Correio de Carajás

Na pandemia, vivemos um Dia da Marmota em looping

Ulisses Pompeu

Ulisses Pompeu

Crônica Ouriço Cheio

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Mexia na estante digital em procura sabe-se lá de quê, quando parei numa foto da entrega do diploma de conclusão de curso da graduação de minha filha, em 2019. É uma imagem recente, reconheço a camisa que usava, a calça, o sapato. Tudo nela ainda se mantém fresco, como se tivesse ido até a esquina e voltado de lá há pouco.

O único senão é que pareço outra pessoa. Mais jovem, menos cabelo branco, mais sorridente, menos pesaroso do que hoje. Um duplo replicado em laboratório. Desconfiado, tento me convencer de que é o ângulo, a luz, o filtro, mas sei que não é. É o tempo mesmo. Aquele era outro mundo, outra vida.

Ninguém da família havia morrido até então. Nunca ouvira falar de Covid, tampouco de vacina ou de cloroquina. Haviam se passado apenas um ano de governo Bolsonaro. Sabia que teria dias difíceis, mas não assim, não como agora. Eis a diferença entre o eu de hoje e aquele.

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Menos de dois anos depois, tenho a sensação de que envelheci mais do que esses pouco mais de mil dias. Envelheci mais do que supunha que envelheceria, do que costumo envelhecer de um ano para o outro, mais do que os 50 anos completados em meio à quarentena fazem crer.

Diante do espelho, faço caretas e confirmo a teoria. Checo a raiz dos cabelos, inspeciono rugas, mapeio a fronte e o alto da cabeça cuja calvície começa a dar sinais hora a hora, quase em tempo real, o corpo se desfazendo aos poucos, a cada notícia lida.

Tateio os braços mais flácidos e a barriga mais protuberante, dou saltos para saber se as pernas ainda têm vigor. Sou o mesmo, mas numa versão desgastada, como se exposta por muito tempo ao sol e ao vento, ao poder corrosivo do cotidiano, uma grade da orla lambida pela ferrugem.

É uma das consequências da pandemia, digo a mim mesmo: os vivos maltratados e os mortos empilhados, tudo equivalendo-se em algum momento, à sensação de vivemos um Dia da Marmota em looping.

Para quem não sabe, o Dia da Marmota é uma tradição dos EUA e Canadá, o chamado “Groundhog Day”. A data em questão é 2 de fevereiro, quando se observa o comportamento de uma groundhog (marmota), um animal que sai da toca após seu período de hibernação para prever a chegada da primavera. Se o animal voltar para a toca, o inverno durará por mais tempo. Caso contrário, a primavera chegará mais depressa. A pandemia parece esse looping, em que a marmota retorna todos os dias para a toca.

Sinto um fastio enorme de estar neste tempo, habitá-lo assim, desarmado, acumulando traços de sua passagem, de não saber como proceder, de procurar e não encontrar. Uma fraqueza, como nos dias em que acordo e resisto a acordar, os dias em que toda energia se esvai muito antes do que decida gastá-la para o mais básico, para o corriqueiro das atividades, e mesmo escrever é instrumento falho para o tamanho da desgraça.

Mas escrevo, e até me alegro, mango de mim mesmo, mas esse estado de graça dura pouco, quase nada.

Como o computador arruinado, vivemos em estado permanente de “tela azul”, que é quando a máquina pifa de vez e suas funcionalidades (reparem na palavra) se danificam e tudo o mais entra em colapso. Para todo o restante é necessário empenhar grande esforço, canalizar uma concentração exagerada. A gente cansa antes mesmo de pensar em cansar.

O resultado é exaustão. Essa suspeita de que trocamos de corpo e somos um outro, como no filme de ficção científica, aquele dos anos 1970 em que uma entidade biologicamente extraterrestre inocula nas pessoas um vírus que as faz quase maquinal, destituída de empatia, afastadas do convívio ou, pior, irmanadas por um elo de morte.

Por isso retive essa foto de 2019 na tela do computador por mais tempo. Mas pretendo imprimi-la para deixá-la na sala, por onde passo sempre a caminho da cozinha e onde não há maneira de estar sem vê-la em algum momento do dia ou da noite.

* O autor é jornalista do CORREIO há 25 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

 

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