Correio de Carajás

Marabá, redes e o silêncio que nós desaprendemos

Ando meio enfastiado. Meio cansado desse lamaçal que salta da tela do celular, das TVs por assinatura e desses canais abertos que parecem mais um lixão a céu aberto. É um desfile de juízo raso, de gente que não checa nada, não apura, não duvida, não consulta ninguém – e que não incorpora, nem de longe, o orixá da informação. Basta ver a manchete e pronto: vira verdade absoluta. Compartilha, comenta, vira especialista. E eu aqui, meio de saco cheio.

É um looping desesperador. Violência, escatologia, exibicionismo, grosseria. “Imagens fortes”, “gatilho”, “cuidado”. E a oferta é sempre de destroço: “mulher assaltada na esquina”, “motociclista arrastado”, “briga no bar da esquina da Folha tal”. Vira rotina, quase paisagem. Como se o noticiário tivesse montado barraca na beira do Tocantins para vender tragédia no varejo.

Aos poucos, inventaram para nós essa mentira de que nossa personalidade se constrói pelo dedo que desliza na tela. Como se fôssemos um catálogo de toques, curtidas e certezas. Há um gozo perverso nessa mania de ser levado pela maré do que está “bombando”. Somos todos “tendência”, dizem. E parece que, se você não sabe quem brigou, quem terminou, quem cancelou quem – você está fora do mundo.

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E, no meio disso, me pego perguntando: o que é vital nisso tudo? O que muda na vida de quem mora lá na Liberdade, no Amapá, no São Félix, na Morada Nova? O que alimenta o espírito nessa feira de futilidades que chamam de informação?

Perdoem-me, leitora, leitor. Às vezes também caio na vala comum. Fico igual àqueles que berram, agridem, ofendem, como se gritar resolvesse. O pior é a embalagem “jornalística”. Tudo parece sério, urgente, técnico. Mas por baixo é só farofa mal feita.

E, sim, estou nas redes. Instagram, WhatsApp, grupos de trabalho, plantões de jornal. Digo que é necessidade, que é comunicação, que é urgência. Mas desconfio: fico porque também sinto o prazer mórbido de olhar o abismo. Gosto de memes idiotas, assumo. Digo que é descanso, mas fico acordado além da conta, rolando a tela até não sobrar noite.

Vicio barato.

Fico vendo gatos geniais, cachorros filósofos, psicanalistas improvisados que ensinam em 30 segundos o que é o amor, como curar ansiedade, como viver sem culpa. Tudo pronto, mastigado, embalado. E nós, feito peixes, mordemos a isca.

Enquanto isso, a vida verdadeira, essa que dói, cheira, transpira, passa com a pressa da chuva na orla.

Talvez nos falte literatura. Nos falte o choque de ver Riobaldo tropeçando em Diadorim e, ali, desmontar preconceitos. O medo dele não é o corpo de Diadorim. O medo é o julgamento dos outros. Hoje chamaríamos “cancelamento”. Ontem chamávamos vergonha. O nome muda, o fio é o mesmo.

O que buscamos no outro, quase sempre, é o que não temos coragem de ver em nós.

Ailton Krenak grita poesia. Poema sem açúcar. Reclama da surdez do planeta, da nossa mania de acreditar que tudo aguenta, tudo suporta. E, às vezes, penso na nossa Floresta do Aeroporto, esse último fiapo de respiro, olhando para nós com um certo cansaço. Como quem diz: “se continuar assim, eu desisto de vocês”.

Não é metáfora. É aviso.

O que me assusta não é o lixo das redes. Sempre houve lixo. O que assusta é nossa disposição em morar dentro dele. Em transformar a lama em rotina confortável. Em aceitar como normal que a vida seja apenas tela.

E, aqui em Marabá, onde rio e gente se cruzam todos os dias, talvez fosse hora de erguer menos o celular e mais o olho. Olhar o vizinho, a sombra da castanheira, a banca da feira, o barco no porto, o menino correndo com chinelo na mão. Há mais verdade nessa cena do que em dez mil “trends”.

Talvez seja só isso: aprender a sair um pouco da enxurrada e, quem sabe, reaprender o milagre simples de existir, fora do brilho falso da tela.

 

* O autor é jornalista há 29 anos e publica crônica às quintas-feiras

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.