movimento na cidade.

Raimundo comprou uma máquina de sorvetes após ser surpreendido com a demissão

BAIXA DEMANDA

De acordo com o coordenador do Sistema Nacional de Emprego (Sine) em Marabá, David Simões Viana, houve uma redução de 60% na procura por vagas de emprego na cidade. “Atualmente, temos por dia uma média de três a cinco pessoas se cadastrando em busca de uma vaga”, expõe.

O Sine Marabá opera em sistema de rodízio. A demanda, contudo, segue baixa. “Muitas pessoas conseguiram ter direito ao auxílio emergencial. Além disso, o aumento do trabalho informal deu uma renda extra”, pontua ele.

David frisa, entretanto, que há vagas de emprego disponíveis, entre elas auxiliar de contabilidade, auxiliar de recursos humanos, auxiliar administrativo, nutricionista, operador de escavadeira, vendedor pracista e outras. Todas podem ser conferidas no site da prefeitura.

Para se cadastrar no Sine, basta comparecer ao órgão com RG, CPF e Carteira de Trabalho. “Vale lembrar que a atualização do cadastro deve ser feita a cada três meses”, sinaliza David.

DADOS CONFIRMAM

Os recentes números divulgados pelo Caged corroboram a fala de David. Conforme o cadastro, que integra o Programa de Disseminação das Estatísticas do Trabalho (PDET), Marabá viu a quantidade de admissões superar a de desligamentos em junho. Isso não ocorria desde fevereiro.

Em junho, 1.088 trabalhadores foram admitidos e 911 desligados, com saldo positivo de 177. Para se ter uma ideia, em março, mês de início da quarentena, 1.370 pessoas perderam o emprego. Por outro lado, 1.275 foram contratadas, mas o saldo negativo de 95 ficou.

Em abril, o impacto foi ainda maior. Mesmo com número de demissões inferior na comparação com o mês antecedente, não houve expressivas contratações. 1.077 foram demitidos e 594 contratados, com saldo negativo de 483.

Maio também foi um mês difícil. Ao longo dos dias, 798 trabalhadores tiveram a vida laboral ceifada e 656 ganharam uma oportunidade no mercado. Saldo negativo, mais uma vez, de 142.

No acumulado do ano, com ajuste, o número de demissões também derrota o de contratações. No primeiro semestre do ano, 7.541 trabalhadores foram desligados e 7.284 admitidos em Marabá, com saldo negativo de 257.

Já Parauapebas, no mês de março, quando o município registrou o primeiro caso da doença, ainda apresentou saldo positivo no número de contratações, com 2.283 vagas preenchidas. O mesmo mês teve 1.820 trabalhadores demitidos. Já em abril, o número de desligamentos começou a ficar maior que o de admissões — 1.497 trabalhadores perderam o emprego, enquanto 1.403 foram contratados.

Maio foi o segundo mês a registrar mais demissões, gerando um total de 1.678 desligamentos, contra 1.609 admissões. Junho, todavia, começou a apresentar retomada. Foram 3.443 novos contratados para 1.450 demissões, um saldo superior positivo de 1.993 vagas preenchidas.

INTERVENÇÃO ESTATAL

Além do auxílio emergencial de R$ 600 para os informais e microempreendedores individuais afetados pela quarentena, há o benefício emergencial destinado aos trabalhadores formais que firmaram acordo com os patrões durante a crise.

O acordo elenca a suspensão do contrato de trabalho ou a redução proporcional de jornada de trabalho e de salário. Ele é firmado entre empregador e empregado e informado ao Ministério da Economia, que avalia as condições de elegibilidade e encaminha os pagamentos para as instituições financeiras.

No período, 10.634 acordos foram firmados apenas em Marabá como forma de garantir o emprego e a renda dos trabalhadores. Destes, 5.330 são de mulheres e 5.304 de homens. O setor que mais lançou mão do recurso foi o de serviços, com 4.303 assinaturas, seguido pelo comércio, com 4.042.

Na sequência, vem a construção civil, que consolida 1.742 acordos. A indústria aparece com 542 mudanças no contrato. A agropecuária registra apenas uma assinatura. Quatro acordos não tiveram o setor da economia informado.

Quanto aos acordos por tipo de adesão, 5.680 contratos foram temporariamente suspensos, 1.928 sofreram redução proporcional de salário e carga horária em 50%, 1.542 experimentaram contração de 25% e 1.400 passaram a trabalhar e receber apenas 30%. Esta última, aliás, é a redução mais severa. 105 trabalhadores são intermitentes, isto é, prestam serviços à contratante em caráter eventual. (Vinícius Soares, Theíza Cristhine e Ronaldo Modesto)

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