Correio de Carajás

Obesos da quarentena que surgiram em Marabá

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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Olhando um pouco para trás, tenho a convicção que ficamos mais gordos na pandemia. A classe média e os ricos, principalmente. Se não gordos, com quilos a mais ou a sensação de que na maior parte do destroço covidário (que ainda segue na chibata) comíamos amarrados.

Foi o que se deu. Enquanto experimentamos pela primeira vez dois lockdowns e lutos antecipados, comemos pra caramba. Comemos, bebemos e compramos mais nos supermercados que não pararam de encher as burras.

Imagine se todos os mercantis e as bodegas tivessem fechado com a distopia? Qual loucura ainda maior seria dentro de quem tinha casa, comida, cama, apartamento e residências de praia e serra para atravessar a pandemia? Alguma coisa tinha de ser comida.

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Fizemos assim, os homens principalmente (que só se sentam à mesa para serem servidos) passaram a cozinhar. Alguns até já sabiam e a falta da doméstica levou ao fogão ou air fryer.

De uma hora para outra, “chefs” bacaninhas a postar no Instagram, no Tik Tok e zap o que estavam preparando para o almoço e janta. A gente também gosta de ostentar comida, além de cachorrinhos caros que agora viraram “filhos”.

Quando era eu pivete, poucos na minha rua comiam carne de primeira. Então, comer um bife a cavalo ou um filé à parmegiana era um festival de Cannes. E, em algum momento, soltaríamos na rua o que tinha sido a mistura. Nem ovo nem sardinha nem carne de lata, boi mesmo. Chã de dentro, patinho.

Pois bem, os vinhos também foram mais bebidos. Secos, suaves, trinta e quatro reais, sessenta, cento e pouco, brancos, tintos, promoção no Mateus. No Líder é caro, mas o estoque não deu vencimento.

Os supermercados se transformaram na única praça pública permitida e o maior signo dos que podiam comer bem na pandemia. Destino para onde podíamos ir, único lugar público-privado para passear e comprar empanturrações. Comemos horrores durante a pandemia, tanto, tanto.

Meio que mercadinhos viraram pit stop para compras rápidas a qualquer hora. Ficou assim, durante o confinamento pandêmico: nas ruas de dentro dos supermercados apenas os passeantes que podiam encher os carrinhos ou comprar o mínimo.

Nas ruas de fora dos supermercados, miseráveis na súplica. Nas vias principais dos núcleos de Marabá, eram três níveis de rua. Um para os ricos e outros dois para a classe média e a gentália sem acesso à abundância.

Poderíamos ter guardado os nossos cupons fiscais. Um registro histórico do quanto comemos na pandemia (principalmente no começo). Uma possibilidade de instalação artística do quanto ingurgitamos sofregamente durante o “fique em casa”.

“Trituramos e bebemos demais na quarentena. Tucunaré, ifood, comida vegana, pizza hut, camarão… Não foi tão ruim”

Fiquei querendo entender por que quis escrever sobre a comilança de nós classe medianos e ricos durante a pandemia que ainda não deu o game over. Culpa? Ostentação? Soberba? Vontade de dizer que enquanto papávamos muito, uma porrada se derretia?

Comemos muito durante a pandemia, mas também doamos cestas e algum dinheiro pelo pix. Paciência, né? É a covid, é um pedaço de pão, é a lama, é seu Zé, é dona Maria, é o alvoroço do homem gritando no pé do condomínio…

Mastigamos e tungamos muito dentro de quem tem sala de jantar. Ficamos uns quilinhos, essas pessoas na sala de jantar preocupadas em não morrer na comedeira da covid… Como comemos!

* O autor é jornalista há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

 

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