Correio de Carajás

Guseiras querem minério da Vale no mesmo preço da Cevital

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Ulisses Pompeu

As guseiras do Distrito Industrial de Marabá (DIM) estão se estrebuchando no túmulo. Querem ressuscitar e dinamizar a economia regional. Mas para isso, vão apelar, na próxima semana, ao governo do Estado, pedindo que faça lobby junto à Vale para que a mineradora venda minério de ferro a elas nos mesmos moldes que está negociando com a argelina Cevital, que pretende implantar uma grande siderúrgica em Marabá, no lugar da natimorta Alpa (Aços Laminados do Pará).

Ontem, sexta-feira, 9, Zeferino Abreu Neto, o Zé Fera, presidente do Sindiferpa (Sindicato das Indústrias de Ferro Gusa do Estado do Pará), recebeu a Reportagem do Jornal CORREIO para informar que entidade vai entregar ao governo do Estado uma carta pedindo que este interceda nas negociações que está fazendo há mais de um ano para que o grupo argelino Cevital assuma o protagonismo de indutor de empregos e geração de renda na região com a instalação de uma grande siderúrgica.

Leia mais:

As nove guseiras afiliadas ao Sindiferpa (Da Terra, Sidenorte, Usimar, Cosipar, Ibérica, Sikel, Sidepar, Ferrogusa Carajás e Maragusa/Âncora) chegaram a gerar cerca de 7 mil empregos no Distrito Industrial de Marabá até 2008. Afundadas numa crise que começou com o preço do gusa despencando no mercado internacional, elas foram afogadas ainda mais na pressão de órgãos ambientais como Ibama, que aplicaram pesadas multas por conta da origem do carvão vegetal (matéria prima do gusa). Com isso, as siderúrgicas começaram a demitir funcionários e a fechar as portas uma a uma. Hoje, nenhuma delas funciona.

Zé Fera explica que a Maragusa foi arrendada para um grupo mineiro e passará a se chamar Âncora. Segundo ele, a empresa está apostando que o pleito do Sindiferpa vai ter sucesso e que a Vale vai fornecer minério a preço mais barato para o setor. Com isso, já está começando a fazer revisão e manutenção de seu alto forno para retomada das atividades. “Queremos a redução do preço do minério, não que ele venha de graça. E temos certeza que isso será possível, porque a quantidade de minério que consumimos no Distrito Industrial de Marabá representa menos de 1% do que a Vale extrai das minas do Complexo Carajás”, diz.

O presidente do Sindiferpa explica que a Âncora já protocolou na Semas (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade) o PSA (Plano de Sustentabilidade Ambiental), apontando quem serão os seus fornecedores de carvão vegetal, como determina a legislação. “As carvoarias já estão registradas e liberadas”, diz.

E o passivo ambiental?

Questionado se as siderúrgicas conseguem voltar a funcionar mesmo sob a fiscalização intenção do Ibama e Semas em relação à origem do carvão vegetal, Zé Fera alega que o problema não é como se pintou no passado. E lembra que as guseiras eram acusadas de serem as responsáveis pelo desmatamento no Pará, mas desde que elas abafaram seus alto fornos a partir de 2008, o desmatamento não parou. “A parte ambiental nunca foi problema para o Distrito Industrial de Marabá e acredito que não será no futuro”, avalia.

O presidente do Sindiferpa crê que projetos já existentes de manejo e serrarias terão como viabilizar o fornecimento da matéria prima (carvão vegetal) para o setor guseiro. Além disso, espera que o governo seja sensível em contribuir para que as empresas do segmento sejam autossustentáveis. “Antes de fechar, tínhamos mais de 50 mil hectares plantados. E aquelas empresas que não estejam aptas a funcionar, que fiquem fechadas até se regularizarem”, pondera.

E qual é o preço do minério para a Cevital?

 Como já divulgado com exclusividade aqui no CORREIO, desde março do ano passado a Vale e a Cevital estão negociando vários itens para que o grupo argelino finque uma siderúrgica no Distrito Industrial de Marabá. A Vale quer se livrar da culpa por ter prometido a Alpa e não ter cumprido. Por isso, está abrindo mão para a empresa argelina de uma série de benefícios, como o terreno já aplainado, as licenças ambientais e também o fornecimento de minério de ferro a preço mais baixos do mercado.

Para isso, os dois lados assinaram um protocolo de intenção com uma cláusula de confidencialidade. Todavia, números levantados pela Reportagem apontam que para a Cevital produzir 2,7 Mt de aço, a Vale teria de lhe repassar 4,5 Mt de minério de ferro por ano. A mineradora brasileira se comprometeu em repassar o minério a custo de fábrica.

