Correio de Carajás

Fechamento eterno: 30 anos vivendo o Correio por dentro

Hoje, 15 de janeiro de 2026, o Jornal Correio, impresso, completa 43 anos. É uma idade respeitável para um jornal do interior da Amazônia, onde tudo é mais distante, mais caro, mais difícil e, por isso mesmo, mais significativo. Para mim, essa data não é apenas um marco editorial. É quase uma biografia paralela.

Há 30 anos, atravessei pela primeira vez a porta da Redação. Cheguei estagiário, com a pressa típica de quem acha que o mundo começa ali e termina na próxima edição. O cheiro da tinta, o barulho seco das teclas, o relógio sempre adiantado em relação ao fechamento ensinaram cedo que jornalismo não espera ninguém. Aprendi observando, errando, refazendo. Como se aprende de verdade.

Vieram as primeiras notícias curtas, quase tímidas, enxutas por necessidade e insegurança. Depois, os textos ganharam corpo, contexto, densidade. Passei a entender que uma notícia não é apenas o que aconteceu, mas por que aconteceu, a quem interessa, quem se beneficia e quem paga a conta. Esse entendimento não vem em manual; vem com o tempo e com a rua.

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Fui repórter, jornalista sênior, editor. Troquei o caderno por planilhas de pauta, a rua pelo olhar atento sobre o todo, sem nunca abandonar a desconfiança saudável de quem sabe que a melhor história quase sempre está fora da versão oficial. Mais tarde, virei cronista, talvez porque algumas verdades só cabem quando a notícia já não dá conta.

Houve períodos em que a Redação parecia respirar no mesmo compasso da cidade. Bastava um boato correndo na Velha Marabá, um silêncio estranho nos corredores do poder ou uma denúncia sussurrada no fim de tarde para sabermos que o fechamento daquela edição não seria comum. O telefone tocava mais do que devia, a rua invadia a pauta e o jornal deixava de ser apenas registro para se tornar instrumento. Nessas horas, aprendi que o jornalismo local não é pequeno; ele apenas carrega, em escala humana, conflitos enormes.

No meio do caminho, o jornalismo investigativo deixou de ser uma ambição distante para se tornar método. Vieram reportagens que incomodaram, revelações que sacudiram estruturas, textos que ultrapassaram o papel e se transformaram em audiências públicas, investigações, mudanças concretas na vida da cidade. Nem sempre agradaram. E ainda bem. Jornal que agrada a todos costuma falhar no essencial.

Nesse percurso, dividi mesas, cafés frios e madrugadas com dezenas de profissionais da escrita. Alguns já tombaram, deixando saudade e exemplos silenciosos. Outros se aposentaram, levando consigo histórias que nunca caberão em uma lauda. E há os que chegam todos os anos, mais jovens, mais inquietos, trazendo à Redação uma energia que renova o jornal e nos obriga a não envelhecer por dentro.

Aprendi que um jornal é feito tanto de memória quanto de reinvenção. Que tradição sem renovação vira museu. E renovação sem memória vira ruído.

Sou conhecido, confesso, pelo rigor com os títulos. Um título errado compromete a melhor apuração. Um título frouxo trai o leitor. Por isso, elaboro três, cinco, às vezes oito títulos antes de decidir qual vai para a página. Não é teimosia; é responsabilidade. Lembro sempre de uma frase atribuída a um autor maranhense pouco lembrado, mas certeiro: “Os homens, como a notícia, valem pelos títulos.” Talvez por isso eu os trate com tanto zelo.

Trinta anos depois, continuo chegando cedo, saindo tarde e acreditando que contar histórias ainda é uma forma de servir. O Jornal Correio segue historiando Marabá e região. E eu sigo com ele, como quem sabe que algumas vidas não se separam do papel, da tinta e da urgência de dizer o que precisa ser dito.

Quarenta e três anos para o jornal. Trinta para mim. No fim, é a mesma história sendo escrita, todos os dias, antes do fechamento.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras