Correio de Carajás

O mundo sem cor dos invisíveis

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Keith Arquisa da Costa, 30 anos, foi encontrada morta na madrugada desta sexta-feira (4) na Cracolândia que se formou ao lado da Rodoviária do Km 06, em um terreno onde seria construído um suntuoso shopping center, a reboque do sonho que virou cinzas da Alpa. Só se sabe o nome completo de Keith devido ao desfecho trágico de uma vida abreviada pelo infortúnio. Tragicamente, o anonimato de Keith foi quebrado pela morte. Outras centenas de dependentes químicos como ela se amontoam no lugar, quase que invisíveis aos olhos de quem passa. 

A agonia dela, provocada por [quase] uma vida inteira de dependência, foi revelada à reportagem na última quinta-feira (3), antes do seu assassinato. Ela reclamou ao CORREIO que sentia falta de mais apoio dos órgãos públicos.

“Eu já passei muito tempo sem a droga, mas ela ‘chama’. Se eles quiserem ajudar, eles ajudam. Mas depois se esquecem das pessoas”, disse com voz trêmula. Keith vivia com o marido nas ruas, longe dos seus filhos. O esposo, Claiton Silva de Oliveira, de 42 anos, também é usuário de crack e contou o quanto é tortuoso o caminho de quem vive refém do vício.

Leia mais:

“A gente não sai dessa vida apenas por querer sair. É preciso de apoio de alguém, da família, porque só não sai”. Para ele, caberia ao município, estado ou união, oferecer um abrigo para acolher todos os dependentes de Marabá. Claiton contou que faz bicos para sustentar a dependência, mas que não é fácil lidar com as amenidades da vida de adicto. Ele também acusou a guarda municipal de agir com brutalidade.

“Muitas vezes, a gente está trabalhando em um lugar e os guardas municipais tiram a gente como se fôssemos animais”, denuncia, revelando que já apanhou, teve seus pertences queimados e o dinheiro da renda do dia tomado pelos agentes, sem contudo dar nomes.

Sem eco

Mas o clamor por ajuda dos dependentes químicos parece não ser ouvido em Marabá. Depois das 20 horas, dezenas deles se juntam à beira da rodovia, no KM 6, para alimentar o vício do crack. A maioria mora na rua, dormindo debaixo de bambuzais, nos arredores da rodoviária ou de postos de gasolina.

“Todos os dias, somos ignoradas. Talvez por não pagarmos impostos ou trabalhar formalmente. A sociedade parece ter virado as costas para nós”, desabafa Emanoel do Nascimento Silva, maranhense, que trabalha como flanelinha nos arredores da rodoviária. Ele disse que estava em Marabá de passagem, e que pretende se estabelecer em Mato Grosso.

A viagem foi interrompida, segundo conta, porque ele foi roubado e acabou ficando na cidade. Como ficou sem dinheiro e sem ter quem o acudisse, acabou indo morar nas ruas. Embora não se considere alcoólatra, Emanoel disse que bebe todos os dias para esquecer-se dos problemas.

Reginaldo Monteiro Alves também é flanelinha. Todo o dinheiro que ganha, usa para comprar drogas e bebidas. Ele mora na rua e, geralmente, dorme no mesmo espaço de outros tantos adictos, no fatídico terreno onde seria construído o shopping, no KM-06. Porém, não se sente seguro onde está. Para ele a ociosidade, a falta de emprego e a situação precária em que vive facilita o caminho até o vício.

A dependente química Renata Ferreira Campos mora em Marabá desde 1993. O local que chama de casa é um pequeno espaço debaixo do bambuzal, onde estão suas roupas e a rede em que dorme. Ela e outras adictas que vivem no local revelaram que sofrem muitos abusos por parte dos guardas municipais, de cunho moral e sexual, reclamando ainda que os próprios guardas pedem a elas para se despir para que possam revista-las.

Guarda Municipal diz que não recebeu denúncias

 

De acordo com Everton Barreto, inspetor da Guarda Municipal de Marabá, a corporação trabalha de forma efetiva nos arredores da rodoviária do KM-06. “Até já encaminhamos usuários e traficantes para a delegacia e não só uma ou duas vezes. A gente tem feito um trabalho preventivo, de conscientização também. Até porque, nós bem sabemos que ali tem o tráfico, uso e a prostituição infantil, que é muito alta”, confirma. Segundo ele, a GMM faz um trabalho preventivo e ostensivo no local.

O inspetor também disse que todas as denúncias feitas pelos usuários, nunca chegaram ao seu conhecimento. Além disso, ele afirma que há guardas femininas na corporação, que são responsáveis pelas revistas femininas. “Como eles são usuários e traficantes, estão contra a lei, então vão falar o que bem entendem para se defender. E nós estamos lá para incomodar mesmo, porque no local transitam crianças, jovens, e eles não podem ficar daquele jeito”.

