Correio de Carajás

Graduada em Letras, assentada paraense traduz em poesia a vida de mulheres rurais

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Uma contadora de histórias, com espírito ousado e olhar compassivo. Sob o pseudônimo de Kennya, a agricultora Gracivan da Silva Santos Pereira descobriu no mundo das letras o poder da mobilização em prol dos direitos das mulheres rurais. Moradora do Assentamento Tupã, em Xinguara, interior do Pará, Kennya tem cerca de mil poesias escritas. Uma delas conquistou o primeiro lugar do concurso “Vozes, Imagens, Histórias e Experiências das Mulheres Rurais”, realizado em 2017, no âmbito da 2ª edição da campanha Mulheres Rurais, Mulheres com Direitos.

A poesia vencedora se chama “Uma Maria Quarqué” e foi baseada em uma história pessoal de preconceito vivenciada por Gracivan. “Eu sô uma Maria quarqué. Uma dessas muié, qui vivi na roça, qui viaja di carroça, di cavalo ou a pé. Eu sô uma maria quarqué. Dessas que acorda cedin, faz o bolo i o café, cuida da casa, du quintá, dus bichin, dos animá, qui sustenta o brasí di pé”, diz o início da poesia.

Quando recebeu energia elétrica em sua propriedade, Kennya decidiu ir à cidade alugar alguns filmes para assistir em casa. Ao informar que vivia na área rural, Kennya não foi autorizada a retirar os Dvds.

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“A mulher disse que, de repente, se eu não voltasse para devolver os Dvds, ela não teria como me encontrar na área rural, então se recusou a locar os filmes. Foi dessa revolta que eu fiz “Uma Maria Quarqué”, para mostrar que nós, trabalhadoras rurais, temos uma dignidade, nós temos um papel social e devemos ser respeitadas por isso”.

A poesia foi lida na Rádio Nacional da Amazônia e encontrou eco na vida de outras personagens do campo. “Muitas mulheres se viram nessa poesia. Uma mulher mandou uma carta para a rádio me agradecendo. Ela voltou a estudar, porque ela ouviu o meu poema e se sentiu inspirada”.

Uma trajetória diferente

Kennya nasceu em um pequeno povoado no interior do Tocantins. Aos cinco anos de idade, sua família se mudou para Xinguara, no Pará. Filha de quebradeira de coco e de um dentista “prático”, Kennya lembra com orgulho do exemplo dos pais, com quem aprendeu a sempre correr atrás do que acredita.

“Meu pai colocava a mochila nas costas e saia fazendo dente, fazendo dentadura e a minha mãe ficava em casa, quebrava coco, trabalhava na colheita da roça dos outros para ajudar no sustento da família”.

O pseudônimo Kennya foi criado a partir do apelido “pequena” pelo qual é carinhosamente conhecida em sua comunidade. O dom da escrita foi descoberto ainda na infância. “Isso é uma poesia! ” Exclamou a professora ao ler a redação feita por Kennya em uma aula da 4ª série. Alguns anos depois, já adolescente, ela participou de concursos de poesia no município, mas o casamento aos 16 anos a fez interromper os estudos.

Depois de criar seus três filhos, Kennya decidiu voltar à sala de aula. Foram cerca de 17 anos afastada dos livros. “Por uma responsabilidade social de influenciar outras mulheres, eu voltei para a escola”.

Seguindo uma trajetória diferente da maioria das mulheres que vivem no campo, Kennya pegava carona ou ônibus e percorria pelo menos 15 Km até a cidade mais próxima de sua casa para estudar.

Concluída a etapa do supletivo, Kennya conseguiu uma bolsa do Prouni e se formou em Letras. Hoje, ela está tentando novamente vencer a distância da cidade para completar a pós-graduação. “O meu intuito é fazer doutorado em Língua Portuguesa Literária, ainda vou chegar lá, fé em Deus”.

