Correio de Carajás

O ouro de sangue e a queda do céu

Pluralizando

Pluralizando

Rosani de Fatima Fernandes

“A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa.”

As sábias palavras que anunciam o cataclismo na terra são do líder Xamânico Davi Kopenawa, do povo Yanomami, que vive no Norte da Amazônia, na fronteira do Brasil com a Venezuela. A profecia, por assim dizer, é parte do livro de relatos e memórias escrito com Bruce Albert, intitulado “A queda do céu”, publicado originalmente em francês, no ano de 2010, e em português, em 2015, pela Companhia das Letras. Fruto de uma longa amizade e parceria de mais de 40 anos, o livro de mais de 700 páginas narra a saga do povo Yanomami na resistência às sucessivas e constantes invasões do seu território, às epidemias, mortes e destruição trazidas com as mazelas do garimpo ilegal.

Um dos mais violentos episódios contra os Yanomami aconteceu em 1993 e ficou conhecido como o Massacre de Haximu, nome da aldeia em que foram assassinadas brutalmente 16 pessoas Yanomami, entre mulheres e crianças, indefesas diante da brutalidade de 22 garimpeiros armados. Relatos de sobreviventes informam que: “Os garimpeiros mataram meus irmãos, irmãs e meu pai com terçados; alguns morreram com armas de fogo.… Nós não podemos falar muito porque é uma tristeza. Quando nós falamos sobre o massacre nós lembramos do nosso pai.”

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De 1993 para cá, pouca coisa mudou, os territórios indígenas continuam sendo invadidos e explorados à revelia da legislação que assegura o usufruto exclusivo das terras pelos povos indígenas e a obrigação de proteção pelo Estado brasileiro. Atualmente, o número de garimpeiros ilegais ultrapassa os 20 mil e quase se iguala a população Yanomami. Acompanhando os invasores, chegam também as doenças, as drogas lícitas e ilícitas, os estupros de mulheres e crianças e toda forma de violência para as quais, este povo de recente contato, tem poucas ou nenhuma defesa.

Com armas de fogo em punho e muita sede de ouro, os garimpeiros seguem rasgando a terra, poluindo rios e peixes com mercúrio e causando impactos irreparáveis ao território e ao povo Yanomami.

No dia 12 de outubro de 2021, quando a sociedade brasileira celebrava o dia das crianças, duas crianças Yanomami de quatro e sete anos, foram sugadas por uma draga enquanto nadavam e brincavam no rio Parima que banha a Aldeia Macuxi Yano, no hoje estado de Roraima. Atividades cotidianas como nadar e brincar no rio, comum às crianças indígenas desde muito pequenas, terminaram em tragédia devido a ação dos invasores. Acostumadas a domesticar desde cedo as águas dos rios, não tiveram chances diante do monstro que engole areia e lama para cuspir ouro banhado de sangue.

Há alguns dias ficamos, mais uma vez, estarrecidos e revoltados com outra notícia de violência e morte entre as crianças Yanomami. Uma menina de apenas 12 anos foi estuprada e morta por garimpeiros. Sim, garimpeiros, no plural, porque eram muitos e, ao que tudo indica, trata-se de estupro coletivo de vulnerável seguido de morte. Outra criança de  três anos segue desaparecida após ter sido empurrada no rio pelos garimpeiros juntamente com a mãe que tentava impedir a violência. A região de Waikás, onde as crianças residiam é uma das mais atingidas pelo garimpo ilegal na Amazônia.

Segundo denúncias dos próprios Yanomami, divulgadas em nota da Hutukara Associação Yanomami, mulheres e crianças estão sendo aliciadas e violentadas  por garimpeiros. A associação também informa que o garimpo ilegal teve um aumento de mais de 1.000% entre dezembro de 2020 e setembro de 2021, ou seja, no período em que enfrentávamos o horror de uma pandemia mundial, a da COVID 19, o que representa outra grave ameaça à vida das pessoas pelos riscos de contaminação, adoecimento e morte.

Apesar da gravidade dos fatos, parece que as notícias sobre estupro e morte de crianças Yanomami não provocaram comoção nacional. Não vimos ninguém mudar seu perfil das redes sociais para “somos todos Yanomami”, nem manifestações de apoio e muito menos ações efetivas no combate ao garimpo ilegal que pudessem mudar o quadro de genocídio que está instalado no território dos Yanomami. A não comoção e a não mobilização da sociedade brasileira para repudiar tais violências só corroboram à relativização da violência contra povos indígenas no Brasil, historicamente estruturado nas bases do racismo para desumanização, escravização e exploração de pessoas indígenas e negras.

Não esqueçamos que o Brasil foi o último a abolir à escravidão de pessoas negras e, infelizmente, parte da população parece ser saudosa do tempo de subserviência desumanizada de homens, mulheres e crianças pretas. Talvez, e não quero crer, por isso, o estupro e assassinato de mulheres e crianças indígenas e negras não cause tanto espanto nem revolta na maioria da população. Pelo contrário, as lideranças indígenas são criminalizadas e “linchadas” pela opinião pública  por fazerem a defesa dos territórios dos invasores.

Seria diferente se as crianças fossem brancas, moradoras de áreas nobres de alguma grande cidade brasileira? Certamente sim, pois, o genocídio indígena de mais de 500 anos no Brasil parece ter sido relativizado pela sociedade brasileira e pelos meios de comunicação de massa, que seguem apáticos diante de tamanha brutalidade.