A reportagem chegou a questionar Everton sobre o procedimento, caso ocorram abusos. “É fazer a denúncia, mas até então a gente não recebeu nada nesse sentido”.

CAPS é alternativa para o tratamento de drogas

 

Mais de dois milhões de brasileiros já tiveram contato com o crack, segundo dados do último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), realizado pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), enquanto mais de seis milhões já experimentaram a cocaína. Em Marabá, a dependência química é tratada no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), localizado na Folha 31, Nova Marabá.  

De acordo com Adriana Tábata dos Santos, enfermeira especializada em saúde mental, com ênfase em álcool e outras drogas, há um grupo no local que promove a interação de pacientes. “Temos um grupo aqui fixo, toda quarta-feira, batizado de Papo Reto. Os próprios usuários escolheram esse nome para o grupo, justamente, porque é um assunto direto”, explica.

Segundo ela, em cada período do ano é tratada uma droga específica, falando sobre suas características e promovendo o compartilhamento de experiências entre os usuários do CAPS. “Esse mês, a gente está trabalhando o álcool”. Para a enfermeira, o grupo é importante para conscientizar o dependente químico sobre a sua condição.

“A pessoa é que procura por ajuda. É ela que tem identificar que está tendo problemas”, disse, acrescentando que entidades como Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos também promovem conversas com adictos no Centro Psicossocial. Mas, esclarece que o trabalho feito lá é proveniente de políticas públicas voltadas para o tratamento de dependentes químicos.

“O que norteia são as políticas públicas de saúde mental norteadas pelo Ministério da Saúde e pelas portarias que estabeleceram os CAPS, a 336, que fala de saúde mental”. Ela informa também que a unidade trabalha em conjunto com os postos de saúde da cidade, a fim de atender a toda demanda de Marabá.

Atribuições

O Centro de Atenção Psicossocial é um serviço destinado ao cuidado e atenção continuada às pessoas adictas de álcool, crack e outras drogas. Ele é aberto a qualquer indivíduo, independente de classe social ou idade. “Se a pessoa estiver passando na rua e pensar em entrar aqui para saber o que está acontecendo, ela será atendida. Então, todos os dias, de segunda a sexta-feira, das 8 horas às 17 horas, tem um profissional para acolher quem busca por ajuda”, explica a enfermeira Adriana. 

(Nathália Viegas e Adilson Poltronieri com informações de Josseli Carvalho)

 

Keith Arquisa da Costa, 30 anos, foi encontrada morta na madrugada desta sexta-feira (4) na Cracolândia que se formou ao lado da Rodoviária do Km 06, em um terreno onde seria construído um suntuoso shopping center, a reboque do sonho que virou cinzas da Alpa. Só se sabe o nome completo de Keith devido ao desfecho trágico de uma vida abreviada pelo infortúnio. Tragicamente, o anonimato de Keith foi quebrado pela morte. Outras centenas de dependentes químicos como ela se amontoam no lugar, quase que invisíveis aos olhos de quem passa. 

A agonia dela, provocada por [quase] uma vida inteira de dependência, foi revelada à reportagem na última quinta-feira (3), antes do seu assassinato. Ela reclamou ao CORREIO que sentia falta de mais apoio dos órgãos públicos.

“Eu já passei muito tempo sem a droga, mas ela ‘chama’. Se eles quiserem ajudar, eles ajudam. Mas depois se esquecem das pessoas”, disse com voz trêmula. Keith vivia com o marido nas ruas, longe dos seus filhos. O esposo, Claiton Silva de Oliveira, de 42 anos, também é usuário de crack e contou o quanto é tortuoso o caminho de quem vive refém do vício.

“A gente não sai dessa vida apenas por querer sair. É preciso de apoio de alguém, da família, porque só não sai”. Para ele, caberia ao município, estado ou união, oferecer um abrigo para acolher todos os dependentes de Marabá. Claiton contou que faz bicos para sustentar a dependência, mas que não é fácil lidar com as amenidades da vida de adicto. Ele também acusou a guarda municipal de agir com brutalidade.

“Muitas vezes, a gente está trabalhando em um lugar e os guardas municipais tiram a gente como se fôssemos animais”, denuncia, revelando que já apanhou, teve seus pertences queimados e o dinheiro da renda do dia tomado pelos agentes, sem contudo dar nomes.

Sem eco

Mas o clamor por ajuda dos dependentes químicos parece não ser ouvido em Marabá. Depois das 20 horas, dezenas deles se juntam à beira da rodovia, no KM 6, para alimentar o vício do crack. A maioria mora na rua, dormindo debaixo de bambuzais, nos arredores da rodoviária ou de postos de gasolina.

