Correio de Carajás

Líderes religiosos de Marabá discutem intolerância e lamentam “preconceitos”

Não tolerar a opinião ou a prática religiosa que difere da sua; ter atitudes preconceituosas e violentas; e discriminar e perseguir praticantes de determinadas crenças é crime previsto em lei desde 1997. O Portal Correio de Carajás conversou com cinco líderes de diferentes segmentos religiosos para falar sobre fé e crença.

Hoje, 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. São considerados atos intolerantes as ofensas por conta da religião ou contra liturgias, cultos e crenças. A intolerância religiosa está marcada na humanidade, principalmente no passado, quando era comum a realização de pactos entre as religiões e os governos.

Segundo a História, a religião era uma forma de demarcar o poder político e controlar a população, como no período em que os cristãos foram perseguidos e criminalizados no Império Romano.

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Infelizmente, a intolerância religiosa ainda é uma realidade que assola comunidades em todo o mundo. No Brasil, o preconceito existe de uma forma mais exacerbada contra adeptos das religiões de matriz africana.

Além das agressões físicas e verbais, são considerados atos intolerantes: a profanação pública de símbolos religiosos, com o objetivo de afetar as pessoas; destruição de locais de culto; recusa à prestação de serviços nesses locais; e a restrição ao acesso a locais públicos por conta de fatores religiosos.

Com o objetivo de quebrar tabus e diminuir preconceitos, o Portal Correio de Carajás conversou nos últimos dias com cinco líderes de diferentes segmentos religiosos, afim de esclarecer dúvidas e atenuar os índices da intolerância que se faz presente até em piadas que tentam desqualificar uma crença. E é através da informação e do reconhecimento de que todas as formas de fé são válidas e devem ser valorizadas que buscamos abordar o assunto de forma imparcial.

ESPIRITISMO

 

Com surgimento na França, em meados do século XIX, a partir dos estudos e observações feitas pelo educador Hippolyte Léon Denizard Rivail, conhecido como Allan Kardec, o Espiritismo é considerado uma doutrina religiosa de cunho filosófico e científico.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil cerca de 30 milhões de pessoas são simpatizantes da doutrina. “Nós acreditamos em Deus. Ele é a inteligência suprema. Evitamos ter a ideia de ter Deus como um ser humano, aquele homem de barbas brancas. Ele é a causa primária de todas as coisas. E Jesus é o modelo e guia que nós temos. É o espírito mais perfeito que já pisou na Terra. Se temos um modelo a seguir, é Jesus”, diz Edleia Ferreira, espírita há quase 30 anos e coordenadora de grupo de estudo na Sociedade Espírita Casa do Caminho, localizada em Marabá.

A Doutrina Espírita conta com um conjunto de obras básicas escritas por Allan Kardec, composta por cinco livros: O Livro dos Espíritos; O Livros dos Médiuns; O Evangelho segundo o Espiritismo; O Céu e o Inferno; A Gênese.

Um dos grandes questionamentos é sobre a comunicação com os espíritos. Edleia Ferreira conta que existe um estudo para que isso seja feito de forma responsável. “É um trabalho que exige caridade e ética. Essas pessoas que ‘falam com os espíritos’ são os médiuns, que são intermediários entre os dois mundos”, explica, afirmando que todos são médiuns, independente da religião.

Edleia Ferreira

Questionada sobre o funcionamento de um Centro Espírita, a frequentadora conta que cada casa detém o poder de organizar como serão os estudos. Sem um representante, como a figura do Padre ou Pastor, no Espiritismo não existe uma pessoa apenas. “Temos o movimento espírita. Então, nossos estudos são reflexões acerca dos livros básicos. Existe um facilitador que é responsável por direcionar o estudo. Não temos rituais”.

Sem restrições ou proibições de qualquer natureza, no Espiritismo não há batismo. “A responsabilidade pelos atos é de cada um. Não temos condições morais de julgar o que você vive ou o que você sente. Pra mim, o Espiritismo não é uma religião, é uma filosofia de vida”, explica Edleia.

Além da Casa do Caminho, localizada no Bairro Nova Marabá, em Marabá existem outros Centros Espíritas: Casa Renascer, Lar Seu Jota e Lar de Eurípedes.

 

IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA

 

O movimento adventista iniciou em meados de 1844, mas somente em 1863 foi efetivada e criada a Igreja Adventista do Sétimo Dia, que tem a proposta de apresentar “As Três Mensagens Angélicas”.

Os estudos da Bíblia Sagrada baseiam-se nos livros de Gênesis e Apocalipse. “Não fazemos diferença em relação ao Novo e ao Antigo Testamento. Na nossa opinião, nós cremos que os dois são inspirados e válidos para os nossos dias”, contemporiza José Lucas Santos Pereira, pastor da área Ação Solidária Adventista, Lar e Família e Escola Sabatina.