 As mortes de além-mar parecem causar muito mais revolta e comoção. Talvez isso se deva, também, ao fato da  maioria da população brasileira pouco ou nada saber e nada querer saber sobre os povos indígenas no Brasil de ontem, de hoje e da (im)possibilidade de futuro desses povos. Acostumados a enxergar pelas lentes do racismo, não conseguem visualizar a cosmologia Yanomami  e de outros povos indígenas que alertam para o fim próximo, não da sua sociedade apenas, mas da possibilidade de continuidade de vida no planeta.

Os Yanomami narram na sua cosmologia que o grande espírito Omama criou todos povos da floresta e também os “brancos”, como irmãos, lhes ensinando tudo o que precisavam saber para viver tranquilos e com fatura de alimentos, numa relação de equilíbrio com os demais seres da natureza e do cosmo, mas, os não indígenas, esquecendo-se dos ensinamentos sobre proteger e cuidar da terra, das plantas e dos animais foram destruindo tudo, tornando rios em lama e terra fértil em desertos improdutivos.

Descobriram que com suas mãos podiam fazer muitas coisas e sucumbiram à “paixão pelas mercadorias”, entre elas, o ouro, por isso “começaram a rejeitar os dizeres dos seus antigos como se fossem mentiras e foram aos poucos se esquecendo deles”. (Davi Kopenawa)

Para os Yanomami, Yoasi, “o senhor da morte” foi quem ensinou o caminho das coisas ruins para os não indígenas, que passaram a escavar a terra em busca do “metal precioso”, o ouro. Junto com o garimpo que atravessou as águas e chegou até suas aldeias, chegaram também “os comedores de terra” e as “fumaças de epidemia”. No princípio, o ouro foi escondido por Omama  para que o choro e o luto cessassem. Ao escavar o solo, Xiwãripo, o ser do caos é liberado, e com ele, os males que vão assolar toda a humanidade, o solo vai rachar de tanto calor, a chuva não cairá mais e todas as pessoas perecerão. Para os Yanomami, a hecatombe acontecerá com a queda do céu que  aniquilará toda a vida no planeta.

Enquanto alguns descreditam os Yanomami, a Ciência e negam a veracidade dos fatos e das estatísticas que nos aproximam da “queda do céu”, o desmatamento da Amazônia e o garimpo ilegal seguem aumentando assustadoramente nos últimos anos.

Segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), foram derrubados 10.476 km² de floresta entre agosto de 2020 e julho de 2021, o que corresponde a uma taxa 57% maior que a da temporada passada. Os números são os piores dos últimos dez anos e o Pará foi o estado que mais desmatou, com aumento de 43%.

Há tempos temos ouvido alertas sobre os danos catastróficos que as mudanças climáticas podem causar no nosso planeta, como aumento da temperatura, derretimento das geleiras, aumento do nível dos oceanos, alterações na vida marinha, nos níveis de chuva, entre outras. São tragédias anunciadas. Mas, mesmo com todos os indicativos, as grandes potências mundiais seguem inertes, priorizando modelos de desenvolvimento predatórios e desumanizadores que reproduzem desigualdades.

Cabe ressaltar que o território indígena é asilo inviolável dos Povos Indígenas, é casa, abrigo, fonte de alimento, saúde, trabalho, lazer e proteção, não devendo, portanto, ser invadido ou depredado. Assim como nas casas e nas propriedades dos não indígenas, a entrada em terra indígena só é permitida com convite ou autorização dos donos. Do contrário, trata-se de crime e deve ser tratado nas formas da lei.

Para Ailton Krenak, ambientalista e escritor do povo Krenak, podemos adiar o fim do mundo contando histórias que nos conectem com nossa ancestralidade, com o cosmo, com a natureza e com todos os espíritos que mantém o equilíbrio crucial à continuidade da vida no planeta. No seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, publicado em 2019, Ailton mostra como as sociedades ocidentais podem aprender com as sabedorias indígenas, num exercício de interculturalidade e de respeito mútuo.

Para finalizar sem encerrar, penso que dei minha contribuição, contando um pouco sobre a cosmovisão Yanomami e tentando chamar atenção para nossas responsabilidades na tarefa de tentar frear a hecatombe mundial. E você, o que está fazendo para tentar evitar a “queda do céu” e “adiar o fim do mundo”?

Me sigam no instagram @rosanikamury

 

Fontes de pesquisa e informação:

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã Yanomami. São Paulo: Companhia das Letras. 2015. 729 p. Acessível para leitura em: https://leiaarqueologia.files.wordpress.com/2017/08/davi_kopenawa___bruce_albert_-_a_queda_do_c_u.pdf.

 

KRENAK, Ailton. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras, 2019.

 

Sites consultados e fontes de pesquisa:

 

https://leiaarqueologia.files.wordpress.com/2017/08/davi_kopenawa___bruce_albert_-_a_queda_do_c_u.pdf.

https://g1.globo.com/natureza/amazonia/noticia/2021/08/19/taxa-anual-de-desmatamento-na-amazonia-e-a-maior-do-ultimos-dez-anos-diz-imazon.ghtml

https://brasil.elpais.com/brasil/2021-10-16/duas-criancas-yanomami-mortas-por-uma-draga-de-exploracao-ilegal-de-minerio-diante-da-omissao-do-governo.html.

 

A autora é da etnia Kaingang, Doutora em Antropologia e Mestre em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA),  atualmente cursa Pós-Doutoramento na Clínica de Direitos Humanos da Amazônia (CIDHA) do Programa de Pós Graduação em Direito (PPGD/UFPA) e assessora da Associação Indígena Gavião Kyikatêjê Amtàti. Milita em Direitos Humanos e Indígenas. Trabalha para a construção de uma sociedade mais justa e respeitosa para todos os seres e povos.

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

 

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