“Todos os dias, somos ignoradas. Talvez por não pagarmos impostos ou trabalhar formalmente. A sociedade parece ter virado as costas para nós”, desabafa Emanoel do Nascimento Silva, maranhense, que trabalha como flanelinha nos arredores da rodoviária. Ele disse que estava em Marabá de passagem, e que pretende se estabelecer em Mato Grosso.

A viagem foi interrompida, segundo conta, porque ele foi roubado e acabou ficando na cidade. Como ficou sem dinheiro e sem ter quem o acudisse, acabou indo morar nas ruas. Embora não se considere alcoólatra, Emanoel disse que bebe todos os dias para esquecer-se dos problemas.

Reginaldo Monteiro Alves também é flanelinha. Todo o dinheiro que ganha, usa para comprar drogas e bebidas. Ele mora na rua e, geralmente, dorme no mesmo espaço de outros tantos adictos, no fatídico terreno onde seria construído o shopping, no KM-06. Porém, não se sente seguro onde está. Para ele a ociosidade, a falta de emprego e a situação precária em que vive facilita o caminho até o vício.

A dependente química Renata Ferreira Campos mora em Marabá desde 1993. O local que chama de casa é um pequeno espaço debaixo do bambuzal, onde estão suas roupas e a rede em que dorme. Ela e outras adictas que vivem no local revelaram que sofrem muitos abusos por parte dos guardas municipais, de cunho moral e sexual, reclamando ainda que os próprios guardas pedem a elas para se despir para que possam revista-las.

Guarda Municipal diz que não recebeu denúncias

 

De acordo com Everton Barreto, inspetor da Guarda Municipal de Marabá, a corporação trabalha de forma efetiva nos arredores da rodoviária do KM-06. “Até já encaminhamos usuários e traficantes para a delegacia e não só uma ou duas vezes. A gente tem feito um trabalho preventivo, de conscientização também. Até porque, nós bem sabemos que ali tem o tráfico, uso e a prostituição infantil, que é muito alta”, confirma. Segundo ele, a GMM faz um trabalho preventivo e ostensivo no local.

O inspetor também disse que todas as denúncias feitas pelos usuários, nunca chegaram ao seu conhecimento. Além disso, ele afirma que há guardas femininas na corporação, que são responsáveis pelas revistas femininas. “Como eles são usuários e traficantes, estão contra a lei, então vão falar o que bem entendem para se defender. E nós estamos lá para incomodar mesmo, porque no local transitam crianças, jovens, e eles não podem ficar daquele jeito”.

A reportagem chegou a questionar Everton sobre o procedimento, caso ocorram abusos. “É fazer a denúncia, mas até então a gente não recebeu nada nesse sentido”.

CAPS é alternativa para o tratamento de drogas

 

Mais de dois milhões de brasileiros já tiveram contato com o crack, segundo dados do último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), realizado pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), enquanto mais de seis milhões já experimentaram a cocaína. Em Marabá, a dependência química é tratada no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), localizado na Folha 31, Nova Marabá.  

De acordo com Adriana Tábata dos Santos, enfermeira especializada em saúde mental, com ênfase em álcool e outras drogas, há um grupo no local que promove a interação de pacientes. “Temos um grupo aqui fixo, toda quarta-feira, batizado de Papo Reto. Os próprios usuários escolheram esse nome para o grupo, justamente, porque é um assunto direto”, explica.

Segundo ela, em cada período do ano é tratada uma droga específica, falando sobre suas características e promovendo o compartilhamento de experiências entre os usuários do CAPS. “Esse mês, a gente está trabalhando o álcool”. Para a enfermeira, o grupo é importante para conscientizar o dependente químico sobre a sua condição.

“A pessoa é que procura por ajuda. É ela que tem identificar que está tendo problemas”, disse, acrescentando que entidades como Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos também promovem conversas com adictos no Centro Psicossocial. Mas, esclarece que o trabalho feito lá é proveniente de políticas públicas voltadas para o tratamento de dependentes químicos.

“O que norteia são as políticas públicas de saúde mental norteadas pelo Ministério da Saúde e pelas portarias que estabeleceram os CAPS, a 336, que fala de saúde mental”. Ela informa também que a unidade trabalha em conjunto com os postos de saúde da cidade, a fim de atender a toda demanda de Marabá.

Atribuições

O Centro de Atenção Psicossocial é um serviço destinado ao cuidado e atenção continuada às pessoas adictas de álcool, crack e outras drogas. Ele é aberto a qualquer indivíduo, independente de classe social ou idade. “Se a pessoa estiver passando na rua e pensar em entrar aqui para saber o que está acontecendo, ela será atendida. Então, todos os dias, de segunda a sexta-feira, das 8 horas às 17 horas, tem um profissional para acolher quem busca por ajuda”, explica a enfermeira Adriana. 

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