Há certas grandezas na Amazônia que desafiam a modesta imaginação dos mortais, operando em uma dimensão onde a lógica se perde e a burocracia estatal floresce com requintes de puro surrealismo. Quem acompanha as andanças deste escriba pelas paragens do sudeste paraense sabe perfeitamente que o absurdo por aqui não costuma pedir licença para entrar, mas a recente saga ambiental vinda das cercanias da Serra das Andorinhas conseguiu superar qualquer disparate já registrado nesta coluna.
O protagonista involuntário da nossa fábula moderna atende pelo nome de Raimundo, conhecido na vizinhança pela singela alcunha de Tupi, um lavrador de mãos calejadas pela terra batida que, sem qualquer aviso prévio ou pompa cerimonial, foi subitamente alçado pelas canetas da Secretaria de Estado de Meio Ambiente à invejável e tragicômica condição de devedor multimilionário.
Tudo teve início quando uma vistosa expedição de fiscais ambientais e forças policiais baixou sobre a sua pequena posse para averiguar denúncias de supressão vegetal, deparando com algumas mangueiras tombadas para a abertura de um roçado de mandioca, procedimento devidamente amparado por uma autorização da prefeitura local.
Leia mais:O verdadeiro troféu da diligência, contudo, repousava no fundo de um refrigerador doméstico, devidamente acondicionado em um saco plástico comum: alguns nacos congelados de carne de tatu que, segundo garantiu o caseiro da chácara, foram caçados espontaneamente pelo próprio cachorro do terreiro. Para arrematar o inventário do suposto atentado contra o planeta, os valorosos agentes apreenderam uma velha espingarda calibre vinte e dois, apetrecho quase folclórico de quem reside na beira da mata para afugentar cobras e proteger as galinhas, acompanhada de uma solitária motosserra sem o carimbo imperial da repartição de Belém.
A vianda do pobre mamífero foi logo incinerada sob a lavratura solene de um termo de destruição, mas o grande ato desse teatro kafkiano ficou guardado para a audiência de conciliação ambiental realizada tempos depois. Foi diante das autoridades estaduais que o lavrador tomou conhecimento da fatura cobrada pelo desfrute do roedor silvestre: uma penalidade fixada em seiscentas e trinta e duas mil Unidades Padrão Fiscal, convertida na inacreditável montanha de R$ 3.169.796,00. Em um comovente gesto de caridade administrativa, os nobres conciliadores ainda ofereceram uma oferta irresistível de quarenta por cento de desconto para liquidação à vista, restando imaginar o lavrador vendendo sua produção de macaxeira pelos próximos quinhentos anos para quitar uma cifra que compraria fazendas inteiras ou alguns lotes de gado de elite na região.
A cifra astronômica faz crer que a carcaça apreendida não pertencia a um prosaico tatu do cerrado paraense, mas a uma criatura mítica cinzelada em ouro maciço com incrustações de diamante, cuja digestão teria colocado em risco a órbita da Terra. Enquanto isso, no perímetro urbano da vizinha Marabá, a mesma balança da justiça ecológica opera com pesos de algodão e medidas de extrema frouxidão. Não faz muito tempo que um próspero empresário da praça, incomodado com a sombra de uma castanheira centenária que atrapalhava seus planos imobiliários, mandou cortar a árvore protegida por legislação federal sem pestanejar. Para quem decepou o maior símbolo da floresta amazônica em plena cidade, o rigor dos órgãos de fiscalização foi de uma brandura maternal, aplicando uma multa irrisória de meros R$ 500,00, quantia que não paga nem a conta de um jantar modesto regado a bom vinho na Nova Marabá.
Essa discrepância escandalosa revela a verdadeira anatomia do poder em nosso rincão, onde a severidade da punição depende do endereço e do calçado do freguês. Quando o cidadão usa botina surrada, cheira a suor da roça e comete o deslize de guardar um tatu caçado pelo cachorro, o Estado comparece como um leão implacável, assinando dívidas capazes de falir pequenas nações. Já para o potentado de colarinho engomado que transforma patrimônio ambiental tombado em estacionamento comercial, a fiscalização se apequena em uma taxa simbólica que funciona quase como um alvará de incentivo ao crime.
Resta saber se o órgão ambiental aceitará a entrega da chácara, das mangueiras e da matilha de cães para amortizar a conta milionária do lavrador, enquanto os verdadeiros predadores da natureza continuam derrubando a floresta a preço de banana. Por essas bandas do Araguaia e do Tocantins, o peso da mão do Estado continua sendo uma questão de classe, demonstrando que na selva das repartições públicas um tatu de panela vale muito mais que uma castanheira secular.
* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.