Vale lembrar que as minas de ferro que iriam abastecer a Cevital são as de menor custo do globo — as das serras Norte (Parauapebas) e Leste (Curionópolis) produzem a tonelada de minério por 13,20 dólares e em Serra Sul (Canaã dos Carajás) a produção é prevista para chegar a 7,70 dólares.

Só que a Cevital queria, posteriormente, produzir 3,5 Mt de aço, para o que são necessárias 7 Mt de minério. É como se a mina de Serra Leste tivesse de trabalhar o ano inteiro para atender apenas a Cevital, que compraria o melhor produto do mundo, com 67% de hematita, pela liquidação de 13,20 dólares — enquanto nas demais relações comerciais a Vale vende o produto por 82,01 dólares (cotação do final de março) e ainda ganha bônus de, no mínimo, 10 dólares em contratos futuros pelo excepcional teor da commodity do Sistema Norte.

É nesse cenário que as guseiras do Distrito Industrial de Marabá querem ser inseridas, sob a alegação que, juntas, têm capacidade de produzir um número igual o maior de empregos em relação à Cevital.

Dias difíceis

Atualmente, o Distrito Industrial de Marabá vive dias difíceis. Quem o carrega “nas costas” é a Sinobras, que também não vai bem das pernas, porque está sob recuperação judicial e teve problemas para ampliar sua capacidade de produção. Mesmo assim, é quem mantém centenas de empregos. Depois dela, há empresas de menor porte que trabalham prestando serviços para a Vale ou para a própria Sinobras.

Algumas vias asfaltadas são o retrato da ociosidade do DIM. A vegetação em alguns lugares já entrou em quase toda a pista e em pouco tempo os veículos não conseguirão passar.

SAIBA MAIS

O Grupo Âncora, que atua com siderurgia em Minas Gerais, arrendou a planta industrial da Maragusa, que pertence ao Grupo Leolar. Ou a empresa tem plena certeza que conseguirá preços mais baixos de minério de ferro da Vale, ou está dando tiro no escuro. É que já contratou várias pessoas para fazer revisão do alto forno e reformar a estrutura interna da guseira. As obras estão em andamento.

 

Ulisses Pompeu

As guseiras do Distrito Industrial de Marabá (DIM) estão se estrebuchando no túmulo. Querem ressuscitar e dinamizar a economia regional. Mas para isso, vão apelar, na próxima semana, ao governo do Estado, pedindo que faça lobby junto à Vale para que a mineradora venda minério de ferro a elas nos mesmos moldes que está negociando com a argelina Cevital, que pretende implantar uma grande siderúrgica em Marabá, no lugar da natimorta Alpa (Aços Laminados do Pará).

Ontem, sexta-feira, 9, Zeferino Abreu Neto, o Zé Fera, presidente do Sindiferpa (Sindicato das Indústrias de Ferro Gusa do Estado do Pará), recebeu a Reportagem do Jornal CORREIO para informar que entidade vai entregar ao governo do Estado uma carta pedindo que este interceda nas negociações que está fazendo há mais de um ano para que o grupo argelino Cevital assuma o protagonismo de indutor de empregos e geração de renda na região com a instalação de uma grande siderúrgica.

As nove guseiras afiliadas ao Sindiferpa (Da Terra, Sidenorte, Usimar, Cosipar, Ibérica, Sikel, Sidepar, Ferrogusa Carajás e Maragusa/Âncora) chegaram a gerar cerca de 7 mil empregos no Distrito Industrial de Marabá até 2008. Afundadas numa crise que começou com o preço do gusa despencando no mercado internacional, elas foram afogadas ainda mais na pressão de órgãos ambientais como Ibama, que aplicaram pesadas multas por conta da origem do carvão vegetal (matéria prima do gusa). Com isso, as siderúrgicas começaram a demitir funcionários e a fechar as portas uma a uma. Hoje, nenhuma delas funciona.

Zé Fera explica que a Maragusa foi arrendada para um grupo mineiro e passará a se chamar Âncora. Segundo ele, a empresa está apostando que o pleito do Sindiferpa vai ter sucesso e que a Vale vai fornecer minério a preço mais barato para o setor. Com isso, já está começando a fazer revisão e manutenção de seu alto forno para retomada das atividades. “Queremos a redução do preço do minério, não que ele venha de graça. E temos certeza que isso será possível, porque a quantidade de minério que consumimos no Distrito Industrial de Marabá representa menos de 1% do que a Vale extrai das minas do Complexo Carajás”, diz.

