Correio de Carajás

Marli: A guardiã da porta e das gentilezas do CORREIO

Foto/Reprodução (Fernando Paiva)
Por: Ulisses Pompeu e Luciana Araújo

Na porta de qualquer redação há sempre alguém que segura o mundo por alguns segundos antes que ele entre. No Grupo Correio de Comunicação, durante 11 anos, essa pessoa foi Marli Pereira da Silva.

Quem chegava ao prédio era recebido primeiro por ela. Não importava se era um anunciante importante, um leitor curioso, um político apressado ou apenas alguém perdido procurando endereço. Marli era, sem exagero, o cartão de visita vivo de todos os veículos da casa. E fazia isso com uma gentileza tão natural que parecia não ser trabalho, mas vocação.

Seu sotaque era uma marca registrada. Uma mistura de timidez e convicção que tornava cada frase única. Nos corredores, surgia com perguntas inesperadas ou com um visitante na retaguarda. Antes de anunciar alguém da Redação, explicava o contexto, justificava a presença, quase defendia o visitante como quem apresenta um parente distante.

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Marli era uma alma diferente.

Morava sozinha, mas não era solitária. Ao contrário. Descobrimos agora que carregava consigo uma pequena lista com seis nomes de pessoas para quem se deveria ligar caso algo lhe acontecesse. Entre eles estava o do nosso colega de redação Patrick Roberto, que ficou emocionado ao saber que fazia parte de um grupo tão pequeno e tão escolhido.

E isso diz muito sobre quem ela era.

Também diz muito a forma como lidava com o dinheiro da venda de jornais. Quem já passou pela recepção viu a cena. Ela contava, recontava, alinhava as moedas. Se faltassem dez centavos, começava tudo de novo. Sem reclamação, sem pressa, como se a honestidade tivesse de ser conferida duas vezes.

Um dia me pediu um favor curioso. Queria que eu indicasse um livro. Disse que queria ler ficção para melhorar o vocabulário. Emprestei alguns. Isso faz mais de um ano. Nunca me devolveu. Mas também nunca deixou de comentar sobre eles.

Quando eu chegava para trabalhar, no final da tarde, ela aparecia com observações sobre personagens, sobre histórias, sobre frases que não tinha compreendido de primeira.

“Às vezes tenho que ler até quatro vezes para entender um trecho”, confessava, rindo.

Era o jeito dela de conversar com os livros.

Nosso último encontro foi na véspera de sua morte. Eu chegava para o trabalho por volta de 17h45 quando Marli me chamou, com uma urgência que não era comum nela.

Disse que precisava ir ao banheiro e pediu que eu ficasse na recepção por alguns minutos.

Foi a primeira vez que me pediu um favor daquele tipo.

Não demorou. Voltou logo, com aquele sorriso que parecia pedir desculpa por qualquer coisa, e perguntou se havia chegado alguém.

Respondi que apenas dois clientes para o setor comercial.

Então ela disse uma frase que agora não sai mais da minha cabeça. Parafraseando Renato Russo, comentou com a leveza de quem diz algo simples: “É preciso tratar bem as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque um dia não haverá amanhã mesmo”.

Naquele momento era apenas uma frase. Hoje é quase um testamento.

Marli partiu na terça-feira, dia 10 de março. Mas quem passou pela recepção do Correio nos últimos 11 anos sabe que ela deixou mais do que lembranças. Deixou um jeito de receber, um jeito de conversar, um jeito de tratar as pessoas.

E isso, felizmente, não depende do amanhã para continuar existindo.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.