Há oito anos trabalhando como pastor, José Lucas foi batizado aos 11 de idade, após amigos oferecem estudo bíblico para sua família.

José Lucas

Questionado sobre as crenças da Igreja Adventista, o pastor cita alguns exemplos, como os 10 mandamentos. “Cremos nos 10 mandamentos. Outra distinção que possuímos em relação a outros segmentos religiosos é a dieta alimentar. Desde o Éden, Deus deu uma dieta alimentar à raça humana, e essa dieta era apenas de produtos naturais. Após o dilúvio é que foi autorizado comer carne de animais limpos. No povo de Deus sempre houve essa distinção de carnes limpas e imundas”.

Dentre as nítidas diferenças entre os adventistas e outros protestantes, está a guarda do sábado e a dieta alimentar. “Em Gênesis, o dia é composto de duas partes: tarde e manhã. A palavra tarde na Bíblia representa a parte escura, e a palavra manhã, representa a parte clara. Entendemos que o sábado começa de um pôr do sol ao outro”, ressalta José Lucas, citando o trecho “lembra-te do dia de sábado para o santificar”.

Ele explica que os trabalhos corriqueiros, feitos durante a semana, devem ser paralisados, e que o sábado deve ser devotado para as coisas religiosas, como ir à igreja, visitar pessoas, auxiliar desabrigados, por exemplo. “A guarda do sábado aparentemente é algo passivo. Mas na Bíblia é ativo. Era o dia que Jesus mais andava. A guarda do sábado é apenas um reconhecimento de quem já adora Deus durante a semana”.

Além de acreditarem em Jesus como único salvador, os adventistas do sétimo dia não creem na imortalidade da alma. “Não cremos que o homem quando morre vai direto para o céu, se ele for bom, ou para um lugar de sofrimento se ele for mal. Nós cremos que a pessoa fica descansando no pó da terra, e um dia cada pessoa vai ressuscitar e receber sua recompensa”, ensina.

Sobre preconceitos vividos, o pastor afirma que no passado era de uma forma mais exacerbada. Contudo, com a Igreja se apresentado mais diante da sociedade, como a TV Novo Tempo, as pessoas passaram a conhecer e diminuir o preconceito. “Nós sentimos alguns preconceitos em sala de aula, por exemplo, com alunos nas escolas e universidades”, comenta.

Ao finalizar, José Lucas ressalta que todas as igrejas contribuem diretamente para a sociedade, e o fato de existirem divergências na interpretação da Bíblia não muda isso. “A Igreja Adventista do Sétimo Dia é completamente contra a intolerância religiosa, não apenas a nós, mas a qualquer grupo religioso. Nós levantamos a bandeira da liberdade religiosa”, conclui, enfatizando que em Marabá existem 80 templos adventistas.

 

 

UMBANDA

 

Resultante da mistura de religiões de matriz africana, Catolicismo e Espiritismo, a Umbanda é uma religião totalmente brasileira. Ela nasceu em uma casa espírita no dia 15 de novembro de 1908, em Niterói (RJ), através do médium Zélio Fernandino de Morais, que incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

“A umbanda é a força espiritual dos seres, guias e caboclos espirituais em prol da caridade. Essa é a maior definição da umbanda: caridade”, diz José Ribamar da Luz Júnior, 51 anos, conhecido como Pai Júnior de Ogum.

Nascido em um terreiro de umbanda, Júnior é Pai de Santo há mais de 34 anos. Ele relembra que sua mãe era Mãe de Santo e que desde pequeno acompanhava os pais nos trabalhos.

“Nosso terreiro é a nossa igreja. A umbanda é como qualquer outra religião, as pessoas vêm em busca de paz espiritual e de tranquilidade, e o Pai de Santo é o sacerdote que vai acompanhar e conduzir nesses preceitos”, explica.

Zélio Fernandino de Morais

Pai Júnior, como é chamado, explica que Cristo é sincretizado como Oxalá, transformado na força espiritual. “Nós somos cristãos. Existe um tabu que o umbandista é do demônio. A umbanda é cristianismo, mas com uma referência diferente. A gente trabalha com espíritos desencarnados, acreditamos em vida após a morte. Pra nós, a morte é só uma passagem, um portal que vai tirar a gente de uma dimensão e vai levar para outra”.

De acordo com o Pai de Santo, no terreiro, a Bíblia é utilizada e os 10 mandamentos da Lei de Deus são seguidos. “Nosso maior mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas. A umbanda é paz e amor”, diz.

Com o alto índice de preconceito e intolerância religiosa em relação à umbanda, ele explica que isso se deve à falta de conhecimento. “As pessoas falam que é coisa do Satanás ou do Diabo. Dentro da nossa casa essa palavra não é nem usada. Aqui a gente abre com a palavra Deus e fecha com a palavra Deus. Deus está sobre todas as nossas ações”, afirma.

