Neste mês de junho, mês em que se comemora a quadra junina de Santo Antônio (dia 13), São João (dia 24) e São Pedro e São Paulo (ambos no dia 29), esta coluna apresenta a fantástica obra A Cabeça do Santo (2014), da escritora cearense Socorro Acioli. Mas, antes de falar do enredo do romance, é preciso ressaltar que a escritora participou de uma oficina de escrita criativa ministrada pelo Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, escritor colombiano.
Sim, a nossa Socorro Acioli bebeu diretamente na fonte do colombiano. O realismo mágico presente na obra de Gabriel García Márquez e seu formidável Cem Anos de Solidão foi trazido para A Cabeça do Santo de forma bem brasileira. Foi a premissa da obra que levou Socorro a ser aceita na oficina, pois o colombiano achou-a tão extraordinária que chegou a perguntar o que era real naquela história extraordinária, ficando surpreso ao saber que o fato maravilhoso – uma cabeça gigante do santo – era real.
A obra é inspirada em um fato real, ocorrido na cidade de Caridade/CE: uma certa cabeça gigante de Santo Antônio que ficou abandonada por mais de 40 anos para, enfim, ser colocada sobre os seus ombros. O fato inusitado foi inspiração literária para a escritora cearense e virou atração turística para os visitantes do município. A obra é genuinamente nordestina, pois ambientada nas cidades de Juazeiro do Norte e Candeias, escrita por uma mulher cearense e inspirada em um fato que se transformou em folclore e lenda no interior do Ceará.
Leia mais:Vamos ao enredo: o jovem Samuel, que para atender a um dos últimos pedidos da mãe sai a pé de Juazeiro do Norte para a cidade de Candeias para encontrar a avó, dona Niceia, e o pai, seu Manoel, conforme trecho: “A mãe tinha pouca vida nos olhos, pouca carne nos ossos. Ela disse que tinha quatro coisas para pedir a ele antes de partir, e Samuel intuiu que não seria fácil escutar. “Eu quero que você acenda três velas para minha alma. A primeira no santuário de meu padim Cícero, a segunda na estátua de São Francisco de Canindé (…) e a terceira é para Santo Antônio, porque ele era o santo de devoção de minha mãe. Todas três nos pés deles, meu filho, encostadas nos pés. Isso é importante para mim. Mas o meu maior pedido é que você vá para Candeias procurar sua avó e seu pai.”
A jornada do protagonista durou dezesseis dias: “Por vezes olhava para baixo e temia que o ventre colasse de vez nas costelas.” Até aqui parece mais uma história de um filho em busca do pai desconhecido, tema explorado em Pedro Páramo, do mexicano Juan Rulfo.
Contudo, o jovem Samuel acaba se abrigando dentro da gigante cabeça de Santo Antônio: “Samuel percebeu que a gruta onde passou a noite era, na verdade, uma cabeça oca e assustadora. Uma cabeça de santo.” E eis que ali seu dom extraordinário é revelado: “Eram exatamente cinco horas da manhã quando Samuel começou a acordar, atormentado, confuso. Ouvia vozes de mulheres, várias, falando ao mesmo tempo. Falando, falando, falando. Parecia reza, briga, conversa, tudo ao mesmo tempo.” Aqui tem-se o anunciado realismo mágico, pois o protagonista tem o extraordinário dom de ouvir as preces femininas ao “santo casamenteiro” mesmo à distância.
Como dito, é uma premissa comum — um filho em busca da família paterna — mas Socorro soube, de forma magistral, mesclar uma história do cotidiano com um fenômeno extraordinário: o dom de ouvir as vozes, as rezas, as preces de várias mulheres ao mesmo tempo, como se tivesse emprestado seus ouvidos a Santo Antônio. É isso que encanta os milhares de leitores que já fizeram morada no romance A Cabeça do Santo. A escritora rompe com a divisão entre o real e o fantástico; o enredo tem elementos reais, fictícios e extraordinários.
A dica de leitura de hoje é: A Cabeça do Santo (2014), da escritora cearense Socorro Acioli, uma obra riquíssima, escrita a partir de diversos elementos fantásticos, fé, tradição e religiosidade católica. O livro traz uma narrativa curta e divertida, é romance para se devorar em um fim de semana! Até a próxima, queridos leitores e boa leitura!
* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.
