Aos dois anos e nove meses, Maria foi promovida a irmã mais velha no dia 15 de março de 2025. Era um sábado pela manhã, tempo abafado e o corre-corre natural do papai e da mamãe para garantir que a caçula chegasse de forma segura. Na dúvida cruel entre o hospital público e o privado, acabaram numa triagem do HMI e de lá Gabriela foi direto para a sala de cirurgia, num parto tranquilo.
Mas, na noite anterior, Mirela já anunciava que chegaria ao mundo com pernadas na barriga da mãe, gerando contrações que ficavam cada vez mais fortes.
A caçula nasceu com o som suave de uma melodia digital acompanhando seus primeiros suspiros. A canção não era um produto de músicos clássicos ou de uma banda tocando ao vivo. Era uma música de ninar criada por uma Inteligência Artificial.
Leia mais:Fui eu mesmo, o vovô da garota, quem encomendou a música ao Suno vinte dias antes de Mirela nascer. Dei um comando para a inteligência artificial, relatando o estilo de música que eu queria e o que a letra deveria enfocar. O resultado me surpreendeu e, também, aos pais, que são mais entrosados às IAs do que eu.
Essa é uma melodia que, embora impessoal e programada, já tinha algo de profundamente íntimo: ela era para ela, para Mirela, ainda antes de seu primeiro choro.
A tecnologia avança a passos largos e Mirela parece, desde o primeiro segundo, ser uma criança do futuro. Um futuro em que as máquinas não apenas realizam tarefas, mas também compartilham sentimentos, emoções, e até mesmo criam arte.
Breno e Gabriela podem até desfrutar de uma sensação de maravilhamento, mas ao mesmo tempo têm uma preocupação imensa. Como educar uma filha em um mundo onde as máquinas sabem mais do que nós? Como transmitir valores humanos, quando tudo ao redor parece cada vez mais moldado por algoritmos?
Desde o nascimento de Mirela, Breno e Gabriela tentam não ser apenas espectadores dessa revolução. Eles querem ser os guias dessa pequena que nasceu com tanto potencial, mas também com uma grande responsabilidade. As máquinas, com sua capacidade de aprender e de se adaptar, passarão a ser uma parte da educação de Mirela.
Os pais certamente vão buscar ensinar a filha a respeitar os limites, a ser empática, a valorizar a natureza e o contato humano, mas sabem que, em algum momento, ela terá acesso a informações de uma vastidão que eles jamais imaginaram na juventude.
O dilema de educar no século XXI não é apenas sobre o que ensinar, mas como ensinar. Mirela, por exemplo, já está sendo exposta à mesma IA que havia criado a sua música de ninar. Com menos de um mês de vida, ela já tem Instagram próprio, embora fechado para um grupo seleto de pessoas.
Mirela, em sua inocência, ainda não sabe o que é o mundo para além do lar familiar. Seus olhos abrem bem pouco ainda, suas mãos pequenas e ávidas não estão prontas para tocar, explorar, entender. Mas os iphones do pai, da mãe, o Mac que eles usam estão rodeando a garota na sala, no quarto e até a Alexia já responde aos comandos de voz para desligar as luzes em todos os ambientes do lar. No quarto, também, tem uma câmera que acompanha todos os pequenos movimentos da garotinha e cujas imagens estão disponíveis, ao vivo, nos celulares dos pais.
Mas ao lado de seu berço também estão os livros, brinquedos, as histórias contadas com pouca luz todas as noites pelo papai e pela mamãe. Breno e Gabriela sabem que Mirela precisará de tudo isso para crescer equilibrada, para não se perder entre algoritmos e códigos.
Esta é uma época de transição, em que os filhos podem nascer com músicas feitas por máquinas, mas precisam ser ensinados a cantar a melodia da vida real, a sentir o vento no rosto e o calor do abraço de um amigo.
Mirela terá acesso ao mundo em suas mãos, sim, mas Breno e Gabriela têm uma missão maior: ensinar-lhe que o mais valioso da vida não é o que você sabe, mas como você usa o que sabe para ser alguém melhor, para fazer o bem.
Enquanto a IA fazia sua música de ninar, o coração de Mirela batia no ritmo do futuro. E, junto a ela, Breno e Gabriela irão caminhar, tentando sempre lembrar que, por mais que as máquinas cantem, o melhor som sempre será o de uma conversa ao vivo, o de um carinho, o de um olhar.
E assim, enquanto a melodia digital embala seu sono, Mirela começa sua jornada, com o amor de seus pais como o alicerce mais forte, preparando-se para ser, quem sabe, uma criadora do futuro.
* O autor é jornalista do CORREIO há 29 anos (avô de Mirela) e publica crônica às quintas-feiras
Observação: Quem quiser acessar a música de Mirela criada pela Inteligência Artificial, basta acessar o link: https://suno.com/song/e2d68468-473d-4aa9-9575-67d24087de98
Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.