Kennya faz parte do pequeno universo de 385 mil mulheres rurais brasileiras que tem 15 anos ou mais de estudo, o que representa 2,5% da população feminina que vive no campo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Seu desempenho lhe rendeu ingresso na Academia Xinguarense de Letras, na Associação de Escritores do Sudeste do Pará, além da liderança em um grupo independente de mulheres da região. A poetiza também lançou o livro “Depoimento de uma Sem Terra” e está preparando a segunda obra intitulada “Poesia é Vida”.

Depois da vitória no concurso das mulheres rurais, Kennya decidiu mobilizar outras mulheres para que elas participassem de outras edições do concurso. Pela iniciativa, recebeu um convite para se tornar embaixadora da campanha na região Norte.

“Quando eu chego, por exemplo, numa rádio local, eu digo: “olha, fui premiada, ganhei um prêmio internacional”. Isso faz com que as mulheres trabalhadoras tenham dignidade”.

Com a formação acadêmica, Kennya complementa a renda fazendo resenhas ou revisão de dissertações, enquanto continua trabalhando no campo, seja no plantio de culturas ou na produção de produtos artesanais. “Só eu, meu filho e meu sobrinho trabalhamos, em pequena escala, é bem familiar. A gente produz aqui no sítio milho, mandioca, frutas. Eu extraio a polpa e vendo. Também faço artesanato da moringa, em cápsula, de xampu, sabonete”.

Para ampliar a comercialização de seus produtos, Kennya tem buscado acesso à crédito e a certificação da agricultura familiar, com o selo “Aqui tem Mulher Rural”. Como a propriedade está em nome do esposo, ela ainda não consegue ter a declaração de aptidão do Pronaf. “A minha maior dificuldade hoje é em ter acesso a financiamento”.

Inspiração no próximo

Enquanto tenta superar os gargalos para desenvolver seu trabalho em campo, é na dor do outro que ela se inspira para encontrar as palavras e rimas de seus poemas. As situações de violência, a sobrecarga de trabalho das mães, a submissão conjugal, a falta de renda, o sonho com a terra própria ou qualquer outro desafio social enfrentado no campo pelas mulheres viram arte nas mãos de Kennya.

“Tem muitas mulheres rurais que sofrem com o machismo, com essa opressão. Ainda existem mulheres vítimas de violência muito grande no campo, que não conseguem ser ouvidas, ser alcançadas. As nossas lutas são muito grandes”.

Kennya lamenta que ainda falte na comunidade rural delegacias ou locais de acolhimento para as mulheres denunciarem violações que enfrentam no dia a dia. “A minha preocupação agora não é a Kennya, porque eu tenho voz e vou gritar, então dificilmente alguém vai querer mexer comigo. A minha preocupação hoje é com outras trabalhadoras rurais que não têm voz. Faltam opções, se elas quiserem sair dessa vida, onde vão chegar? Falta pra elas coragem e um pouco de apoio, porque não têm um local pra dizer: vou sair daqui, mas ali eu vou conseguir me reerguer, ser alguém e ter dignidade”.

E nos versos de outro poema sobre as mulheres rurais, Kennya prova que não é uma Maria qualquer:

“Maria que é capaz de abrir pote; que é capaz de carregar o pote, de construir seu próprio pote.

Maria que carrega no corpo o corpo da humanidade; Que carrega em seu peito o  leite que dá vida a outras vidas.

Maria que nem sempre por prazer, proporciona prazer, para ver feliz quem ela ama.

Maria que por amor se entrega, sonha e luta. Maria que tantas vezes não dorme, não come, não sorri, mas, espera…Maria que produz e gera economia, que tece os fios de sua própria história.

Maria que chora; Que não sabe por onde começar, mas recomeça.

Maria que não precisa ser Maria homem, Maria João ou Maria José; Que escolhe um homem por amor e não por dependência, Maria guerreira, Maria forte, Maria capaz…

A todos nós, Marias mulher, delicadas, vaidosas e sensíveis, A todas nós que somos apenas e tão somente Marias, Que ser Maria por si só já é o bastante”. (MAPA GOV)

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