Correio de Carajás

Jovem marabaense transforma a vivência trans em manifesto visual

Jovem artista de Marabá, Jean Xavier, usa suas telas para ilustrar batalhas diárias por direitos e documentar a trajetória trans, inspirando a juventude.

Pessoa sorridente de camisa xadrez em frente a uma parede decorada com arte contemporânea e referências visuais.
Jean Xavier: “Meu trabalho questiona o que foi perdido por não termos representatividade trans na arte”
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 15/04/2026 14h43

Para celebrar o Dia Mundial da Arte, neste 15 de abril, o Correio de Carajás faz um convite à reflexão sobre quem tem o direito de ser eternizado pela história. Para Jean Xavier de Oliveira, de 22 anos, a produção artística é a principal ferramenta para documentar a trajetória da população trans na memória universal.

Estudante de Artes Visuais na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Jean é filho de Marabá e usa suas telas para ilustrar as batalhas diárias por direitos básicos, acesso à saúde e reconhecimento social. Através de uma obra de intervenção artística, ele usou grandes pinturas universais para questionar a ausência de representatividade de pessoas transgênero nos movimentos artísticos.

A Certidão de Nascimento retificada é a documentação da existência de Jean

É por isso que podemos enxergar o trabalho de Jean como uma revisão crítica da história da arte, provocando o público a refletir sobre o apagamento de sua comunidade.

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“Eu como artista visual, nunca vi um artista sequer que fosse trans dentro da história. Por isso meu trabalho faz esse resgate e questiona o que foi perdido por não termos essa representatividade”.

É essa indignação que alimenta as obras criadas para a exposição chamada ‘Transcendendo tempo e corpo’, sua pesquisa acadêmica e produção visual.

“Por que que a gente não tem a representatividade que a gente merece, sendo que a gente pode produzir obras como essas?”, indaga o estudante.

RECONSTRUÇÃO PESSOAL

A narrativa construída no portfólio de Jean Xavier descreve a transição de gênero como um processo que se inicia no conflito e culmina na reconstrução pessoal. O jovem artista utiliza a figura de anjos sem genitálias definidas para ilustrar essa jornada.

Jean explora grandes obras para indagar a ausência de nomes trans na arte universal

O primeiro estágio é representado por um anjo em queda, cercado por pilares ruindo que simbolizam as perdas iniciais nas esferas amorosa, familiar e profissional.

“Nesse momento que a gente começa a transição, passamos por um momento de guerra. Nesse processo a gente meio que perde as coisas que tínhamos. E aí nos reconstruímos com o tempo”, explica.

O estágio final da trajetória, focado na glória e no recomeço, é um anjo formado e posicionado na altura dos olhos do observador. A concepção de Jean expressa que o anjo não está acima ou abaixo, mas no mesmo nível. Ele explica que essa representação mostra que as pessoas trans são iguais a todas as outras.

A vivência retratada por Jean transcende ao extrapolar o simbolismo e adentrar a burocracia do Estado. O artista reproduz visualmente sua própria certidão de nascimento retificada, documento que ele levou mais de um ano para conseguir por meio da Defensoria Pública devido à falta de recursos financeiros.

“É a obra mais importante, porque para mim ela é um marco histórico de toda pessoa trans, que é conseguir ser reconhecida não só para ela mesma, mas diante do Estado”, afirma.

A mudança documental alterou sua interação com a sociedade: “Mudou muito na minha vida a partir do momento que eu consegui trocar meus documentos. As pessoas passaram a me olhar de forma diferente”, desabafa.

Ele projeta na arte a esperança de um futuro mais acolhedor para a juventude

VIDA DE LUTA

O acesso à saúde é outro obstáculo frequente documentado por Jean Xavier. O artista iniciou o processo para conseguir testosterona pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em janeiro de 2024 e apenas em agosto de 2025 obteve a medicação.

“É uma luta constante que você tem que tá sempre correndo atrás, você praticamente tem que implorar para poder ser reconhecido como a pessoa que você é”, lamenta.

A invisibilidade de sua existência também tem raízes em sua realidade periférica em Marabá, vivência essa que compõe o cenário de suas criações. Criado no Vale do Itacaiúnas, uma área de invasão no núcleo Cidade Nova, o artista cresceu convivendo com ruas sem asfalto, enchentes e esgoto a céu aberto.

Em seus trabalhos, Jean contrapõe a negligência estrutural de seu bairro na infância com o estado impecável das fachadas das igrejas locais, criticando a hipocrisia de instituições religiosas diante da vulnerabilidade social e da violência fatal contra pessoas trans.

“A igreja passa um modelo para a gente de acolhimento, de afeto e tudo mais, mas nesses momentos ela não está ali para acolher. Se dessem mais amor e mais afeto como é dito pela igreja, como é dito por Jesus, talvez a gente conseguisse devolver isso de uma forma mais significativa dentro da sociedade”.

Mas, apesar do cenário de vulnerabilidade, o portfólio do artista faz questão de registrar a normalidade e o afeto. Suas imagens detalham o cotidiano de casais formados por pessoas trans, abordando a intimidade, os relacionamentos e a vida sexual.

Além disso, Jean projeta na arte a esperança de um futuro mais acolhedor para a juventude, materializada na imagem de uma professora trans lecionando.

Nesse sentido, a inspiração para sua coleção de obras surgiu durante o estágio em uma escola, quando um aluno não binário se sentiu seguro para falar sobre a própria identidade ao ver a presença autêntica de Jean no ambiente educacional.

“Fiquei muito emocionado em ver aquilo. Ele sentia uma abertura por ver uma figura adulta ali trabalhando dentro da escola, que é uma pessoa trans assumida, e que ele pode ter a liberdade de ser aquilo também”, conclui Jean, reforçando seu desejo de que a arte alcance e transforme cada vez mais alunos do Ensino Médio.