Correio de Carajás

Líderes LGBTI evocam história do movimento

Líderes LGBTI evocam história do movimento
Noé Lima, Nil Nascimento e Beto Paz vieram à Redação enfatizar a luta LGBTI ao longo da história
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Na tarde desta segunda-feira, 16, Noé Lima, líder do Grupo Atitude, acompanhado de Beto Paes, coordenador estadual da Aliança Nacional LGBTI e Nil Nascimento, líder do movimento em Tucuruí, estiveram na Redação do CORREIO para discorrer sobre as conquistas históricas do movimento LGBTI no Estado e nos dois municípios do sudeste paraense.

Noé foi o primeiro a falar e recordou que não foi fácil o início do movimento, em 2008, quando um grupo pequeno se dispõe a encarar os desafios e dizer “sou cidadão e sou LGBT. Então, no começo, a sociedade não sabia bem o que era essa sopinha de letras e fomos construindo dentro do município uma discussão com participação do Ministério Público Estadual, da Defensoria Pública e de várias secretarias do Estado”.

Recorda que o movimento LGBT em Marabá surgiu em 6 de abril de 2008, quando foi realizada para a primeira conferência municipal, sendo eleita Letícia Werneck como delegada para representar o município na 1ª Conferência Estadual LGBT, realizada entre 10 a 13 de abril de 2008em Belém. “Em seguida, foi fundado o Grupo Atitude LGBT, e de lá para cá viemos militando e realizando as ações sociais voltadas à comunidade LGBT. Realizamos a 1ª Parada até chegar na 11ª edição, este ano”.

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Na avaliação de Noé, o fator mais relevante em 11 anos do movimento foi a fundação do Movimento LGBT do Estado do Pará, e logo em seguida o Ministério Público passou a promover ações para essa comunidade, dentro da Promotoria de Direitos Humanos. “Realizamos nossa primeira conferência, que é algo histórico na cidade. Sofremos muito no primeiro momento, houve retaliação política dentro da Câmara Municipal na época, que alegou que o espaço da CMM não comportava toda a comunidade para discutir essas politicas públicas. Assim, percebemos o fundamentalismo impregnado nos órgãos públicos”.

Por conta disso, recorda Noé, o evento foi levado para a UFPA (hoje Unifesspa), onde também realizaram o espaço para a primeira noite cultural. “Somos o primeiro movimento da região Carajás a realizar uma festa voltada para a comunidade LGBT dentro de um espaço público federal, que arrecadou mais de mil latas de leite Ninho e doamos para o CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento). Há toda uma ação voltada, desde o início, para a saúde, em parceria com a Secretaria de Saúde. Avançamos em muitos aspectos”, contemporizou, observando que a Parada LGBTI nunca foi um momento de festa e que não perde o seu caráter politico.

Beto Paes ,que também é coordenador regional da Região Norte da Rede Gay Brasil, e ainda conselheiro estadual da diversidade, avalia que o momento político atual é muito difícil no País, onde há uma onda conservadora fortalecida pelo governo federal, que não reconhece a cidadania da população LGBTI. “No estado conseguimos realizar o primeiro encontro estadual LGBT, que o Noé Lima esteve presente com o Grupo Atitude, pois nessa época, depois da conferência, vários grupos se consolidaram no Estado do Pará. Tivemos capacidade e conhecimento de construir um arcabouço de políticas públicas que orientaria todo trabalho desenvolvido no Estado do Pará e nos outros estados do Brasil”, rememora.

Beto reafirma que essa luta não veio de ontem e começou há 30 anos no Brasil e há pouco mais de 20 anos no Pará. Então essa luta deu origem a muitas conquistas de cidadania da população LGBTI. “A filósofa Hanna Arendt diz que não podemos esquecer o que aconteceu no Holocausto, então a luta deve ser também pela memória contra o esquecimento. O que o movimento construiu até hoje não é algo que surgiu da noite para o dia. Foi graças à luta de vários militantes históricos, que deram a cara à tapa, onde algumas dessas pessoas pagaram com a própria vida o preço da conquista dessa cidadania”.

Em Marabá, Beto Paes elenca nomes como Noé Lima, Letícia Werneck e o falecido Sandrinho como nomes que atuaram na formação do movimento, mas ao mesmo tempo diz que as novas lideranças que estão surgindo por aqui são muito bem vindas. “Porém, é preciso ter esse olhar para a história e poder compreender, e não ficar com um discurso evasivo sem compreender a história que gerou para chegar até aqui”.

Por fim, Beto diz que a Parada LGBT já faz parte do calendário dos municípios e nela queremos ter a chance de manifestar para a sociedade que nós estamos aqui e queremos ter direito ao amor, à dignidade, à educação, ao mercado de trabalho, sem ter o medo de sair de casa e não retornar devido à violência que pode chegar em você até em uma parada de ônibus”.

Nil Nascimento disse que, mesmo sendo da Região do Lago, em Tucuruí, veio a Marabá participar da Parada LGBTI para fortalecer ainda mais o movimento, principalmente o estadual, junto com o Atitude LGBT. “É importantíssimo esse elo de parceria. Precisamos um do outro e nos fortalecemos mutuamente. O processo de construção realmente não se limita só a realizar eventos, como uma Parada, mas perpassa por todo um sistema como educação, assistência social, saúde, políticas públicas voltadas à realidade da diversidade sexual, onde principalmente está o nosso recorte, que é o LGBT+. Esse galgar realmente é lento, já em alguns municípios o processo de apoio é mais rápido. A população chega a respeitar melhor em alguns locais e em outros menos”.

Por fim, Noé Lima recordou que houve uma edição do encontro estadual LGBT em Marabá em 2010 e que tudo começou por aqui com palestras e oficinas dentro do espaço universitário, como também fora dos muros da universidade. “Levamos esses projetos, as políticas de prevenção às DST/HIV/AIDS, em parceria Com o SAE/CTA Marabá ao longo desses anos, além das mostras de filmes culturais gratuitamente. Então, pergunto o que essa nova militância revolucionou nesse período de dois anos? Porque se foi realizar as ações voltadas à semana da Parada LGBT que culminam com a marcha, com as idas aos pontos de prostituição, foram coisas que iniciamos no passado. Realizamos a primeira Queimada Gay no ginásio da Folha 16, contribuímos com o trabalho da polícia. Hoje é muito fácil pegar o barco andando. Então, se a Câmara Municipal destina uma emenda parlamentar ao movimento, é porque reconhece toda a nossa luta”, pondera.

(Ulisses Pompeu)

Atualizada às 14h44

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