Correio de Carajás

Novo coronavírus pode ter ficado por até 70 anos em circulação silenciosa entre os morcegos, aponta estudo

Pessoas compram morcegos em um mercado em Tomohon, na Indonésia, em foto de arquivo de 2014 — Foto: Michel Gunther/Biosphoto via AFP
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Uma parceria internacional entre cientistas tenta determinar a origem do novo coronavírus (Sars CoV-2). Divulgado na última edição da revista “Nature Microbiology”, um estudo indica que a linhagem causadora da Covid-19 pode estar circulação entre os morcegos há décadas.

Participaram da pesquisa especialistas dos Estados Unidos, Bélgica, Reino Unido e China. Para chegar ao resultado, o grupo tentou recriar a “árvore genealógica” do vírus.

Como há uma troca fácil de material genético entre os vírus, os cientistas dizem que não é simples descobrir esse caminho. Além disso, “regiões diferentes do genoma do vírus podem ter ancestrais diferentes”, segundo Maciej F. Boni, autor principal do estudo e pesquisador pela Universidade Estadual da Pensilvânia.

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Para superar esse obstáculo, Boni e seus colegas usaram três técnicas diferentes para identificar partes do genoma do vírus que permaneceram estáveis, que não passaram por essas trocas genéticas.

Após comparar o Sars-CoV-2 com genomas de vírus do mesmo subgênero (sarcovírus), as três técnicas indicam que ele compartilha uma linhagem ancestral com seu parente mais próximo conhecido, catalogado como RaTG13. Cada técnica fornece uma data provável para a separação: 1948, 1969 e 1982.

Os cientistas também alertam que podem ter existido mais linhagens de coronavírus com características apropriadas para infectar humanos. Além disso, como os vírus têm alta capacidade de trocar material genético, “será difícil identificar um com potencial para causar grandes problemas aos humanos antes que os surtos surjam”, afirmam os autores.

Eles ressaltam a necessidade da criação de uma “rede global de sistemas de vigilância de doenças humanas em tempo real”, como o que identificou os casos incomuns de pneumonia em Wuhan em dezembro de 2019.

O estudo também sugere que o novo coronavírus pode ter sido transmitido diretamente do morcego para o ser humano, embora não descarte a possibilidade de que os pangolins possam ter agido como um hospedeiro intermediário.

As evidências atuais são consistentes com o vírus ter evoluído em morcegos, dando origem a variantes capazes de se replicar no trato respiratório superior de humanos e pangolins“, cita trecho do artigo.

Seleção natural

Imagem colorida artificialmente mostra célula, em azul, infectada pelo Sars CoV-2, em vermelho — Foto: NIAID
Imagem colorida artificialmente mostra célula, em azul, infectada pelo Sars CoV-2, em vermelho — Foto: NIAID

Outra pesquisa, ainda não publicada em nenhuma revista científica, aponta que a seleção natural do Sars-CoV-2 nos morcegos é que fez com que o vírus se tornasse “altamente capaz” de infectar humanos.

Os cientistas, de universidades na Escócia, Estados Unidos e Bélgica, chegaram à conclusão depois de comparar o novo coronavírus com vírus semelhantes que infectavam morcegos – do mesmo subgênero que o Sars-CoV-2, dos sarbecovírus.

“Surpreendentemente, o Sars-CoV-2 não precisou de adaptação significativa para humanos desde o início da pandemia de Covid-19”, escreveram os pesquisadores.

Os cientistas lembraram que, desde que o genoma do novo coronavírus começou a ser sequenciado, não foram observadas muitas mutações nele em humanos; apesar disso, o vírus pareceu “surgir” dos morcegos já com uma habilidade adaptada para infectar células humanas.

Comparando as linhagens, eles perceberam que o vírus antecessor mais próximo do Sars-CoV-2, que infectava os morcegos, já tinha mudanças na proteína usada para infectar as células hospedeiras. Essas mudanças, apesar de serem aleatórias, acabaram sendo benéficas para o vírus.

Os vírus de RNA, como o novo coronavírus, são muito competentes em “trocar” de espécie hospedeira, explicam os cientistas, passando por adaptações, por seleção natural, que permite que eles infectem novas células hospedeiras de maneira eficiente.

A pesquisa ainda precisa passar pela revisão de outros cientistas (a chamada “revisão por pares” ou, em inglês, “peer review”) para ser validada e publicada em revista científica. (Fonte: G1)

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