Correio de Carajás

Justiça dos EUA suspende execução de mulher no Tennessee na última hora

Christa Gail Pike, com 36 anos, aparece nesta foto de registro do Departamento de Correções do Tennessee de 2004, obtida pela Reuters em 22 de março de 2012 Imagem: Reuters

Um tribunal federal de apelações dos Estados Unidos suspendeu hoje a execução de Christa Gail Pike, 50, cerca de uma hora antes de ela receber uma injeção letal no Tennessee. Se a pena tivesse sido cumprida, ela seria a primeira mulher executada pelo estado em pelo menos 200 anos.

A decisão foi tomada quando testemunhas da execução já estavam reunidas na Penitenciária de Segurança Máxima Riverbend, em Nashville. O procedimento estava marcado para as 10h no horário local (12h, no horário de Brasília). As informações foram publicadas pela agência de notícias Associated Press.

Justiça interrompeu a execução enquanto analisa alegações da defesa da mulher. Os advogados sustentam que ela sofreu graves abusos sexuais e violência durante a infância foram devidamente consideradas quando ela recebeu a pena de morte. Ainda não estava claro, logo após a decisão, se a Procuradoria-Geral do Tennessee recorreria, nem por quanto tempo a execução permaneceria suspensa.

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Os interesses da Justiça e a iminência da execução de Pike exigem a concessão de uma breve suspensão da execução para que as partes possam analisar adequadamente seus argumentos e resolver as questões em seu mérito.
Tribunal federal de apelações dos EUA

Antes de saber da suspensão, Pike escreveu uma carta à NBC News, compartilhada por seu conselheiro espiritual: “Se meu indulto for concedido ou não, estou em paz”. “Não tenho medo de morrer”, escreveu a mulher, que está no corredor da morte há mais de três décadas. “Só estou nervosa com o processo.”

Se a execução ocorrer, será a primeira de uma mulher no Tennessee desde 1820. O caso se soma a outras execuções recentes de mulheres nos EUA, como a de Lisa Montgomery, realizada pelo governo federal em 2021, e a de Amber McLaughlin, no Missouri, em 2023.

Defesa tentou impedir execução

A suspensão ocorreu um dia depois de a Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitar um pedido da defesa para impedir a execução. O governador do Tennessee, Bill Lee, também havia negado na segunda-feira (28) um pedido de clemência apresentado pelos advogados de Pike. “Após considerar cuidadosamente o pedido de clemência de Christa Gail Pike e após uma revisão completa do caso, estou mantendo a sentença do Estado do Tennessee e não pretendo intervir”, afirmou o governador em comunicado oficial.

A defesa tenta substituir a pena de morte por prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Os advogados argumentam que Pike tinha apenas 18 anos na época do crime e que seu histórico de abusos, problemas de saúde mental e traumas deveria ter recebido maior peso durante o processo que resultou na condenação.

Pike foi condenada por matar a colega Colleen Slemmer, 19 em Knoxville, em 1995, quando tinha 18 anos. O crime ganhou repercussão pela brutalidade e porque, segundo o relato do caso, um símbolo satânico foi gravado no corpo da vítima. Ela decidiu matar Colleen Slemmer depois de se convencer de que a jovem estava tentando roubar seu namorado, Tadaryl Shipp. O rapaz e Shadolla Peterson, uma outra amiga de Pike, também participaram do crime.

Condenada por homicídio em primeiro grau em 1996, Pike se tornou a mulher mais jovem a entrar no corredor da morte na história moderna dos EUA. A defesa afirmou que a jovem descrita no processo não é a mesma pessoa de hoje: “A garota de 18 anos que sofria de doença mental grave e trauma quase debilitante não existe mais. Christa é uma mulher de 50 anos, arrependida, que entende suas ações, recebe tratamento adequado para sua doença mental e ajuda e orienta outras mulheres presas”.

Em petição de clemência, Pike disse que levou anos para entender o impacto do que fez. “Eu era uma criança de 18 anos com doença mental. Levei muitos anos até perceber a gravidade do que eu tinha feito. Mais ainda para aceitar quantas vidas eu afetei. Eu tirei a vida do filha, da irmã, da amiga de alguém. Hoje me dá nojo pensar que eu tinha capacidade de cometer um crime assim”, escreveu.

Condenada à morte em março de 1996

Christa Pike, Tadaryl Shipp e Shadolla Peterson à época do crime
Christa Pike, Tadaryl Shipp e Shadolla Peterson à época do crime

Pike foi condenada à morte em março de 1996. Já os outros dois coautores do crime não receberam a mesma sentença. Shipp, com 17 anos na época, foi condenado à prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional —ele pode ser liberado em 2028. Peterson, por sua vez, se declarou culpada de ser cúmplice do crime após ter servido como vigia durante o assassinato. Ela recebeu uma sentença de liberdade condicional de seis anos por seu papel.

Um defensor público federal afirmou que Pike sofreu abuso sexual desde a primeira infância e foi estuprada aos 11 e aos 17 anos. Ele disse que os advogados que atuaram na fase de definição da pena não apresentaram ao júri informações que considera essenciais sobre o passado dela nem defenderam que a idade deveria pesar na decisão.

Após a condenação, Pike foi diagnosticada com transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático. Grupos de direitos civis, como a ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) e a Anistia Internacional, pediram que a população pressionasse o gabinete do governador para retirar Pike do corredor da morte.

A defesa também argumentou que hoje há mais conhecimento sobre o desenvolvimento do cérebro na adolescência. Os defensores dizem ainda que a pena de morte no caso é um ponto fora da curva.

Quem era a vítima

Colleen Slemmer foi atraída a uma área afastada do campus agrícola da Universidade do Tennessee sob o pretexto de "fazer as pazes"
Colleen Slemmer foi atraída a uma área afastada do campus agrícola da Universidade do Tennessee sob o pretexto de “fazer as pazes”

May Martinez, mãe de Colleen Slemmer, disse à Associated Press que a filha fazia trabalho voluntário nas Olimpíadas Especiais e gostava de patinação. “Ela era tranquila. Era meio nerd de computador desde o começo. Ela e meu marido montavam e desmontavam computadores o tempo todo”, relatou.

Martinez afirmou que a confiança da filha acabou pesando contra ela. “Ela confiava em todo mundo, e essa foi a ruína dela”, disse.

(Fonte: UOL)