Correio de Carajás

Nicomedes: o médico que nos orgulhava aqui e lá fora

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

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Sinto-me à vontade para escrever sobre José Nicomedes Soares Ferreira, ou melhor, Dr. Nicomedes. É bom dizer que não ando chamando todo médico de doutor, não. Mas alguns merecem o título por seu trabalho diferenciado. No último domingo, Marabá não perdeu apenas um médico, um doutor, um oftalmologista. Perdeu um cidadão que dignificava a cidade.

Fui paciente de Nicomedes em meados da década de 2000. Me apareceu um vírus e senti quando dirigia o carro no por do sol, no retorno de Pedra Caída, em Carolina-MA. A vista começou a dor como nunca ocorrera. No dia seguinte, eu não aguentava sair do quarto e a luz que entrava pela fresta da janela me incomodava de forma absurda.

Tive de procurar, com urgência, um oftalmologista e recorri, pela primeira vez, ao experiente Dr. Nicomedes. Consultório lá na Praça Duque de Caxias, uma fila enorme porque, a quantidade de pacientes daqui e de fora sempre foi grande. Eu tinha plano da Unimed, mas o valor repassado era tão baixo que houve um tempo em que ele evitava atender por esse plano. E tinha razão. Eu também não ia querer. Ele não era a pessoa mais sorridente do mundo com os pacientes, mas a consulta não era daquelas vapt-vupt, como se vê por aí.

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Depois de exames minuciosos, veio o diagnóstico e iniciei o que ele avisou que seria um longo tratamento. E foi. Tomava até corticoide, pingando dois remédios por dia nos olhos. Depois de seis meses e a sensação de que o tratamento não surtia efeito, fui a Belém consultar com alguém que me disseram era “fera”.

Eu não disse que já estava em tratamento e apenas relatei os sintomas. O diagnóstico foi o mesmo daqui. Depois de revelar de qual cidade eu era, a médica fez uma recomendação direta: “procure o doutor Nicomedes, você estará em ótimas mãos”. E, no final, passei a confiar mais no santo de casa.

Um ano depois, um amigo pastor viajou ao Rio de Janeiro para tratamento delicado e complexo na vista. Quando chegou lá, o médico que lhe atendeu descobriu que Ezequias Guimarães morava em Marabá e o despachou com uma frase de chofre: “Pegue o avião e volte. Procure o Dr. Nicomedes na sua cidade. É um dos melhores que conheço”.

Pastor Ezequias nunca ouvira falar de Nicomedes, mas voltou satisfeito e me pediu ajuda para identificar aquele profissional. E contava essa história por onde passava.

E eu, que não sou amigo da família do médico, fui descobrindo, aos poucos, que a fama de Dr. Nicomedes fora de Marabá era algo impressionante. E tantas pessoas que lhe recomendavam, mas principalmente profissionais da mesma especialidade.

Na sessão ordinária desta semana, na Câmara Municipal de Marabá, as honras a Dr. Nicomedes foram prestadas por meio de Nota de Pesar e discursos de parlamentares. Vanda Américo narrou alguns outros exemplos de como o trabalho de excelência que ele desempenhava aqui ajudava a dar notoriedade a Marabá lá fora. “São mais de quarenta anos em nossa cidade e a gente tinha muito orgulho desse médico, que atendia muitas pessoas até tarde da noite em seu consultório”, disse Vanda.

Miguelito foi outro que exaltou o legado deste profissional. “Nicomedes veio para Marabá muito novo, numa região que era difícil de acesso. Chegou, se dedicou, apostou em nossa cidade e cresceu.  Investiu na pecuária e seus filhos seguem seu caminho, com prestação de serviços em várias áreas. Era médico de referência em todo o País. Ele não se limitou só a Marabá, atuou em vários municípios da região, como Jacundá. Clinicava até 22 horas para atender toda a região”, recorda.

Sim. Ele se foi. Esperamos que o filho, também médico da mesma especialidade, construa a própria história, tendo o legado do velho Dr. Nicomedes como exemplo.

* O autor é jornalista há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

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