Correio de Carajás

Entre poças, mangueiras e bocejos de janeiro

A chuva em Marabá não cai. Ela visita. Chega devagar, como quem pede licença à quentura antiga do asfalto da Transamazônica, estala nos telhados de eternit da Cidade Nova, corre ligeira pelas valetas da Nova Marabá e vai se aninhando nas poças que brotam nos quintais como espelhos improvisados do céu cinzento. E toda vez que ela vem assim, meio tímida, meio generosa, me dá um cansaço bom, desses que começam nos olhos, escorrem pelo corpo e terminam num bocejo largo, quase um pedido de descanso.

Outro dia, desses de janeiro que parecem agosto de tão secos, a chuva resolveu cair de repente, sem aviso de trovão, sem relâmpago cinematográfico, só o barulhinho miúdo batendo nas folhas da mangueira do quintal e no pé de jambo que insiste em sobreviver ao calor. Eu estava ali, depois de uma manhã inteira pendurado em obrigações, subindo e descendo escadas invisíveis da vida, quando o vento chegou trazendo aquele cheiro de terra molhada que só quem vive no Sudeste do Pará sabe reconhecer como perfume raro.

Bocejei. Um bocejo puxou o outro, como castanha quando começa a cair do ouriço e não para mais. Não era tédio, era alívio. Era o corpo agradecendo a trégua que a chuva traz para quem já vinha cozinhando em banho-maria desde cedo.

Leia mais:

Na varanda, a samambaia ressuscitou de um jeito quase milagroso, as folhas verdes se espreguiçando como gente que acorda de rede depois do almoço. A roseira que eu já dava como perdida resolveu abrir uma flor vermelha de última hora, dessas que parecem sangrar beleza no meio do calor bruto. Até o pé de pimenta, que vinha triste e murcho há dias, pareceu se animar, ainda que não tenha resistido muito tempo depois, vítima talvez do sol impiedoso ou de algum quebranto imaginário que a gente insiste em acreditar quando a planta morre sem explicação.

A chuva foi pouca, dessas que não enchem rio nem alagam rua, mas enchem a alma. O Itacaiunas nem sentiu, o Tocantins seguiu largo e silencioso, mas dentro de casa era como se um inverno amazônico particular tivesse sido decretado por alguns minutos.

Bocejei de novo.

Lembrei de quando era menino e a chuva virava feriado informal. Se começasse a cair forte, ninguém tinha pressa de nada. A rua de barro virava lama, o jogo de bola acabava porque a mãe gritava pra gente entrar, e a gente entrava contrariado só no começo, porque logo vinha o café quente, o cheiro de bolo simples e o convite involuntário do sono.

Hoje não tem mais rua de barro, tem asfalto quente que fuma quando a água cai. Não tem mais tempo de sobra, tem agenda, compromisso, mensagem apitando no celular, notícia pra fechar. Mas a chuva ainda tem o mesmo poder antigo de puxar a gente para dentro, para o silêncio, para um descanso que parece proibido nos dias modernos.

Enquanto ela caía, pensei nas castanheiras resistindo aqui e ali pela cidade, segurando o céu com seus galhos enormes, acostumadas a chuvas de verdade, dessas que duravam horas. Agora recebem essas visitas rápidas, quase envergonhadas, como se o clima também tivesse pressa.

Bocejei mais uma vez, olhando o céu fechar e abrir de novo em poucos minutos.

Deu vontade de deitar sem culpa, de ouvir o resto da chuva pingando nos cantos do telhado, de cochilar como quem se entrega a um pequeno milagre cotidiano. Deu vontade até de jogar porrinha, aquelas partidas antigas de palito que a gente fazia em qualquer esquina, só pra matar o tempo enquanto o mundo passava devagar.

Lembrei dos ônibus velhos sacolejando pela VP-8, do trocador conversando alto, do motorista contando vantagem, da gente indo e voltando da escola ou do trabalho com sono acumulado e sonhos grandes demais para o calor que fazia.

Se aqui em Marabá toda vez que chovesse virasse folga, acho que a cidade inteira bocejaria junto, como um coral cansado pedindo descanso. Mas a chuva é rara, visita breve, quase um sussurro no meio do barulho do sol.

Por isso quando ela vem, mesmo pouca, mesmo ligeira, eu agradeço.

Bocejo.

E penso que dormir com a chuva, mesmo por alguns minutos, é um luxo que só quem vive nesse calor danado entende de verdade.

* O autor é jornalista há 30 anos e publica crônica às quintas-feiras

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.