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Elizangela Rodrigues da Silva não imaginava o que a esperava na semana em que saiu de
Marabá, no sudeste paraense, para visitar a filha em Goiânia, capital do Estado de Goiás, distante 1.421 km. Na tarde do último dia 22, segunda-feira, ela viveria uma das experiências mais aterrorizantes e ao mesmo tempo emocionantes da vida: ajudar trazer à luz uma criança.

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O episódio teve início ainda no dia 19, sexta-feira, quando Elizangela chegou na casa da filha e lá encontrou uma amiga desta, Jéssica Maira Rodrigues Cunha, na reta final da gravidez. O estado dela, entretanto, era incomum. A mulher sentia muitas dores e tinha tido recusada a internação em duas maternidades, várias vezes.

Antes da chegada de Elizangela na cidade, Jéssica havia procurado duas vezes o Hospital e Maternidade Dona Iris, do município, e várias outras vezes o Hospital Estadual e Maternidade Nossa Senhora de Lourdes.  “Ela estava sentindo dor, ia ao hospital e os médicos mandavam ela pra casa dizendo que não tinha dilatado o bastante, faltava centímetros. Ela estava sofrendo muito e aquilo estava me deixando mal, aquelas dores e aquele sofrimento”, comentou Elizangela.

Ela diz que acompanhou as dores de Jéssica durante quatro dias. “Percebi que o bebê estava querendo nascer, querendo sair já. Eu sentia que o bebê queria nascer urgentemente, estava com a barriga dura e não baixou. A maioria das grávidas a barriga baixa para o nascimento, o bebê estava em cima, na costela e ela reclamando de dor. Segurava na minha mão e orava pedindo ajuda. Não aguentava mais, estava fraca e sem força”, conta.

Socorristas chegaram após o bebê nascer

Evangélica, Elizangela foi ao culto na noite de domingo (21), quando diz ter orado para que a grávida parasse de sentir dores. “Nisso, ouvi Deus dizer que eu estava preparada e capacitada. Deus ouviu minha angústia, tristeza. O pastor saiu lá da frente e veio até em mim, colocou a mão na minha cabeça e disse que eu estava pronta e capacitada. Não entendi o motivo na hora”, afirma.

Elizangela diz ter voltado para casa e continuado a orar. “Fiz um chá de gengibre com canela porque minha mãe sempre teve os filhos de parto normal e em casa com a parteira. Ela falava de chás que aceleravam o nascimento do bebê. Fiz o chá porque lembrei disso e ela dilatou mais uns centímetros. Foi de novo no médico e mandaram ela para casa de novo. Diziam que não estava pronto e que o bebê não iria nascer, que faltava mais de semana, sempre a mesma conversa”, relata.

PARTO ÀS PRESSAS

Na segunda-feira pela manhã, dia 22, Jéssica já não conseguia mais comer e todo mundo na casa estava desesperado com a situação dela, que havia começado a vomitar pelas fortes dores. “Ela vomitava, deitava e levantava, inquieta, não comia. Ela estava pedindo ajuda, reclamando de sofrimento. Já nem queria mais ir ao hospital, reclamava, pediu pra eu fazer o parto dela, dizendo que ia nascer e que não ia aguentar chegar no hospital”.

Conforme Elizangela, a barriga da mãe estava bastante endurecida e o bebê se mexia muito. “Ele mexia como quem estivesse querendo sair à força. Ficou nesse sofrimento até 13 horas, nem terminamos o almoço quando ela disse que ia nascer”. Neste momento, conta, ela e uma estudante de curso técnico em enfermagem que também estava na casa começaram a se preparar para terem que agir, enquanto telefonavam para a ambulância.

“Corri, lavei as mãos, não tinha nem um álcool em casa para desinfetar as mãos, não tinha material nenhum, luva, nada. Corri e fiquei à frente dela, comecei a chorar. Pedi novamente à Deus para nos dar boa hora, bom parto, bom nascimento para aquela criança. Que desse forças à mãe porque ela estava parecendo muito anêmica, achei que fosse morrer. Coloquei a esperança em Deus porque só ele poderia salvar aquele momento”, disse.

A partir disso, as duas passaram a intercalar as ações enquanto Jéssica deitava-se no chão do quarto. “Fizemos o parto da nenê no chão do quarto porque ela não aguentava ficar na cama. Forramos com toalhas e falei pra ela que se o bebê estivesse saindo era pra ela abrir as pernas, se não poderia matar ele. Corri pra frente dela e a cabeça do nenê começou a aparecer, ele começou a nascer! Comecei a chorar. A moça que estava com nós começou a chorar, todo mundo nervoso. Vi a criança nascendo, corri pra pegar com as mãos, sem luva e sem nada”, conta.

Em seguida, ela e a estudante trocaram de lugar. Enquanto a colega segurava o bebê, Elizangela tentava acalmar a mãe, que continuava sentindo muitas dores. “Não sabíamos se a gente segurava a mão da mãe, se ligava para a ambulância, se segurava o bebê… enfim… fizemos este parto”, diz, mal acreditando no que a dupla foi capaz de fazer.

ALÍVIO E EMOÇÃO

Elizangela conta que quando a equipe médica chegou, a bebê, nomeada de Luísa Vitória, já havia sido enrolada em uma toalha e colocada em cima da mãe. As duas parteiras improvisadas apenas não tiveram coragem de cortar o cordão umbilical que unia mãe e filha.

“Não cortamos o cordão. Ela ainda ficou sentindo muita dor porque a placenta ficou dentro, continuou com muita dor. A gente fez o parto dela no chão do quarto e quando a equipe médica chegou eles fizeram os procedimentos do cordão e de limpeza”. Elizangela não controla as lágrimas quando fala do bebê que chegou ao mundo com ajuda dela.

“Uma menina linda, uma princesa, a coisa mais linda que eu já pude ver. O nascimento lindo e perfeito que Deus concedeu pra gente naquele momento. Foi muito especial, muito emocionante, nem consigo me segurar. Na hora todo mundo teve fé e firmeza”, diz, bastante emocionada.

Após o parto, a mãe foi levada em ambulância para o Hospital Estadual e Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, onde permaneceu internada por dois dias. A criança, após passar por avaliação médica e exames, também já teve alta, estando saudável.

POSICIONAMENTO

O Portal Correio de Carajás enviou e-mail à assessoria do Hospital Nossa Senhora de Lurdes, que encaminhou nota à Redação na noite desta quarta-feira (31). Em posicionamento, afirma que a paciente foi atendida no dia 20 de julho (sábado) pela equipe médica e multiprofissional da unidade, com queixas de dor. Após ser avaliada e medicada, foi orientada a voltar para casa e retornar à unidade no dia seguinte, domingo (21), para monitoramento do quadro clínico, visto que ainda não estava em trabalho de parto.

Na segunda-feira, dia 22, foi encaminhada ao hospital para receber todo o tratamento clínico pós-parto necessário, após o parto domiciliar. “A paciente recebeu alta médica no dia 24 de julho (quarta-feira), depois de apresentar boa evolução ao tratamento. Vale ressaltar que a conduta médica e multiprofissional à J.M.R.C. seguiu protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde (MS)”, diz a nota. A Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia informou ter solicitado informações à direção do Hospital Dona Iris, mas até a publicação dessa reportagem não retornou o pedido de posicionamento. (Luciana Marschall)

 

 

 

 

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