O presidente do Sindiferpa explica que a Âncora já protocolou na Semas (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade) o PSA (Plano de Sustentabilidade Ambiental), apontando quem serão os seus fornecedores de carvão vegetal, como determina a legislação. “As carvoarias já estão registradas e liberadas”, diz.

E o passivo ambiental?

Questionado se as siderúrgicas conseguem voltar a funcionar mesmo sob a fiscalização intenção do Ibama e Semas em relação à origem do carvão vegetal, Zé Fera alega que o problema não é como se pintou no passado. E lembra que as guseiras eram acusadas de serem as responsáveis pelo desmatamento no Pará, mas desde que elas abafaram seus alto fornos a partir de 2008, o desmatamento não parou. “A parte ambiental nunca foi problema para o Distrito Industrial de Marabá e acredito que não será no futuro”, avalia.

O presidente do Sindiferpa crê que projetos já existentes de manejo e serrarias terão como viabilizar o fornecimento da matéria prima (carvão vegetal) para o setor guseiro. Além disso, espera que o governo seja sensível em contribuir para que as empresas do segmento sejam autossustentáveis. “Antes de fechar, tínhamos mais de 50 mil hectares plantados. E aquelas empresas que não estejam aptas a funcionar, que fiquem fechadas até se regularizarem”, pondera.

E qual é o preço do minério para a Cevital?

 Como já divulgado com exclusividade aqui no CORREIO, desde março do ano passado a Vale e a Cevital estão negociando vários itens para que o grupo argelino finque uma siderúrgica no Distrito Industrial de Marabá. A Vale quer se livrar da culpa por ter prometido a Alpa e não ter cumprido. Por isso, está abrindo mão para a empresa argelina de uma série de benefícios, como o terreno já aplainado, as licenças ambientais e também o fornecimento de minério de ferro a preço mais baixos do mercado.

Para isso, os dois lados assinaram um protocolo de intenção com uma cláusula de confidencialidade. Todavia, números levantados pela Reportagem apontam que para a Cevital produzir 2,7 Mt de aço, a Vale teria de lhe repassar 4,5 Mt de minério de ferro por ano. A mineradora brasileira se comprometeu em repassar o minério a custo de fábrica.

Vale lembrar que as minas de ferro que iriam abastecer a Cevital são as de menor custo do globo — as das serras Norte (Parauapebas) e Leste (Curionópolis) produzem a tonelada de minério por 13,20 dólares e em Serra Sul (Canaã dos Carajás) a produção é prevista para chegar a 7,70 dólares.

Só que a Cevital queria, posteriormente, produzir 3,5 Mt de aço, para o que são necessárias 7 Mt de minério. É como se a mina de Serra Leste tivesse de trabalhar o ano inteiro para atender apenas a Cevital, que compraria o melhor produto do mundo, com 67% de hematita, pela liquidação de 13,20 dólares — enquanto nas demais relações comerciais a Vale vende o produto por 82,01 dólares (cotação do final de março) e ainda ganha bônus de, no mínimo, 10 dólares em contratos futuros pelo excepcional teor da commodity do Sistema Norte.

É nesse cenário que as guseiras do Distrito Industrial de Marabá querem ser inseridas, sob a alegação que, juntas, têm capacidade de produzir um número igual o maior de empregos em relação à Cevital.

Dias difíceis

Atualmente, o Distrito Industrial de Marabá vive dias difíceis. Quem o carrega “nas costas” é a Sinobras, que também não vai bem das pernas, porque está sob recuperação judicial e teve problemas para ampliar sua capacidade de produção. Mesmo assim, é quem mantém centenas de empregos. Depois dela, há empresas de menor porte que trabalham prestando serviços para a Vale ou para a própria Sinobras.

Algumas vias asfaltadas são o retrato da ociosidade do DIM. A vegetação em alguns lugares já entrou em quase toda a pista e em pouco tempo os veículos não conseguirão passar.

SAIBA MAIS

O Grupo Âncora, que atua com siderurgia em Minas Gerais, arrendou a planta industrial da Maragusa, que pertence ao Grupo Leolar. Ou a empresa tem plena certeza que conseguirá preços mais baixos de minério de ferro da Vale, ou está dando tiro no escuro. É que já contratou várias pessoas para fazer revisão do alto forno e reformar a estrutura interna da guseira. As obras estão em andamento.

 

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