Para ele, uma das principais causas do preconceito é Exu, que é tido como ‘coisa ruim’. “Isso é um mito. Ele é um mensageiro, um protetor. O Exu dentro do terreiro e trabalhando com seu médium só faz o bem. Agora as pessoas de coração maldoso, que aprenderam a manipular a força de Exu, podem fazer o mal. Exu é o reflexo de quem o está buscando”, garante Pai Júnior.

Ao finalizar, o Pai de Santo afirma que Jesus Cristo – ou Oxalá – foi exemplo, durante o pequeno espaço de tempo que passou na Terra, de amor, paz e humildade. “Que a humanidade e as religiões se encontrem e se unam na paz de Cristo”.

 

 

BUDISMO

 

Surgida na Índia, no século VI a.C, a doutrina budista, de cunho filosófico e espiritual, está ligada a uma busca individual para desapegar defeitos como raiva, ciúme e inveja, desenvolvendo qualidade como o amor, generosidade e sabedoria.

A religião está entre as 10 maiores do mundo, com milhões de adeptos no Oriente e Ocidente. Uma das maiores características é que não se adora um deus ou deuses, e nem possui uma rígida hierarquia religiosa. “A gente acredita numa energia e não em um ser criado. Nós somos partícula desse universo. Se for analisar a palavra Deus, no centro existe eu. A lei que rege o universo rege também a minha vida e a de qualquer pessoa”, fala Sueli dos Santos Medeiros, 52 anos, praticante do budismo desde os 7 anos de idade.

Sueli dos Santos Medeiros

Ela conta que o budismo é uma prática diária, e que a única forma de atingir o estado de Buda – equilíbrio – é citando o mantra diário.

De acordo com as crenças da religião, toda pessoa tem dez estados de vida: inferno, fome, animalidade, ira, tranquilidade, alegria, absorção, erudição, bodhisattva e buda. “Nós, seres humanos, vivemos nesses estados o tempo inteiro. É preciso cuidar do lado espiritual. Não separamos o meio ambiente da pessoa. O meio ambiente é reflexo da sua condição de vida, e a gente acredita nisso. No local de trabalho, por exemplo, tem uma pessoa que implica direto com a gente. Então, alguma relação temos com aquela pessoa, e é através da prática do budismo que a gente consegue lidar com o problema, criando até uma relação harmoniosa com ela”, explica.

Sueli detalha que no budismo a Lei de Causa e Efeito é muito rigorosa. Acredita-se que as ações do presente são responsáveis pelo futuro. “É lei, não tem como fugir. O retorno sempre vem. O budismo é uma religião que não me limita e não me proíbe de nada”, conclui.

 

IGREJA CATÓLICA

 

Constituída por congregações e dioceses, a Igreja Católica foi fundada de acordo com os ensinamentos de Jesus Cristo e tem o apóstolo Pedro como destaque, pois foi através dele que ela começou a ser edificada.

Para os católicos, o Papa, bispo de Roma que reside no Vaticano, é o representante visível de Cristo na Terra, tido como sucessor do chefe dos apóstolos e detentor da suprema autoridade hierárquica da Igreja. Com mais de 5 mil bispos e 400 mil sacerdotes, estima-se que exista mais de 1,2 bilhões de católicos no Planeta.

“O catolicismo procura realizar neste mundo a palavra de Jesus, anunciando o reino de Deus, estando junto aos pobres, como Cristo fez, anunciando o evangelho”, enfatiza Dom Vital Corbellini, 62 anos, bispo da Diocese de Marabá.

Dom Vital Corbellini

Há mais de 10 anos no município, ele conta que desde criança sempre quis ser padre. “Minha mãe sempre disse que foi uma das primeiras coisas que falei”, relembra.

Dom Vital explica que cada igreja possui um bispo com seus sacerdotes, religiosos e religiosas, pastorais e todo o povo de Deus que se congrega.  Para os católicos, os 7 sacramentos – batismo, confirmação, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio – instituídos por Cristo, dão à vida de fé dos cristãos origem e crescimento, cura e missão.

“O batismo é a porta de entrada dos sacramentos. Ele nos introduz para a vida comunitária e para os compromissos de viver hoje. Ao ser batizado nós fazemos parte da família dos filhos de Deus para atuar bem no mundo e ser uma pessoa de bem. Também acreditamos na presença de Maria como mãe do filho de Deus. Temos diversos dogmas marianos e também acreditamos nos santos e santas como intercessores. Nós não adoramos imagens, como dizem. Nós, olhamos a imagem de Maria, por exemplo, é só pra chegar mais perto do filho de Deus. Também incentivamos as pessoas para o bem e para a fraternidade”, detalha Dom Vital.

Questionado sobre as proibições da Igreja Católica, o diocesano explica que a igreja é a favor da vida. Desta forma, a eutanásia e o aborto, estão entre as proibições. “Deus é vida. Ele nos dar a vida. Tudo aquilo que vai contra a vida, a igreja não tolera”, finaliza.

 

(Ana Mangas)