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A morte precoce de David Torres da Silva, de 39 anos, no último sábado (27), comoveu a cidade de Marabá, assim como reacendeu o debate acerca do uso de cerol em linhas de pipa ou, ainda, da linha chilena, um material ainda mais cortante e industrializado que é empregado na prática. David trafegava de motocicleta na Nova Marabá quando a viagem foi interrompida justamente por uma linha chilena, que quase o degolou e o levou à morte no Hospital Regional do Sudeste do Pará.

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Na brincadeira, o objetivo do uso deste tipo de linha é competir cortando a linha do adversário e ganhando a pipa deste. Fora dela, vidas são colocadas em risco e podem acabar em poucos minutos quando em contato com o material.

Quem faz o alerta é a cirurgiã vascular Tatiana Teixeira de Castro Carvalho, responsável pelo atendimento a David no Hospital Regional do Sudeste do Pará. “Essa linha é praticamente invisível e associada à velocidade do motociclista funciona como perfeita guilhotina, causando lesão grave dos vasos cervicais, da traqueia, via aérea superior, com alto risco de óbito”, afirmou em entrevista ao Portal Correio de Carajás, concedida na manhã desta quarta-feira (31).

MORTE EM 25% DOS CASOS

Conforme a médica, a estatística em relação ao número de casos desta natureza é falha porque os ferimentos são registrados como provenientes de arma branca, como os esfaqueamentos, por exemplo, não como derivados de acidentes com linhas de pipa.

“Nas ocorrências policiais, do Samu, dos Bombeiros, aparece como ferimento por arma branca, então não podemos saber a estatística do Brasil, mas segundo a Associação Brasileira dos Motociclistas isso gira em torno de 500 acidentes ao ano. Destes, 50% é grave e 25% é fatal. Essas lesões também acometem em quem manuseia a pipa, em geral crianças, com ferimentos em braços, corte de dedos, inclusive com amputações também”, explica.

Nos casos em que as vítimas sobrevivem, destaca, costuma haver sequelas graves. Tatiana Carvalho explica que a cirurgia de reconstrução de vasos e da traqueia é complicada. “Geralmente os pacientes saem com traqueostomia, aquele orifício para respirar. É uma recuperação demorada, as lesões infectam, então é um processo logo quando a gente consegue salvar a vida”, diz.

PRIMEIROS SOCORROS E PREVENÇÃO

O que leva à morte nestes casos é a perda intensa de sangue do paciente, então a profissional recomenda a quem se deparar com uma vítima nessas condições a sempre fazer a compressão no local do sangramento, além de acionar o socorro médico com urgência.

“Em todos os casos deve ser chamado o socorro médico com urgência, mas populares que estejam no local devem tentar estancar o sangramento, com uma camisa, um pano limpo, comprimindo até o socorro chegar”, ensina.

A médica ressalta que apenas o uso de capacete não protege o motociclista dos materiais cortantes. “A linha desliza por ele e acaba pegando justamente na região cervical. O ideal é instalar antena corta-pipa nas motos. Em Marabá eu soube que custa R$ 25 e ela tem um gancho no final que corta a linha, protegendo o motoqueiro. Essa é uma forma de proteção enquanto não há conscientização”.

ADULTOS DEVEM FISCALIZAR A BRINCADEIRA DOS PEQUENOS

O mês de julho, lembra, é o período em que mais são registrados ferimentos decorrentes de linhas cortantes, isso porque é período de férias escolas e também de ventos favoráveis à prática. “O principal a se fazer é a conscientização. A criança é inocente e não sabe que aquela pipa vai causar a morte de uma pessoa à distância, então os pais precisam fazer a fiscalização dessa brincadeira. O cerol mesmo é feito em casa, difícil de fiscalizar no comércio”, diz.

O cerol não deve ser utilizado em nenhuma circunstância, nem mesmo em campo aberto, como praias, por exemplo. Conforme a médica, ainda que haja a sensação de controle sobre aquele material, ele pode ferir alguém. “Não impede problemas se for soltar em locais desabitados porque quando a pipa é cortada acaba levada, junto da linha, para ambientes com motociclistas, ciclistas, pedestres, inclusive em rodovias”.

Por fim, a especialista dizer ser importante não demonizar a brincadeira, considerada saudável desde que observados os cuidados necessários. “Ninguém está demonizando a prática tanto como esporte como por lazer, principalmente numa geração em que nossas crianças e jovens estão tão ligados a aparelhos eletrônicos e internet, acho que é um hábito saudável. O problema é o uso de cerol e da linha chilena. Devemos lembrar, ainda, que acidentes não são apenas dessa natureza e que não se deve soltar em cima de lajes, onde há carros por risco de atropelamento, e próximo a fios elétricos”, finaliza. (Luciana Marschall)

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